
Coração Traído: Vingança Brilha
Capítulo 3
Pedro e Sofia voltaram para a sala alguns minutos depois, seus rostos perfeitamente compostos em máscaras de preocupação.
"Meu amor, como você está?" Pedro se apressou em me ajudar a levantar do chão.
Seu toque queimava minha pele.
"Conseguimos falar com o Sr. Almeida," disse Sofia, sua voz carregada de uma falsa angústia. "Eles vão levar isso para a polícia. Mas Pedro disse que vai contratar os melhores advogados."
Eu olhei para os rostos deles, para a atuação impecável, e uma onda de náusea me subiu pela garganta.
"Eu... eu não me sinto bem," consegui dizer, minha voz um fio.
"Você está pálida. É o choque," disse Pedro, passando a mão pelo meu cabelo. "Vou te levar para o hospital. Precisamos garantir que você está bem."
Ele se virou para Sofia.
"Ligue para o meu motorista. Diga para ele nos encontrar na entrada dos fundos. E nada de hospital particular."
Sofia o olhou, confusa por um segundo.
"O hospital público?"
"Exatamente," ele disse, com um olhar significativo que eu agora entendia perfeitamente. "Quero que a imprensa nos veja chegando. Quero que todos vejam como eu estou cuidando dela neste momento terrível. A imagem é tudo, Sofia."
A frieza calculista em sua voz era assustadora.
Ele estava orquestrando cada detalhe do espetáculo.
"Certo, entendi," Sofia disse, saindo rapidamente para fazer a ligação.
Pedro me ajudou a ficar de pé, seu braço firme ao redor da minha cintura.
"Você vai ficar bem, Ana. Eu estou com você."
Eu queria gritar. Queria arrancar seu braço de mim. Queria expor a farsa ali mesmo.
Mas o que eu diria? "Eu ouvi vocês confessando um crime no corredor?"
Eles negariam. Eu pareceria uma louca delirante, desequilibrada pela acusação.
Eu estava presa.
Enquanto caminhávamos pelo corredor de serviço, flashes de memória me assaltaram.
Lembrei-me de todas as vezes que Pedro me dizia para não me preocupar com os negócios, para focar apenas no meu "talento criativo".
Lembrei-me de todas as vezes que Sofia "inocentemente" me pedia para ver meus esboços preliminares, elogiando meu trabalho enquanto, eu agora percebia, seus olhos calculavam e cobiçavam.
Lembrei-me das pequenas sabotagens, dos prazos perdidos por "erros" de assistentes que Sofia havia recomendado, dos rumores sutis sobre minha "instabilidade emocional" que Pedro sempre desmentia com um ar nobre, o que só os fazia parecer mais verdadeiros.
Não era amor. Nunca foi.
Era um longo e paciente cerco.
Eles estavam me isolando, me minando, preparando o terreno para o golpe final.
A compreensão me atingiu com tanta força que meu estômago se revirou violentamente.
Parei no meio do corredor, me curvei e vomitei no chão de concreto.
Era o meu corpo expelindo o veneno da traição deles.
"Ana!" Pedro exclamou, fingindo pânico.
Ele segurou meu cabelo para trás, sua voz cheia de uma ternura fabricada.
"Meu Deus, você está passando muito mal. Precisamos correr para o hospital."
Ele pegou um lenço do bolso e limpou minha boca com um cuidado que era pura performance.
Cada toque dele era uma violação.
O motorista, um homem chamado Jonas que trabalhava para Pedro há anos, já nos esperava com o carro ligado.
Ele abriu a porta, seu rosto uma máscara de profissionalismo, mas eu vi algo em seus olhos quando ele olhou para mim.
Piedade? Culpa?
"Para o Hospital Municipal, Jonas. Rápido," Pedro ordenou, me acomodando no banco de trás.
Ele entrou ao meu lado, me puxando para perto, forçando minha cabeça a descansar em seu ombro.
O cheiro do seu perfume caro me sufocava.
Eu me sentia como um pássaro em uma gaiola de ouro.
Por anos, Pedro me deu tudo que o dinheiro podia comprar, viagens, roupas, um apartamento de luxo.
Ele me deu a liberdade de criar sem me preocupar com as contas.
Mas era uma liberdade falsa.
Ele estava, na verdade, me podando, me domesticando, garantindo que eu dependesse completamente dele.
Ele era o dono da gaiola, o provedor do alpiste, e agora, o mestre do meu destino.
Eu era sua propriedade.
Enquanto o carro acelerava pela noite, olhei para o rosto de Jonas no retrovisor.
Nossos olhares se cruzaram por um breve segundo.
Ele desviou o olhar rapidamente, mas não antes de eu ver a contração em sua mandíbula.
Ele sabia.
Talvez não de tudo, mas ele sabia que algo estava profundamente errado.
Essa pequena faísca de humanidade em meio à escuridão me deu um pingo de força.
Nem todos eram monstros.
Nem todos eram parte da conspiração.
E essa percepção, por menor que fosse, foi a primeira semente de uma ideia que começou a brotar no solo devastado da minha mente.
Eu não iria apenas sobreviver a isso.
Eu iria lutar.
Você pode gostar





