
Coração Quebrado, Alma Vingada
Capítulo 3
Pedro chegou em menos de vinte minutos. Ele entrou no quarto do hospital sem bater, seus olhos escuros fixos em Maria. Ele era o oposto de João. Onde João era o sol brilhante, Pedro era a noite silenciosa, intenso e insondável.
Ele olhou para o curativo na lateral dela, depois para a palidez em seu rosto. Sua mandíbula se contraiu.
"Ele fez isso com você", afirmou Pedro, não era uma pergunta.
Maria não respondeu. Apenas o encarou, a determinação endurecendo seus traços.
"Você estava falando sério no telefone?", ele perguntou, sua voz baixa.
"Eu nunca falei tão sério na minha vida", respondeu ela, a voz firme apesar da dor. "Eu quero me casar com você. O mais rápido possível."
Pedro a estudou por um longo momento. Havia uma tempestade em seus olhos, uma mistura de raiva e algo mais, algo que se parecia com proteção.
"Tudo bem", ele disse finalmente. "Mas com uma condição."
Maria esperou.
"Você tem uma semana. Uma semana para se recuperar e cortar todos os laços com ele. Depois disso, você vem comigo, e nós nunca mais olhamos para trás. Se você hesitar, se pensar em voltar para ele, o acordo está desfeito."
"Uma semana é mais do que eu preciso", disse Maria. "Para mim, ele já está morto."
A expressão de Pedro suavizou por um instante. Ele puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da cama, uma presença sólida e silenciosa no quarto que, horas antes, tinha sido palco da maior traição da vida dela.
Nos dias seguintes, Maria se concentrou em sua recuperação com uma determinação feroz. Ela seguiu todas as instruções dos médicos, comeu a comida sem graça do hospital e começou a andar pelo corredor assim que teve permissão, cada passo uma reafirmação de sua decisão.
João não apareceu.
Ele ligava, enviava mensagens cheias de desculpas e promessas vazias. "Ana precisa de mim agora, meu amor. Seja paciente." "Estou com saudades. Assim que ela melhorar, vou te compensar por tudo."
Maria lia as mensagens com um distanciamento gelado e as apagava sem responder. Uma enfermeira particular, contratada por Pedro, cuidava dela, garantindo que ela tivesse tudo o que precisava. A enfermeira, uma mulher gentil de meia-idade, às vezes comentava: "Seu namorado parece muito ocupado com a irmã. Ele nem veio te visitar."
"Ele não é meu namorado", corrigia Maria, a voz desprovida de emoção.
No quinto dia, quando Maria estava prestes a receber alta, João finalmente apareceu. E ele não veio sozinho.
Ele entrou no quarto com um sorriso radiante, empurrando um carrinho de sobremesas coberto por uma cúpula de prata. Atrás dele, vieram alguns de seus amigos da equipe de atletismo, segurando balões e um enorme buquê de rosas.
"Surpresa!", João anunciou, abrindo os braços.
Maria o encarou da cama, sem expressão.
Ele removeu a cúpula de prata, revelando um bolo em forma de coração. Em letras vermelhas, estava escrito: "Casa comigo, Maria?"
Ele se ajoelhou, pegando uma caixinha de veludo do bolso. "Maria, eu sei que fui negligente esses dias. Mas tudo o que fiz foi por você, por nós. Eu quero passar o resto da minha vida com você. Case-se comigo."
A cena era tão absurdamente falsa que Maria sentiu uma náusea amarga. Ele estava propondo casamento para a mulher cujo filho ele tinha matado e cujo rim ele tinha roubado.
Antes que ela pudesse responder, a porta do quarto se abriu novamente.
Ana entrou, apoiada no braço de uma enfermeira, parecendo pálida e frágil. Ela usava um pijama de hospital idêntico ao de Maria. Seus olhos se arregalaram ao ver a cena.
"João? O que está acontecendo aqui?" Sua voz era fraca, cheia de mágoa.
João se levantou em um pulo, o anel esquecido em sua mão. "Ana! O que você está fazendo fora da cama? Você precisa descansar!"
"Eu estava preocupada com você", ela choramingou, cambaleando dramaticamente. "Você não me visitou hoje. Eu vi os balões e... e pensei que a surpresa era para mim."
A provocação era clara. Seus olhos encontraram os de Maria por cima do ombro de João, e um sorriso malicioso e triunfante brilhou por uma fração de segundo.
João, completamente cego pela manipulação dela, correu para o lado da irmã, o pânico em seu rosto. "Claro que não, Ana. Isso é... isso é para a Maria. Mas não se preocupe, eu estou aqui agora."
Ele abandonou completamente a proposta de casamento. O bolo, o anel, as flores, tudo foi esquecido. Ele envolveu Ana em seus braços, murmurando palavras de consolo, como se ela fosse a única pessoa no mundo.
Os amigos de João olhavam, constrangidos. O constrangimento público de Maria era palpável. Ela era a noiva abandonada no altar improvisado do hospital, trocada pela irmã manipuladora dele.
Enquanto João a levava para fora do quarto, prometendo cuidar dela, Ana olhou para trás, para Maria. Seus lábios se moveram, formando duas palavras silenciosas, mas perfeitamente claras para Maria ver.
"Você perdeu."
Naquele momento, qualquer resquício de dúvida, qualquer partícula de dor que ainda pudesse existir, se transformou em gelo. A decisão de ligar para Pedro não foi um ato de desespero. Foi um ato de sobrevivência. E agora, mais do que nunca, ela sabia que tinha sido a escolha certa.
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