
Cozinheira Traída: Renascimento Ardente
Capítulo 3
O ar na cozinha estava pesado, uma mistura de vapor, aromas e a tensão que emanava de mim. Pedro olhava para o pote na mão de Isabela, seus olhos brilhando de ambição. Ele via ali um atalho para a glória, um truque para vencer o Concurso Culinário Nacional.
"Obrigado, Bela. Você é a melhor", ele disse, pegando o pote.
Isabela lançou um olhar para mim, um pequeno sorriso vitorioso em seus lábios. Ela se virou para mim, a preocupação em sua voz era tão falsa que me dava náuseas.
"Lívia, você está tão pálida. Aconteceu alguma coisa? Não está se sentindo bem por causa da pressão do concurso?"
Sua voz era um veneno doce, calculado para me fazer parecer fraca e instável na frente de todos. Na minha vida passada, eu teria gaguejado uma desculpa. Desta vez, eu a encarei, meus olhos frios e vazios.
"Estou ótima", respondi, minha voz firme, cortando o ar.
Um dos chefs assistentes, Tiago, um garoto que eu tirei da rua e ensinei tudo que sabia, franziu a testa.
"Chef, relaxa um pouco. A Isabela só quer ajudar. Não precisa ser tão dura com ela."
Outra assistente, Carla, concordou com a cabeça.
"Verdade, chef. Estamos todos no mesmo barco. Toda ajuda é bem-vinda."
O desprezo deles era palpável. Eles me viam como um obstáculo, uma tirana. Anos de dedicação, noites sem dormir criando cardápios, defendendo-os de críticas, tudo esquecido. Eles só viam o sucesso de Pedro, e eu era a sombra que o impedia de brilhar ainda mais.
Pedro se virou para mim, a irritação clara em seu rosto.
"Lívia, qual é o seu problema? É só um tempero. Deixe de criar caso por nada."
Ele abriu o pote, pronto para provar. A cena era idêntica à da minha memória, o prelúdio da minha ruína.
Eu dei um passo à frente.
"Pedro, não coma isso."
Ele parou, a colher a centímetros de sua boca.
"De novo essa história?", ele disse, exasperado. "O que foi agora?"
"Esse tempero está adulterado", falei, minha voz ressoando com uma calma mortal. "Contém um tranquilizante. Se você comer, será o fim da sua carreira. Banimento permanente."
Um silêncio chocado tomou conta da cozinha. Isabela engasgou, seus olhos se encheram de lágrimas.
"Lívia! Como você pode dizer uma coisa dessas? Eu jamais faria mal ao Pedro!"
Pedro olhou de mim para Isabela, que agora soluçava em seus braços. A escolha dele foi instantânea, previsível.
"Já chega, Lívia!", ele gritou, seu rosto vermelho de raiva. "Você passou dos limites! Está expulsando todo mundo com seu ciúme doentio! A Isabela é minha amiga de infância, ela nunca me faria mal!"
Ele me empurrou para o lado, protegendo Isabela.
"Você só quer me prejudicar porque tem medo que eu faça mais sucesso que você", ele acusou.
Eu não recuei. Olhei nos olhos dele, o homem que eu amei, o homem que me deu um tapa e me deixou para morrer.
"Você é cego, Pedro. E essa sua cegueira vai te destruir."
Isabela, entre soluços, pegou a colher.
"Deixa, Pedrinho. A Lívia não quer que você use. Tudo bem", ela disse, com a voz embargada. "Eu só queria ajudar."
Era a isca perfeita. A donzela em perigo. E Pedro, como sempre, mordeu a isca.
"Não", ele disse, com a mandíbula cerrada, olhando diretamente para mim. "Eu vou usar. E vou provar para você que está errada."
Ele pegou a colher da mão dela, encheu-a com o tempero em pó e, desafiadoramente, levou-a à boca. Ele engoliu, o sabor amargo e químico se misturando à sua ambição.
Ele lambeu os lábios.
"Viu? Delicioso. Nada de errado."
Ele sorriu para Isabela, um sorriso de cumplicidade.
Eu apenas observei. Não houve gritos, não houve potes quebrados, não houve tapa. Houve apenas a fria e silenciosa aceitação do destino que ele mesmo escolheu. O veneno estava dentro dele agora. E não havia nada que eu pudesse fazer, ou quisesse fazer, para tirá-lo de lá.
Você pode gostar





