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Capa do romance Coração Dilacerado, Alma Libertada

Coração Dilacerado, Alma Libertada

Elara acreditava ser o tesouro de Kael, o Senhor do Abismo, cuidando da Flor da Alma por amor. Contudo, ele traz Lira de uma guerra e passa a priorizá-la. Para curar a nova mulher, Kael exige as pétalas da flor, mesmo que isso drene a vida de Elara. Ao descobrir que foi apenas uma ferramenta descartável e que seu afeto era uma farsa, ela decide partir para o Rio do Esquecimento. Elara prefere a própria extinção a servir como um objeto de um deus cruel.
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Capítulo 2

Kael, o Senhor do Abismo, sempre disse que eu era seu tesouro mais precioso, a única luz em seu reino de sombras eternas. Nós vivíamos no Palácio das Penumbras, um lugar construído com rocha obsidiana e iluminado por cristais que pulsavam com uma luz suave e prateada. Ele me amava, ou pelo menos, eu acreditava que sim. Cada manhã, ele mesmo trançava meus longos cabelos prateados, suas mãos grandes e ásperas, geralmente usadas para empunhar uma espada, se movendo com uma delicadeza surpreendente. Ele dizia que meu cabelo era como um pedaço do luar que ele capturou para si.

Nossa vida era tranquila, um contraste com o caos que ele governava. Ele era um deus, um ser de poder imenso, temido por todos. Mas comigo, ele era apenas Kael. Ele me protegia de tudo, das intrigas dos outros deuses e das pressões de seu próprio povo. Eu, por minha vez, cuidava do Jardim Lunar, um pequeno pedaço de terra no coração do palácio onde eu cultivava a Flor da Alma, uma planta que só florescia com a energia vital de quem a cuidava. Era o meu presente para ele, um símbolo do meu amor.

Tudo mudou no dia em que ele retornou de uma batalha nas fronteiras do reino. Ele não veio sozinho. Ao seu lado, estava uma mulher de aparência frágil, com olhos grandes e assustados e cabelos escuros como a noite. Ele a carregava nos braços, e seu olhar para ela era cheio de uma preocupação que eu nunca tinha visto antes.

"Esta é Lira", ele anunciou para mim, sua voz desprovida do calor habitual. "Ela foi ferida. Vai ficar conosco até se recuperar."

Naquela noite, ele não veio ao nosso quarto. Ele ficou ao lado da cama de Lira, segurando sua mão. Eu o observei da porta, uma sombra invisível em minha própria casa. A mudança foi súbita, como uma tempestade que se forma sem aviso. Seus sorrisos desapareceram quando dirigidos a mim, suas mãos não mais procuravam as minhas, e o silêncio entre nós se tornou pesado, sufocante.

Alguns dias depois, a condição de Lira piorou. O curandeiro do palácio balançou a cabeça, dizendo que a energia dela estava se esvaindo e que apenas um poder vital muito forte poderia salvá-la. Foi então que Lira, com a voz fraca, sussurrou sobre a Flor da Alma. Ela disse que sentia sua energia curativa e que talvez uma de suas pétalas pudesse salvá-la.

Kael veio até mim no Jardim Lunar. Era a primeira vez em dias que ele me procurava por vontade própria. Seu rosto estava tenso, seus olhos escuros fixos nas flores brilhantes.

"Elara, Lira precisa de uma pétala da Flor da Alma", ele disse, sem rodeios.

Meu coração parou. "Kael, você sabe o que isso significa. Cada pétala contém parte da minha força vital. Arrancar uma vai me deixar doente por meses."

"É apenas uma pétala", ele insistiu, sua voz se tornando mais dura. "Ela está morrendo. Você não faria esse sacrifício para salvar uma vida?"

A forma como ele falou, como se eu fosse egoísta, me feriu profundamente. Olhei para o rosto dele, procurando qualquer traço do homem que me amava, mas só encontrei a frieza de um deus exigindo um tributo. Com as mãos trêmulas, aproximei-me da flor mais brilhante, a que eu nutria com mais carinho, e arranquei uma de suas pétalas. No instante em que a pétala se soltou, uma dor aguda percorreu meu corpo, e eu caí de joelhos, ofegante. Kael pegou a pétala da minha mão sem sequer olhar para o meu estado. Ele se virou e correu de volta para o quarto de Lira, me deixando sozinha e enfraquecida no chão frio do jardim.

Naquela noite, a dor no meu corpo era insuportável, mas a dor no meu coração era ainda pior. Eu não conseguia dormir, então vaguei pelos corredores silenciosos do palácio. Quando passei pelo escritório de Kael, ouvi vozes. Era ele e seu conselheiro mais próximo. Eu parei, escondida nas sombras, e escutei.

"Senhor, tem certeza de que este é o caminho certo? Lady Elara está sofrendo", disse o conselheiro.

A resposta de Kael foi um golpe que me deixou sem ar. "O sofrimento dela é temporário. É um preço pequeno a pagar. Lira é a chave para a aliança com o Reino da Luz. O amor dela me dará o poder que preciso. Elara... Elara sempre foi apenas uma guardiã para a flor. Seu propósito está quase cumprido."

As palavras dele ecoaram na minha cabeça, destruindo cada memória feliz que tínhamos construído. Eu não era seu tesouro. Eu era uma ferramenta. Uma guardiã. Meu amor, meu sacrifício, tudo era apenas um meio para um fim. A dor física desapareceu, substituída por um vazio gelado. Eu me afastei da porta, movendo-me como um fantasma. Naquele momento, no silêncio do palácio que um dia foi meu lar, tomei uma decisão.

Eu iria embora. Não para outro reino, não para um lugar onde ele pudesse me encontrar. Eu iria para o único lugar de onde ninguém retorna. O Rio do Esquecimento, que leva ao ciclo de reencarnação. Eu preferia ser apagada a viver mais um segundo como a tola de um deus.

Voltei para o meu quarto e chamei Silas, meu único atendente leal, um jovem que eu havia resgatado anos atrás. Seus olhos se encheram de pânico quando viu meu rosto pálido e a determinação fria nos meus olhos.

"Silas", eu disse, minha voz firme, apesar do tremor interno. "Eu preciso que você me ajude. Preciso que você prepare uma passagem para as Terras Desoladas, perto do precipício onde o Rio do Esquecimento corre."

Ele começou a protestar, mas eu o interrompi. "Não há mais nada para mim aqui. Por favor, Silas. É meu último pedido."

Ele olhou para mim, as lágrimas brotando em seus olhos, e finalmente assentiu. A traição de Kael não me mataria. Eu mesma escolheria meu fim.

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