
Corações Partidos: A Teia da Traição
Capítulo 3
Dois dias depois, recebi alta do hospital.
Pedro veio buscar-me. O seu rosto estava sombrio, os seus olhos evitavam os meus.
O silêncio no carro era pesado, denso.
Quando chegámos a casa, o ar parecia parado, poeirento.
Tudo me lembrava o Lucas. Os seus pequenos sapatos de dinossauro à porta. O seu desenho colorido preso com um íman no frigorífico. O seu cheiro ainda pairava no seu quarto.
Entrei no quarto dele e fechei a porta.
Sentei-me no chão, abracei o seu urso de peluche favorito, e chorei.
Chorei pela sua risada que nunca mais ouviria, pelos seus abraços que nunca mais sentiria, por todos os futuros que lhe foram roubados.
Pedro bateu à porta.
"Clara, por favor. Precisamos de conversar."
Abri a porta. A minha cara estava inchada, os meus olhos ardiam.
"Não há nada para conversar. Quero que saias."
Ele olhou para mim, a dor evidente no seu rosto.
"Não posso deixar-te sozinha assim."
"Não estou sozinha," disse eu, a voz vazia. "Estou com a memória do meu filho. É mais do que tu tens."
Ele recuou como se eu lhe tivesse batido.
"Isso não é justo, Clara."
"Justo? Queres falar sobre o que é justo? O meu filho de seis anos está morto. Isso é justo? Tu mentires-me enquanto ele estava num caixão frio, isso é justo?"
A minha voz subiu a cada palavra.
"Eu estava a cuidar da Sofia! Ela estava traumatizada!"
"E eu? E o teu filho? Nós não importávamos?"
"Claro que importavam! Eu amo-te, Clara! E amava o Lucas mais do que a vida!"
"Não me parece," cuspi as palavras. "Pega nas tuas coisas e sai. Vou ligar a um advogado amanhã."
Ele ficou ali parado por um longo momento, o seu peito a subir e a descer rapidamente.
Finalmente, ele assentiu, derrotado.
"Tudo bem. Se é isso que queres."
Ele foi para o nosso quarto e começou a fazer as malas.
Eu fiquei na porta do quarto do Lucas, a observá-lo. Cada movimento dele parecia lento, deliberado.
Ele não discutiu. Não implorou.
Ele simplesmente aceitou.
E isso doeu mais do que qualquer grito.
Mostrou-me que, no fundo, ele já tinha desistido de nós. Talvez há muito tempo.
Quando ele saiu, a casa ficou terrivelmente silenciosa.
O silêncio era um monstro, a devorar tudo.
Naquela noite, não consegui dormir.
Fiquei a olhar para o teto, a reviver o acidente vezes sem conta na minha cabeça.
O clarão. O som. A escuridão.
Havia algo errado. Uma peça do puzzle que não encaixava.
Porque é que a Sofia só teve arranhões, enquanto o Lucas... enquanto eu fiquei em coma?
Estávamos todos no mesmo carro.
O meu instinto dizia-me que algo estava terrivelmente errado.
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