
Coração de Pai, Amor Sem DNA
Capítulo 3
A cirurgia de transplante da Sofia foi marcada para a semana seguinte.
O Tiago ficou no hospital para os exames pré-operatórios.
A Clara passava a maior parte do tempo com ele, a discutir os pormenores, a agradecer-lhe incessantemente.
Eu ficava com a Sofia.
"Papá, porque é que a mamã está sempre com aquele tio?"
A Sofia perguntou-me um dia, a sua vozinha fraca a cortar o silêncio do quarto.
Eu acariciei o seu cabelo ralo.
"Ele é um amigo, querida. Ele está a ajudar-nos."
"Ele vai fazer-me ficar boa?"
"Sim, meu amor. Ele vai."
Naquela noite, fui buscar um café à cantina.
Quando voltei, ouvi vozes do corredor.
Era a Clara e o Tiago.
"Tiago, eu não sei como te agradecer. Estás a dar-lhe uma segunda oportunidade de viver."
"Clara, não precisas de agradecer. Ela é... ela também é minha filha."
Houve uma pausa.
"Eu sei que foi um erro, o que aconteceu entre nós. Mas às vezes... às vezes pergunto-me como teria sido se tivéssemos ficado juntos."
O meu coração parou.
Eu não conseguia acreditar no que estava a ouvir.
"Não digas isso, Clara. Tu estás com o Miguel. Ele é um bom homem."
"Eu sei. Ele é demasiado bom. Ele perdoou-me. Mas será que alguma vez esqueceu? Eu vejo nos olhos dele, Tiago. A dor está sempre lá."
Eu recuei, o café a arrefecer na minha mão.
A dor estava lá? Sim, estava.
Mas eu amava-a. Eu amava a nossa família.
Pensei que isso era suficiente.
Aparentemente, para ela, não era.
Voltei para o quarto da Sofia em silêncio.
Ela estava a dormir, a sua respiração suave e regular.
Eu sentei-me ao lado dela, a observar o seu rosto pálido.
A mulher que eu amava estava lá fora, a questionar a nossa vida inteira com o homem que a tinha magoado.
E eu estava aqui, a lutar pela filha que nem era minha.
A ironia era esmagadora.
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