
Corações Partidos
Capítulo 3
Na noite de núpcias, o quarto estava decorado com flores brancas e velas, mas o ar era frio. Pedro, vestindo um roupão de seda, sentou-se na poltrona do outro lado do quarto, longe da cama. Ele não a olhou com desejo, mas com a praticidade de um CEO fechando um negócio. Ele jogou uma pasta sobre a cama. "Assine isso."
Era o acordo de divórcio. O nome dele já estava lá, em uma assinatura forte e decidida. "É uma formalidade", ele explicou, sem emoção. "Meu avô ainda está no controle. Isso é para garantir que, se algo der errado, possamos nos separar sem complicações. É para me proteger da família, não de você."
Sofia, com o coração apertado, lembrou-se daquelas palavras. Ela assinou, acreditando que era apenas uma salvaguarda temporária, um passo necessário para que um dia eles pudessem ser um casal de verdade. Ela nunca imaginou que o acordo seria usado contra ela, que a "amiga" com quem ele não conseguia dormir se tornaria tão descartável.
Agora, de volta ao presente, a dor daquela lembrança se misturava à humilhação do dia. Pedro a arrastava pela casa, ignorando o papel do divórcio sobre a mesa. A cena na sala de jantar era surreal. Ana, com um sorriso vitorioso, se desculpou novamente.
"Sofia, eu sinto muito pelo que aconteceu hoje. Eu não sei como aquelas fotos foram parar no meu pen drive. Eu me sinto péssima", ela disse, a voz cheia de uma falsa sinceridade que revirava o estômago de Sofia.
Pedro sentou-se à cabeceira da mesa, como um rei em seu trono. Ele olhou para Sofia com desdém. "Já chega de drama. O que está feito, está feito. Você deveria ter sido mais cuidadosa."
Ele não a defendeu. Ele não questionou como as fotos, que só ele tinha, poderiam ter vazado. Ele a culpou.
"Você foi rebaixada para o arquivo. Ana vai assumir suas responsabilidades anteriores na equipe de projetos", ele anunciou, como se estivesse falando do tempo.
Sofia sentiu um nó na garganta. Ela olhou para a comida na mesa. Todos os pratos estavam vermelhos, cobertos de pimenta. Moqueca com azeite de dendê, vatapá, acarajé. Pratos que Pedro sabia que ela não podia comer. Ela tinha gastrite crônica, uma condição que piorava drasticamente com comida picante. Ele sabia disso melhor do que ninguém.
"Eu não estou com fome", disse Sofia, a voz baixa e trêmula.
Os olhos de Pedro se estreitaram. "Você vai comer."
"Eu não posso comer pimenta, Pedro. Você sabe disso."
Ana interveio, com sua voz doce e venenosa. "Oh, eu não sabia! Eu preparei tudo isso porque sei que são os pratos favoritos do Pedro. Eu posso fazer outra coisa para você, Sofia, se quiser."
A oferta era uma faca disfarçada de gentileza.
Pedro ignorou a oferta de Ana. Ele se inclinou para a frente, a voz baixa e ameaçadora, para que apenas Sofia pudesse ouvir. "Sua equipe inteira trabalhou duro neste projeto. Eles não têm culpa do seu erro. Se você não comer esta noite, se não mostrar que pode ser grata pela hospitalidade de Ana, amanhã todos eles estarão na rua. Começando por Marina."
Marina era sua melhor amiga, sua confidente, que a apoiou por todos esses anos. Pedro estava usando a lealdade de Sofia, a única coisa que ele sempre disse admirar nela, como uma arma para torturá-la.
O olhar dele era impiedoso. Ele não estava brincando.
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