
Contrato Obscuro
Capítulo 2
São Paulo — 1994
Alícia olhava pela janela do ônibus sem prestar mesmo atenção no que via. Sabia que era uma grande distância de onde morava até o centro da cidade e pior ainda de onde estava voltando, no extremo oeste da capital de São Paulo. Ela morava no extremo leste e estava voltando da cidade universitária, mas se sentia com uma enorme sensação de dever cumprido, mesmo muito cansada.
Tinha ido tentar o vestibular na USP, por insistência de sua professora de matemática, que a inscreveu e pagou a taxa de inscrição como um presente, dizendo que confiava no potencial dela. Alícia não acreditava tanto assim, por isso nunca pensou em dispôr do valor da taxa. Tinha uma vida muito pobre, estava desempregada e seus pais jamais tirariam das despesas da casa um valor relativamente alto para pagar a inscrição de uma universidade federal, onde ela disputaria 80 vagas para o segundo curso mais concorrido da USP.
Sua mãe Noêmia era costureira, jovem, linda, muito vaidosa. Sempre andava bem arrumada, ela mesma fazia as próprias unhas nos domingos que não fazia horas extras. Seu pai Pedro era segurança, nordestino bronco, ignorante por natureza, tinha muito ciúme de Noêmia, que era 15 anos mais jovem que ele.
Alícia tinha mais duas irmãs e um irmão. Matheo foi dado pra madrinha rica que foi viver na França com o marido quando era ainda um bebê. Ele é gêmeo de Mayara e os dois têm 20 anos. Ela vê algumas fotos antigas dele, há muito tempo perderam o contato. Eles são os brancos dos irmãos, e embora gêmeos, não se parecem muito. Talvez porque Matheo foi criado com dinheiro, saudável e Mayara na dificuldade dos assalariados.
Alícia é a do meio. Em tudo! Com 17 anos, é uma morena cor de papelão e a que mais evidencia a mistura do pai negro e a mãe loira. Apesar da cor, é a que mais se parece com o pai. Chega a ser gritante a semelhança. E depois vem Paola, uma negrinha de 14 anos, bem típica brasileira. Um arraso, corpo escultural, cabelos extremamente cacheados, lábios carnudos. Tão linda que chega dar vontade de bater! E tão meiga e carinhosa que dá vontade de morder.
Como toda filha do meio, Alícia tem a síndrome da rejeitada. Com Matheo longe, Mayara a preferida da mãe e Paola a preferida do pai, não sobrou nada para Alícia. Como sempre se achou sem graça, feinha até e não tinha ninguém pra dar toda a atenção que as irmãs recebiam, se dedicou a estudar. Sempre foi uma nerd de óculos que ninguém nunca notava e as visitas dos pais sempre achavam que ela era a empregada da casa.
Por que ela sempre tinha que fazer todo o serviço, pois Mayara era sempre a anfitriã junto com a mãe e Paola era a pequena. E quanto mais decepcionada ficava com a forma de a mãe tratá-la, mais estudava.
Tinha traçado um futuro pra si. Não era como essas adolescentes emocionadas que só pensavam em homens, em balada ou beijar na boca. Tinha pavor de drogas, homem tocando ela em lugares inapropriados ou coisas desse tipo. Queria estudar, sair da casa dos pais quando fizesse 18 anos, ter seu canto, trabalhar e se manter. Conseguir entrar em alguma universidade pública. Mas aí as dificuldades vieram desde logo. Mesmo trabalhando, a mãe pegava metade do seu salário pra ajudar nas despesas da casa. Também usava seu vale refeição pra fazer compras, mas quando ela chegava da escola, nunca tinha janta pra ela. Então ela tinha que almoçar com a metade dos tickets que recebia e não podia tomar café na rua, nem comer na escola. Seu salário de estagiária não era muito, tinha que comprar a cota de passagens para condução pra escola, livros...
Definitivamente não dava.
Aí a mãe disse que ela não podia mais trabalhar porque ganhava pouco e não estava passando fome, que era mais vantagem pra ela que Alícia ficasse em casa, cuidando de Paola, lavando e passando, e fazendo a comida das marmitas do pai, dela e de Mayara.
Em troca, a mãe com muito custo deixou ela continuar estudando na Etec e comprava a cota dela. Mas livros, tinha que ir à biblioteca fazer os trabalhos e copiar porque ela não pagava xerox, e se isso não atrapalhasse o serviço de casa.
Quando Alícia argumentava que precisava estudar e estava sobrecarregada, a mãe mandava ela parar de ser besta que no máximo ela ia conseguir lavar o banheiro de algum riquinho.
Noêmia dava pouca importância aos estudos de Alícia, porque na verdade ela queria que Mayara tivesse sido agraciada com um cérebro privilegiado. Mas a distribuição de dons não saíram como ela gostaria, e Mayara era linda, mas faltava inteligência e Noêmia entendia como desperdício tanta inteligência numa menina feia.
Alícia desceu do ônibus e começou a caminhada para casa, pensando que desde os 10 anos sabia que a mãe não gostava dela. Não era uma sensação, nem uma impressão. A mãe falou com a própria boca, cara a cara com Alícia. Na época, Celine achou libertador, pois finalmente pôde ter certeza do porquê a mãe tratá-la tão mal. Depois disso, começou a tentar entender o porquê de a mãe não gostar dela.
Sempre foi uma boa filha, fazia todas as tarefas da casa, cozinhava pra família toda, era estudiosa, não dava problemas com namorados nem com encrencas. Nunca questionava porque ganhava menos do que as irmãs, não era rebelde. E mesmo assim a mãe não a suportava de forma nenhuma.
Quando tinha 14 anos, a mãe aceitou pagar a taxa do vestibulinho pra Etec, porque se sentiu culpada ao extremo por um rompante.
Ela estava tentando tirar habilitação, e no dia do exame prático, chegou em casa mais cedo, na parte da manhã. Paola estava na escola e Mayara e o pai no trabalho. Alícia estava esfregando as calças jeans no tanque. Tinham máquina de lavar, mas a mãe não permitia ela usar a máquina para lavar, apenas para enxaguar e torcer. Todas as roupas deveriam ser esfregadas a mão. As piores eram as calças jeans, e eram bastante. Três adolescentes em casa, todos saiam todos os dias de casa para escola e trabalho, então era bastante coisa pra esfregar.
Noêmia foi até a lavanderia direto, sem nem tirar a bolsa do ombro, ficou de frente para Alícia, que olhou para ela assustada.
— Mãe, porque está em casa tão cedo? Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu sim. Eu não passei na prova de direção.
E sem quê nem porquê, estalou a palma no rosto de Alícia. As lágrimas vieram aos olhos da menina, mas não chorou. A mãe odiava demonstrações de fraqueza nela. Ela nunca podia chorar por nada. Então perguntou pra mãe, com os olhos vermelhos tentando controlar a lágrima.
— Porque me bateu?
— Não passei no exame porque estava nervosa. Saí de casa nervosa porque não achei a bermuda que queria usar. E sabe porque não achei? Porque você é uma incompetente, inútil, que não guarda as coisas no lugar certo. Então eu me atrasei procurando e fiquei mais nervosa ainda, porque nem podia te acordar pra procurar pra não me atrasar mais. E acabei reprovando na prova de direção. Por sua culpa, porque tudo o que me acontece de ruim é sua culpa, porque você é um inferno em minha vida!
A mãe deu as costas pra ela, mas antes de sair da lavanderia, parou e sem a olhar falou:
— E vai fazer meu prato que eu tô com fome.
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