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Capa do romance Coração Desprezado

Coração Desprezado

Ricardo Alcântara lidou com a rejeição de Alicia Guimarães por anos, enquanto Júlia Silveira, ferida por uma desilusão, desistiu de amar. Unidos pela dor, esses dois corações desprezados buscam escapar de novos sentimentos e do sofrimento. Contudo, o amor surge de forma inesperada entre eles. Terceiro volume da Série Corações Insensíveis, esta obra foca em um novo casal e pode ser lida sozinha, embora contenha spoilers dos livros anteriores.
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Capítulo 2

O remorso é a única dor da alma, que nem a reflexão nem o tempo atenuam.

Madame de Staël

Júlia

Estava sentada em frente ao meu computador, na sala em que trabalhava na empresa Gusmão e Associados, refletindo sobre a minha vida e as escolhas que eu havia feito ao longo dos meus vinte e três anos.

Desde que o novo gerente de projetos havia assumido a equipe da qual eu fazia parte, uma vez que o senhor Waldir, meu antigo chefe, havia se aposentado, que a minha vida no trabalho tinha mudado drasticamente.

Para meu total desprazer, Maxwell Miller havia assumido a posição e ele simplesmente estava dificultando o meu trabalho de proposito, eu não tinha dúvida, pois ele deixava isso bastante claro.

Eu nunca havia sido uma garota “sortuda”, àquela que tudo que faz, ou que pretende fazer, dar certo. Mas a maioria das pessoas também não. Então até aí, eu era só mais uma pessoa vivendo uma vida normal, enfrentando algumas dificuldades.

Alguns diriam que eram desafios.

Independentemente da nomenclatura utilizada, eu considerava que estava tudo caminhando para alcançar a minha tão sonhada estabilidade.

Eu havia nascido em Brotas, interior de São Paulo e sempre me senti muito feliz ao lado dos meus pais. Mas tudo mudou quando minha mãe faleceu e meu pai colocou outra mulher dentro de nossa casa, menos de dois meses depois.

Durante a minha adolescência, presenciei um desfile constante de mulheres entrar e sair da vida do meu pai, e consequentemente, da minha também.

Mesmo assim, meu pai conseguiu me surpreender quando em meu aniversário de dezenove anos, ele e minha melhor amiga, a Samantha, assumiram um relacionamento e decidiram que iriam se casar. Aquilo me deixou devastada, eu realmente não esperava e falei àquilo para eles.

Meu pai me pediu então para sair de sua casa. Mesmo eu não tendo nenhum outro lugar para onde ir, pois a minha única família era ele e seus irmãos e nenhum deles me aceitou em suas casas.

Não podendo contar também com a minha melhor amiga, apelei então para a Cecília, uma grande amiga de infância, que já não morava mais em Brotas fazia mais de cinco anos, mas com quem sempre mantive contato.

Ela me aceitou em sua casa e me mudei então para São Paulo, aonde consegui encontrar, de maneira rápida, um emprego e pouco tempo depois, dei início ao meu curso de engenharia civil, algo que eu sempre sonhei em fazer.

O meu emprego era bastante razoável, levando-se em conta que ainda estava cursando a faculdade e eu dividia um apartamento de dois quartos com a Cecília, em um bairro relativamente calmo.

A gente se dava bem e sempre saíamos para nos divertir com nossos amigos JP, Vivi e César e eu gostava muito da minha nova vida em São Paulo e acreditava que estava tudo muito tranquilo, apesar do que tinha acontecido com meu pai.

Isso até conhecer Maxwell Borges, o que acabou por se tornar mais um divisor de águas na minha vida, há dois anos atrás e que agora havia voltado para tirar a minha estabilidade, não apenas psicológica dessa vez, como também a financeira.

Eu gostava muito do meu emprego, até que o novo gerente de projetos havia assumido a equipe e a minha vida no trabalho tinha mudado drasticamente, pois o Max, como ele se havia se apresentado para mim em uma boate, há dois anos, havia assumido a posição e ele simplesmente estava dificultando o meu trabalho de proposito, eu não tinha dúvida, pois ele deixava isso bastante claro.

Ele passou a me perseguir no trabalho, me mudou de função e me colocou como sua secretaria, na tentativa ridícula de me fazer aceitar ser sua amante, me fazendo propostas absurdas durante o meu expediente de trabalho.

Como eu dependia totalmente daquele emprego para pagar minha faculdade e as minhas despesas morando na capital, tentei encontrar outro emprego, para então poder pedir demissão.

Infelizmente não fui selecionada em nenhuma das entrevistas das quais eu havia participado e hoje me encontrava em um beco sem saída, pois não queria depender da bondade dos meus amigos para tudo o que eu precisava e sabia que não conseguiria aguentar trabalhar com o Max por muito tempo mais.

Para meu total desprazer,

- Venha até minha sala, Júlia. Agora! – Maxwell falou pelo interfone e eu rolei os olhos de desgosto.

Me preparei psicologicamente para enfrentar mais uma batalha, baixei minha saia o máximo possível e ajeitei o decote extravagante da blusa que eu tinha sido obrigada a usar como farda no meu trabalho, ideia do Max, é claro.

- Pois não, senhor Maxwell? – Tentei manter uma fachada de neutralidade, apesar de estar trincando os dentes de raiva daquele mal caráter.

- Sente-se aqui, de frente para mim. – Ordenou em um tom que me dava calafrios de repulsa.

Fiz conforme me ordenou e aguardei pelas orientações. Se é que seria algo relacionado ao trabalho.

- Pensou sobre a minha proposta?

- Está se referindo ao convite para jantar? – Questionei, arqueando a sobrancelha.

- Também. – O olhei sem entender. – Não desejo apenas um jantar com você. Sabe que quero bem mais que isso.

Enquanto falava, se levantou de seu lugar por trás da mesa, caminhando a passos lentos e parando então por trás da cadeira na qual eu estava sentada.

Apesar de não conseguir ver o seu rosto, não lhe dei o prazer de me virar em sua direção.

- Não tenho interesse. – Disse apenas.

Senti quando ele colocou suas mãos sobre o encosto da cadeira que eu estava e fiquei imediatamente tensa.

- Acho melhor você reconsiderar.

Ele havia se abaixado ao ponto de falar bem próximo ao meu ouvido, o que me fez ter ânsias de vômito, ao sentir o cheiro do seu perfume assim tão próximo de mim.

Pensei em me levantar, mas ele estava me cercando, sua intenção de me intimidar era clara.

- Como já falei, eu não estou interessada.

Decidi me levantar, não estava aguentando aquela proximidade entre nós. As lembranças dos olhares condenatórios das pessoas do prédio, do bebê que perdi, da pessoa insegura que eu tinha me tornado, tudo muito fresco em minha memória ainda.

Mas antes que eu pudesse dar ao menos um passo, Max me agarrou por trás, me mantendo presa entre seus braços, que me apertaram.

- Você não tem opção, Júlia. Ou você aceita o que estou te oferecendo, ou você pode se considerar mais uma na fila do desemprego.

Ele falava suspirando alto e seu hálito me fez quase vomitar ali mesmo, tamanho era o nojo que eu sentia daquele homem.

- Me solta ou eu vou gritar tão alto, que todos nessa empresa vão me ouvir. – Não foi uma ameaça vazia.

Tentei me soltar, fazendo bastante força em meus braços, mas ele os prendia de maneira firme, e era bem mais forte que eu.

Como ele não afrouxou o agarre, eu fiz menção de abrir a boca, pois eu realmente pretendia gritar a plenos pulmões, mas ele colocou a mão sobre os meus lábios, evitando dessa forma que eu concluísse a ação.

Me virou de frente para ele, conseguindo manter uma de suas mãos em minha boca e a outra juntou as minhas em um aperto só, e estava tão firme, que eu já estava começando a sentir dor aonde ele segurava.

Quando ele começou a afastar a mão que estava sobre a minha boca, eu acreditei que ele me deixaria livre para gritar, mas fui novamente surpreendida por sua ação, pois ele colocou sua boca por sobre a minha, me mantendo presa em seu aperto e seu beijo punitivo, machucando meus lábios.

Não consegui mais controlar a ânsia que estava sentindo, tamanha era a repulsa que eu sentia pelo Max e estava prestes a vomitar ali mesmo, em cima daquele cretino, quando ele pareceu entender o que iria acontecer e me livrou dos seus braços.

- Mas o que é isso!? – Maxwell perguntou o óbvio, afastando-se de mim, para meu total alivio.

Saí correndo em direção ao banheiro da minha sala, trancando rapidamente a porta e enfim pude despejar todo o alimento que havia conseguido ingerir naquela manhã, que havia sido apenas um suco de laranja, me sentindo completamente esgotada ao termino do ato.

Depois que consegui me recuperar, pelo menos parcialmente, me limpei da melhor forma possível e saí do banheiro, me deparando com o Max me aguardando bem próximo a porta.

- Você pode me explicar o que aconteceu? – Ele exigiu em um tom altivo.

Passei direto por ele, indo até a minha mesa e pegando a minha bolsa.

- Você não precisa me demitir. – Falei imprimindo o máximo de desprezo possível na voz. – Eu estou pedindo demissão.

- Você enlouqueceu?

Não dei nenhuma resposta e saí da sala andando o mais rápido que meus saltos permitiam. Eu queria a maior distância possível entre eu e aquele homem inescrupuloso. Não iria mais me submeter ao seu assédio. Nada poderia vir primeiro que a minha dignidade.

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