
Coração Partido, Alma Forte
Capítulo 2
A ligação veio no meio da tarde, um número desconhecido piscando na tela do celular. Atendi, esperando que fosse um cliente ou talvez um engano.
A voz do outro lado era de um antigo colega da faculdade, alguém que eu não via há anos.
"Lia? Sou eu, o Ricardo. Desculpa ligar assim do nada, mas… eu acho que você precisa saber de uma coisa."
A pausa dele foi longa demais, carregada de um peso que senti imediatamente no estômago.
"O que foi, Ricardo?"
"Eu estou no Hospital Santa Clara com a minha mãe. E eu vi o Marcos. Ele não está sozinho."
Meu coração parou por um segundo.
"Com quem ele está?" , perguntei, embora uma parte de mim já soubesse a resposta, o nome que era um fantasma em nosso casamento.
"Com a Sofia. Eles pareciam… íntimos. Ele estava segurando a mão dela, levando-a para uma consulta. Desculpa, Lia, eu pensei que você deveria saber."
A linha ficou muda. A notícia não fez barulho, não explodiu. Apenas se instalou, um veneno frio se espalhando pelas minhas veias. Choque. Incredulidade. E então, uma raiva silenciosa e profunda.
Desliguei sem me despedir. Por alguns minutos, fiquei parada no meio da sala, olhando para a parede. Tentei encontrar uma explicação lógica, uma desculpa que pudesse fazer aquilo parecer normal. Marcos tinha dito que tinha uma reunião importante do outro lado da cidade, uma que poderia garantir sua promoção. Ele não estaria num hospital com ela. Era um engano. Tinha que ser.
Mas a semente da dúvida já estava plantada, crescendo rápido demais. Peguei minha bolsa e as chaves do carro. Eu não liguei para ele. Não mandei mensagem. Eu precisava ver com meus próprios olhos.
O trânsito até o Hospital Santa Clara foi um borrão. Minhas mãos tremiam no volante. Eu repetia para mim mesma que era um mal-entendido, que Ricardo tinha se confundido. Marcos e Sofia tinham terminado há mais de uma década, muito antes de nos conhecermos. Era passado.
Encontrei uma vaga e andei rápido para dentro do prédio. O cheiro de desinfetante e doença me atingiu em cheio. Fui até a recepção, o coração batendo forte contra minhas costelas.
"Estou procurando por Sofia Neves. Ela tem uma consulta hoje?"
A recepcionista digitou no computador, o rosto impassível.
"Sim. Oncologia, terceiro andar, sala 304. Ela acabou de entrar."
Oncologia. A palavra me atingiu como um soco. Mas a dor da possível doença dela foi rapidamente substituída pela imagem que se formou na minha cabeça: Marcos, ao lado dela, na oncologia.
Peguei o elevador, sentindo um frio que não vinha do ar-condicionado. O terceiro andar era silencioso, um corredor longo com portas fechadas. E lá, no final do corredor, em frente à porta 304, estava ele.
Marcos.
Ele não me viu. Estava de costas, falando baixo com uma enfermeira. Sua postura era protetora, tensa. A porta se abriu e Sofia saiu. Ela parecia pálida, mais magra do que eu me lembrava das fotos antigas, mas o sorriso que deu para ele era inconfundível. Um sorriso de cumplicidade, de intimidade.
Ele pegou a mão dela, exatamente como Ricardo descreveu, e se virou.
Foi quando seus olhos encontraram os meus.
O choque no rosto dele foi imenso, uma mistura de pânico e culpa. Ele soltou a mão dela instantaneamente, como se tivesse se queimado.
"Lia? O que… o que você está fazendo aqui?"
Eu não respondi. Apenas olhei para a mão dele, agora vazia, e depois para o rosto de Sofia, que me encarava com uma expressão de falsa surpresa.
"A reunião foi cancelada?" , perguntei, a voz saindo mais firme do que eu esperava.
Ele gaguejou, procurando palavras. "Lia, eu posso explicar. Não é o que parece."
Sofia interveio, a voz fraca, mas calculada. "Marcos estava apenas me ajudando. Eu não tenho mais ninguém."
Marcos imediatamente se virou para ela, o tom dele mudando para um de preocupação genuína, uma preocupação que ele não me mostrava há anos.
"Você está bem, Sofia? Não se esforce. Volte para dentro, descanse."
Ele a tratava como se ela fosse feita de vidro, e a mim, sua esposa, como uma intrusa. A visão dele defendendo-a, cuidando dela na minha frente, quebrou algo dentro de mim. A raiva que estava contida transbordou.
"Por que você está aqui, Marcos? Por que mentiu para mim?"
"Eu não menti!" , ele disse, elevando a voz. "Eu ia te contar! Mas a Sofia… ela precisa de mim agora. Você não entende a situação!"
"A situação? A situação é que minha 'reunião importante' está no setor de oncologia com a sua ex-namorada! Que situação eu não estou entendendo, Marcos?"
"É complicado, Lia! Não é sobre nós, é sobre ela! Ela está doente!"
A forma como ele disse "ela" , como se a doença dela justificasse tudo, como se a dor dela fosse a única que importasse no mundo, foi a gota d'água. Ele não estava apenas ajudando uma amiga. Ele estava vivendo a dor dela, e eu fui completamente excluída da equação.
"E eu? Onde eu fico nisso tudo? Na sua lista de coisas para 'explicar depois' ?"
Ele me olhou, e pela primeira vez, não vi culpa ou pânico. Vi impaciência. Frieza.
"Lia, agora não é a hora nem o lugar pra isso. Seja razoável."
Razoável. Ele mentiu, me traiu emocionalmente, estava ali com a mulher que ele um dia amou, e pedia para eu ser razoável. Olhei para o rosto dele, para os traços que eu conhecia tão bem, e vi um estranho. Um homem frio, distante, cuja lealdade claramente não estava mais comigo. A dor se transformou em um vazio gelado. Naquele corredor de hospital, sob a luz fluorescente e o cheiro de desinfetante, eu senti meu casamento morrer. Eu não disse mais nada. Apenas me virei e caminhei de volta para o elevador, deixando-o para trás, ao lado dela. O som dos meus passos ecoava no silêncio, cada um marcando o fim de uma era.
Você pode gostar





