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Capa do romance Correntes da Ilusão

Correntes da Ilusão

Após meses de investigação, os detetives André Gonçalves e Luis Oliveira falham ao encontrar um esconderijo vazio no Rio de Janeiro. Frustrado com o sumiço dos traficantes e das drogas, André busca refúgio na pacata pensão de uma antiga conhecida para descansar. No entanto, o isolamento não garante paz, pois o crime costuma perseguir os agentes da lei. Agora, o que deveria ser um retiro tranquilo se transforma em um novo e perigoso desafio.
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Capítulo 3

Dalva olhava orgulhosa para a placa nova que tinha colocado na entrada de seu Sítio: Hotel Estrela Dalva. Abanou a cabeça satisfeita e voltou para a grande casa branca no centro do terreno, a qual se referiam como sede. 

Dalva era viúva, 65 anos, baixa, um pouco acima do peso, cabelos grisalhos e olhos gentis, que parecia estar sempre preocupada com tudo. O dinheiro de sua família se desintegrou com o tempo devido a crises e também a investimentos infelizes. Tendo sobrado apenas o sítio para administrar, Dalva decidiu transformá-lo em um pequeno hotel de campo, investindo todo o dinheiro que restava no empreendimento. 

Apesar do sítio ser grande e espaçoso, Dalva optou por oferecer poucas vagas ao público, para que pudesse dar atenção especial aos hóspedes e manter o ambiente o mais familiar possível. Ela não queria e nem precisava da pressão de grandes hotéis com quartos reduzidos em tamanho e conforto, e uma multidão de estranhos. Não... O que ela queria mesmo era o efeito de uma pousada, com alguns hóspedes para manter o sítio vivo e ativo com uma renda razoável para se sustentar.

Do quadro de empregados conseguiu manter apenas um caseiro, José, para cuidar da horta, jardim e dos animais. Tinha também uma senhora, Rose, para ajudar na faxina e arrumação da casa. Dalva se encarregava da cozinha e administração do "hotel".

Pela manhã, Dalva recebeu um telefonema incomum que a surpreendeu e ao mesmo tempo preocupou. Era o pedido de reserva de dois quartos para o próximo fim de semana em nome de uma atriz formosa, Verônica Fourton, mas com a condição de que ninguém soubesse sua identidade e assim ela ficasse anônima.

O marido da atriz disse que esposa teve recentemente uma crise nervosa e precisava de repouso em um lugar de paz e tranquilidade. Ele acreditava que encontraria tais condições no campo, em especial no hotel estrela Dalva. 

Marcaram de chegar no domingo seguinte pela manhã e ele disse que a esposa gostaria de ser chamada pelo nome de Ana, para que ninguém a reconhecesse.

Era a primeira vez que Dalva receberia hóspedes tão ilustres e tal fato a deixava preocupada. "Estariam as instalações de acordo com o gosto deles?" Torcia para que a atriz não fosse dada a grandes frescuras, seria difícil atender uma hóspede cheia de caprichos, como algumas atrizes costumam ser...

"Talvez devesse comprar toalhas e lençóis novos, e era urgente uma ida até o mercado da cidade para completar a despensa..."

Naquela mesma noite, Dalva decidiu se distrair na companhia dos jovens hóspedes do hotel, três deles eram hóspedes permanentes e dois deles haviam chegado há apenas três dias. 

Ela olhou para um dos hóspedes permanentes, Rafael, por quem sentia muito carinho e via como o filho que nunca teve.

Rafael estava tocando violão perto da fogueira. Nas noites mais frias, os jovens costumavam acender uma fogueira e confraternizar em torno dela. Ele tinha 25 anos, era alto, cerca de 1,80 , cabelos curtos e olhos castanhos. Foi o primeiro hóspede de Dalva, se hospedando logo depois que ela inaugurou o pequeno hotel, pouco mais de um ano antes. Ele havia chegado naquela cidade decidido a se afastar de tudo e de todos, e, ao procurar um lugar para ficar, encontrou no sítio de Dalva, se encantando no mesmo instante. 

O local se tornou o seu "retiro espiritual" e lar desde então.

Alguns meses depois de Rafael, chegou Letícia, afilhada de Dalva e filha de uma mulher da região que trabalhava como faxineira do sítio na época das vacas gordas. Letícia era uma espécie de secretária de Dalva, ajudando como podia com os serviços burocráticos e administrativos do sítio. Era uma moça muito séria e comportada, além de muito bonita em seus vinte anos, óculos, cabelos e olhos negros e pele branca de aparência vivaz. 

Letícia estava sentada ao lado de Rafael e cantava alegremente enquanto ele tocava.

— Toca mais uma, Rafa! — Pediu Letícia quando Rafael parou de tocar e encostou o violão no tronco onde estava sentado.

— Estou cansado, "tô" precisando daquele cafezinho que só Dona Dalva sabe fazer. — Disse Rafael enquanto se levantava, tentando insinuar seu desejo pela bebida para a proprietária do sítio.

Ela sorriu para ele, dizendo:

— Não seja por isso, toque ai uma moda de viola das antigas que passo um cafezinho pra vocês!

Letícia se ofereceu para ajudar Dona Dalva na cozinha e a acompanhou. Rafael se espreguiçou para esticar um pouco o corpo que estivera sentado já há algum tempo na mesma posição.

— Vitória, você precisa aprender a fazer café como Dona Dalva, isso a tornaria uma mulher perfeita para casar! — Disse Rafael provocando Vitória, uma outra hóspede que estava distraidamente segurando uma rosa que tinha pego no jardim do hotel.

— Pretendo me casar com um homem que não goste de café, ou que seja capaz de, pelo menos, fazer ele mesmo o próprio café. — Ripostou provocadora.

— Pois eu pretendo me casar com uma mulher prendada, que cuide muito bem do meu estômago.

— Alguém já te disse que você é machista?

— Não sou machista! Acho que, assim como os homens, as mulheres têm o direito de escolherem como viver suas vidas, mas também acho que eu tenho o direito de escolher uma mulher que combine com o meu modo de vida.

— Que seria ficar na gandaia e sua esposa trabalhando como escrava em casa pra você?

— Eu não falei nada disso. Admiro mulheres que sabem cozinhar bem pelo simples fato de eu gostar de comer bem e não saber nem ao menos fritar um ovo. O resto saiu de sua cabeça!

Vitória chegou ao sítio um mês depois de Letícia. Uma jovem de vinte e oito anos, solteira, cabelos negros cacheados na altura dos ombros, personalidade forte e rosto bonito que lembrava uma boneca antiga de porcelana, e sempre que podia, viajava para fora do país.

— Rafael, você já reparou que Letícia está caidinha por você?— Disse Vitória maliciosamente.

— Vitória, querida, não se preocupe, Letícia está vacinada contra os homens. Não se interessa por nenhum, sua paixão são os cavalos. — Ripostou Rafael divertido.

— Soube que teremos novos hóspedes esse fim de semana. — Disse Rita batendo palmas ao sentar perto do casal, sentindo-se animada com a novidade. — Ouvi Dalva falando com Letícia, as duas estavam combinando de ir à cidade comprar algumas coisas amanhã, por causa da chegada desses hóspedes.

Rita era uma mulher de meia idade, estava hospedada no sítio de férias com o marido e haviam se registrado no hotel há três dias. Era baixinha e um tanto magricela, de aspecto frágil e delicado, seu marido era um homem calvo, barrigudo e com ares de importante chamado Ivan. Eram comerciantes e, como gostavam de mencionar, sempre passavam as férias no campo.

— Que boa notícia! Dona Dalva estava ficando preocupada com o número de hóspedes durante o inverno. — Disse Rafael consciencioso.

— Manter um negócio como esse é mesmo complicado... — Disse Rita

— Eu acho ótimo que chegue mais gente, tomara que sejam pessoas interessantes — Disse Vitória excitada.

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