
Corações Desfeitos, Impérios Reconstruídos
Capítulo 3
Seguindo o conselho sem nexo de sua amiga, Luana respirou fundo e decidiu procurar por Gustavo.
Talvez uma parte dela, a parte tola e apaixonada que se recusava a morrer, ainda quisesse acreditar que tudo era um pesadelo, um engano.
Ela não o encontrou no salão principal. Um garçom informou que ele e seus amigos haviam ido para a suíte presidencial no último andar, para uma "after-party" particular.
Com o coração na mão, Luana pegou o elevador.
A porta da suíte estava entreaberta. Música alta e risadas vazavam pelo corredor.
Ela parou do lado de fora, reunindo coragem para entrar. E foi então que ela ouviu a voz dele, clara e alta, sobre a música.
"Dez anos, cara. Você consegue imaginar? É como usar a mesma roupa todo santo dia. Cansa, sabe? A gente precisa de coisa nova, de pele fresca."
Luana espiou pela fresta da porta. A cena a atingiu como um soco no estômago.
Gustavo estava largado em um sofá, com uma das modelos loiras sentada em seu colo, a mão dela descia perigosamente por seu peito. Outras modelos riam ao redor, junto com os amigos dele.
"Mas e a empresa? A Luana não é a alma do negócio?" um dos amigos perguntou, um dos poucos que ainda tinha um pingo de bom senso.
Gustavo riu, um som debochado que fez o sangue de Luana gelar.
"A alma? Ela é uma boa designer, não vou negar. Mas qualquer um pode ser um bom designer. Eu sou o rosto, o nome. A L&G sou eu. Ela é substituível."
A modelo em seu colo riu e o beijou no pescoço.
"Você acha que ela vai te dar problemas com a divisão dos bens?" outro amigo perguntou.
"Que problemas?" Gustavo respondeu, com desdém. "Ela me ama. Vai chorar por algumas semanas, mas depois vai aceitar qualquer migalha que eu oferecer. Ela não tem para onde ir sem mim."
Os amigos dele começaram a rir e a fazer piadas sobre Luana. Sobre como ela estava "passada", sobre como Gustavo finalmente "se libertou". Eles a dissecavam como se ela fosse um objeto, uma peça de roupa velha que estava sendo descartada.
Cada palavra era uma facada. A humilhação no salão de festas não era nada comparada a isso. Ali, na privacidade de seus "amigos", a verdadeira crueldade de Gustavo se revelava.
Então veio o golpe final. A frase que quebraria Luana para sempre.
A modelo no colo de Gustavo perguntou, com uma voz melosa: "Mas e se ela não aceitar, Gugu? E se ela arrumar outro?"
Gustavo gargalhou, um som alto e repulsivo.
"Outro? Quem vai querer? Com a idade dela, depois de dez anos comigo... Ela já é, sei lá... mercadoria de segunda mão. Ninguém quer um carro usado quando pode ter um zero quilômetro."
Mercadoria de segunda mão.
A frase ecoou no silêncio do corredor, abafando a música, as risadas, tudo.
O coração de Luana parou de doer. Ele simplesmente se partiu em mil pedaços. A dor era tão intensa que se tornou física, uma pressão esmagadora no peito que a deixou sem ar.
O amor que ela sentia por ele, a devoção, a esperança tola de que houvesse um engano, tudo isso morreu naquele instante.
Ela não entrou. Não gritou. Não fez uma cena.
Com uma calma assustadora, ela se virou e caminhou em direção ao elevador. Seus passos eram firmes, silenciosos.
Dentro dela, uma tempestade de dor e raiva se formava, mas por fora, ela era uma estátua de gelo.
A mulher que amava Gustavo morreu naquele corredor. Uma nova mulher, forjada na humilhação e na traição, estava começando a nascer.
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