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Capa do romance Como nascem os anjos

Como nascem os anjos

Uma lenda antiga sobre um anjo corrompido e sua descendência proibida assombra os arcanjos. Alheia a isso, a estudante Cassiopeia foca apenas em sua rotina exaustiva de trabalho e estudos. Porém, sua vida muda ao salvar um demônio durante um confronto oculto entre o céu e o inferno. Agora, perseguida por seres celestiais, Cassie deve se aliar às forças sombrias para sobreviver e desvendar os segredos perigosos que envolvem sua própria origem.
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Capítulo 2

Quando Cassie retomou a consciência, não conseguiu reconhecer o lugar em que estava. Era como um apartamento abandonado, com teias de aranha e poeira por todos os lados e ela estava deitada em um sofá rasgado e velho. Seu corpo estava dormente, suas pernas formigando e parecia fazer dias que estava dormindo naquela posição. Ela não me lembrava com clareza do que havia acontecido, mas conseguia visualizar homens com espadas lutando entre si e sangue.

— Acordou — uma voz falou atrás dela, fazendo seu coração dar um pulo de susto. — Muito bem, vamos começar.

Seu coração estava tão acelerado que doía só de respirar.

— Ela não comeu nada há três dias — o outro homem presente falou. — Precisa se alimentar antes do interrogatório.

— Interrogatório? — Cassie questionou, se forçando a virar para olhá-los. — São da polícia, por acaso?

— Bem melhor que isso.

— CIA?

— Somos demônios — ele respondeu como se fosse óbvio.

— Como é? — Ela colocou as mãos na testa, finalmente lembrando de tudo o que havia acontecido.

— Calma, Livian, ela vai desmaiar novamente — o outro pediu, sentando ao lado dela com cuidado. — Meu nome é Sky, qual é o seu?

— Cassiopeia — respondeu, escutando suas veias pulsarem nos ouvidos. — O que ele disse é verdade?

— É — respondeu com voz baixa, tentando achar as palavras certas. — Eu vou te explicar o que...

— Fala logo que o está acontecendo, assim podemos despachar ela e matar alguns anjos sem interrupções — Livian disse entediado.

— Como eu estava dizendo — Sky continuou, resistindo ao ímpeto de revirar os olhos —, somos demônios, é verdade. Aqueles com quem lutamos são anjos e há uma guerra entre nós, como todas a histórias contam.

Cassie não duvidou das palavras daquele estranho porque havia visto as asas negras do outro que estava parado em pé e parecia real demais para ser uma mentira. E ele disse tudo de uma forma tão rápida, sem pausa ou hesitação, deixando claro que não era invenção.

Ela olhou para Sky sentado ao seu lado se concentrou em seus olhos, tentando decifrar algo. Como dizia sua mãe, os olhos são a janela da alma, e havia dor e até um pouco de maldade escondida no canto dos olhos dele.

— Então, vocês são os vilões da história! — Concluiu com um susto, se levantando rapidamente para sair dali.

— É claro — Livian disse com um suspiro cansado. — Somos os vilões perto dos gloriosos e bondosos anjos. É o que ensinaram os humanos a acreditarem.

— Não somos os vilões — Sky falou. — Quer dizer, acho que não há vilões ou mocinhos nessa história. É só uma questão de percepção.

— Mas vocês machucam pessoas.

— Segundo a Bíblia, sim.

— Eu acredito na Bíblia — ela falou com convicção —, acredito em Deus e em tudo que é religioso.

— Também acreditamos em Deus — Livian respondeu como se ela tivesse dito algo idiota. — Como anjos, demônios ou tudo que há no mundo existiria se não fosse por ele?

— Vocês são...

— Demônios. É, já sabemos disso.

— Então como acreditam em Deus?

— Por Lúcifer, Sky, tire ela daqui ou eu mesmo tiro e a jogo para Miguel — Livian a ignorou e se voltou para Sky sem paciência.

— Cassiopeia, eu entendo que ache que somos vilões, afinal foi isso que te ensinaram desde criança — Sky começou, achando as palavras certas. — Porém, existe uma coisa sobre os anjos que vocês humanos não sabem e eles não são tão bonzinhos assim.

— Como assim?

— Você escutou muito bem quando o Miguel gritou que te mataria por fazer um acordo conosco. É assim que eles lidam com isso: ou você desfaz o acordo ou morre por isso.

— Eu não fiz acordo nenhum com vocês.

— Não diretamente, mas quando você resolveu me ajudar, cortou sua mão e seu sangue se misturou com o meu. — Ele ergueu a camiseta preta e mostrou o ferimento ainda aberto. — É assim que contratos são iniciados.

— Parabéns — Livian disse com um sorriso forçado, batendo palmas. — Está ligada ao Sky agora, você querendo ou não.

Era muita coisa para Cassie assimilar. Primeiro, ela estava no meio de uma guerra entre anjos e demônios, e agora estava ligada a um demônio? Parecia tudo cena de um filme no qual ela era a mocinha indefesa que mal sabia se defender do mundo. A única pergunta que Cassie se fazia era por que ela?

— Vocês precisam conversar — Livian disse, colocando a jaqueta preta. — Eu volto em meia hora. O assunto de vocês é chato e eu não preciso ficar escutando isso.

Livian foi até enorme janela quebrada e pulou sem hesitar.

— Ai, meu Deus! — Ela gritou, correndo até a janela, mas Livian já havia desaparecido entre os prédios.

— Não se preocupe, ele pode voar — Sky revelou o óbvio. — Vamos resolver os termos da nossa relação antes que o Livian volte, assim podemos ir para casa e...

— Não existe nossa relação — ela interrompeu, se sentando novamente ao lado dele. — Eu vou voltar para minha casa e viver minha vida como se nada houvesse acontecido e esquecer de vocês, dessa guerra e de anjos.

— Gostaria que fosse fácil assim, mas você despertou a fúria dos arcanjos e eles não vão parar até matá-la.

— Não. Eles são seres celestiais, não fariam isso.

— Eles fariam.

— Eu sou uma pessoa boa — explicou, segurando as mãos dele sob o sofá na tentativa de convencê-lo disso. — Eu nunca roubei, matei, nem mesmo brigo com as pessoas. Eu quero ser médica justamente pra ajudar as pessoas. Por favor, eu sou uma pessoa boa, não mereço isso. Acredite em mim.

— Eu acredito. — Sky concordou com a cabeça, segurando suas mãos com cuidado. — Sei que não merece isso, nunca deveria ter me ajudado. Eu até tentei fazer com que fosse embora, mas...

— E eu estou condenada apenas por ajudá-lo?

— Não posso dizer nada para amenizar a situação.

Lágrimas se formaram nos olhos de Cassie e, por mais que ela tentasse segurá-las, não conseguiu e elas mancharam seu rosto. Ela odiava ser tão emocional e chorar por qualquer coisa, a fazia parecer tão mole e frágil, como se qualquer coisa fizesse ela desmoronar.

— Eu vou para minha casa — anunciou com voz embargada, se levantando rapidamente. — Não me procure mais.

— Tem mais uma coisa... — Ele tentou ir até ela, mas caiu no chão gemendo de dor e pressionando a barriga com força.

Mais uma vez, Cassie estava na situação em que seu coração lhe obrigava a ajudá-lo. Tudo aquilo havia começado por causa de uma simples ajuda e por mais que ela soubesse que deixá-lo ali sem olhar para trás era o correto a se fazer, não conseguiu fazer isso e deu meia-volta.

— O que foi? — Ela se ajoelhou ao seu lado e segurou sua cabeça com cuidado.

— O veneno — ele disse com dificuldade —, é muito forte.

— O que eu posso fazer para ajudar?

— Eu preciso da ajuda do Livian. — Ele fechou os olhos com força, tentando parar a dor. — Logo ele chegará.

Com relutância, Cassie ergueu a camiseta dele lentamente, e virou a cabeça rapidamente para evitar ver a carne exposta em tom escuro. Parecia estar apodrecendo mais a cada minuto.

— Você precisa de um médico — ela falou, ajudando-o a se levantar.

— O que você acha que médicos poderiam fazer a um demônio? — Ele questionou, tentando dar um sorriso. — Além disso, remédios humanos não funcionam em mim.

— Então, como vai se curar?

— Certos demônios possuem magia para curar outros.

Assim que Sky terminou de falar, Livian entrou voando pela mesma janela em que havia pulado e dessa vez suas asas estavam com penas reluzentes sob a luz do pôr-do-sol. Eram lindas e pareciam ser tão macias. Cassie teve que resistir ao ímpeto de tocá-las e matar a curiosidade para saber se eram ásperas ou macias.

— Precisamos ir, espero que tenha convencido ela — Livian falou, segurando Sky. — Você não vai aguentar muito se não se tratar.

— Convencer de quê?

— A vir conosco.

— Para onde?

— Para o Pandemonium — Livian respondeu. — Temos ilhas habitadas por demônios de diferentes origens. É claro que não queríamos levá-la conosco, mas como uma humana não pode morar no mundo humano sob ameaça e você tem um contrato com o Sky...

— Eu não tenho contrato com ninguém. — Ela passou por eles em passos largos, indo em direção à porta. — Olha, espero que se recupere, Sky. Eu estou indo para a minha casa e espero nunca mais ver vocês. Boa sorte com os anjos e tudo mais.

Antes que eles pudessem dizer ou fazer algo, Cassie correu para fora do apartamento e desceu as escadas se segurando no corrimão para não cair e morrer de vez, convicta de que agora ficaria longe de problemas e esqueceria de vez esse episódio de sua vida.

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