
Coma Falso, Coração Partido
Capítulo 3
A revelação de Pedro Antunes pairou no ar, mais pesada que a fumaça dos escapamentos. Ex-marido. Juliana nunca tinha me falado que fora casada. Mais uma mentira em uma montanha de enganos.
"Ex-marido?", repeti, minha voz rouca e fraca.
"Sim. A encantadora Juliana esqueceu de te contar esse pequeno detalhe?", ele disse, seu sorriso se alargando. Ele não parecia surpreso. "Não se preocupe, você não é o primeiro. Ela tem o hábito de omitir partes da sua vida que não se encaixam na fantasia que ela cria."
Ele me ajudou a ficar de pé. A dor na minha perna era real e lancinante. Olhei para o chão, para o que restava da minha família. Senti uma onda de náusea. Pedro seguiu meu olhar.
"Deixa isso aí", ele disse, com uma frieza surpreendente. "Não vale a pena. O que está feito, está feito."
Naquele momento, o som de outro carro se aproximando chamou nossa atenção. Era o carro esportivo vermelho de Juliana, voltando. Ela parou ao nosso lado, baixou o vidro novamente, o rosto contorcido de impaciência.
"O que você ainda está fazendo aqui, Miguel? Pensei que você pegaria o dinheiro e iria embora. Anda, levanta daí, está fazendo uma cena."
A voz dela, antes a melodia que me acalmava, agora era como vidro quebrado nos meus ouvidos. A preocupação em seu tom não era por mim, mas pela imagem dela.
Pedro riu, um som baixo e seco. "Sempre tão delicada, não é, Juju?"
Juliana fuzilou Pedro com os olhos. "O que você está fazendo aqui, Pedro? Veio recolher os restos?"
"Vim ver o final do seu show", ele respondeu, sem se abalar. "E devo dizer, foi mais patético do que eu imaginava."
Eu me apoiei em um poste, a dor na perna me forçando a colocar o peso no outro lado. Olhei para Juliana, para o rosto perfeito que eu havia beijado mil vezes, para os olhos que eu acreditava conter um universo de amor por mim. Não havia nada lá. Apenas um vazio egoísta.
"O dinheiro", comecei, minha voz ganhando uma força que eu não sabia que tinha. "Eu vou te pagar de volta. Cada centavo que gastei no seu 'tratamento'."
Juliana franziu a testa, genuinamente confusa.
"Pagar de volta? Por quê? Era um teste, Miguel. Se você tivesse passado, se sua família tivesse aguentado, eu ia te dar uma vida de rei. Era só para ver se vocês eram leais, se não estavam só atrás do meu dinheiro."
"Minha família está morta", eu disse, as palavras saindo sem emoção, como se eu estivesse relatando um fato sobre um estranho. "Eles morreram tentando te salvar. Eles passaram no seu teste, Juliana. E o prêmio deles foi a morte."
O rosto dela vacilou por um segundo, uma sombra de algo que poderia ser choque, mas desapareceu tão rápido quanto veio.
"Isso é... um exagero", ela murmurou, desconfortável. "Não foi minha culpa."
Pedro interveio. Ele tirou um talão de cheques do bolso interno do paletó, pegou uma caneta e preencheu uma folha rapidamente. Ele a arrancou e estendeu para mim. Eu olhei para o valor. Era uma quantia absurda, o suficiente para comprar um apartamento de luxo.
"Tome", disse Pedro. "Considere um adiantamento. Para você se reerguer. E para você", ele se virou para Juliana, "sumir daqui. Sua presença está incomodando."
Juliana olhou para o cheque na minha mão e depois para Pedro, furiosa.
"Você não tem o direito de se meter nisso!"
"Eu tenho todo o direito. Afinal, parte dessa sua fortuna ainda está legalmente ligada a mim. Agora vá embora, Juliana. O espetáculo acabou."
Ela hesitou, olhando de mim para Pedro, talvez percebendo que havia perdido o controle da situação. Com um grunhido de frustração, ela pisou no acelerador e cantou pneu, desaparecendo de vez.
Fiquei sozinho com Pedro e um cheque que queimava minha mão.
"Eu não quero o dinheiro dele", eu disse, tentando devolver o cheque.
"Não é dele, é dela. E você vai precisar", ele insistiu, empurrando minha mão de volta. "A vingança é um prato caro, Miguel Silva. E pelo olhar em seus olhos, você está faminto."
Ele me levou até um hospital, pagou por tudo e me deixou lá com um cartão de visitas. "Me ligue quando estiver pronto para conversar."
Depois de ter a perna engessada e ser medicado, peguei um táxi. Não para o apartamento que eu dividia com Juliana, mas para a casa vazia e vendida da minha família. A nova família ainda não tinha se mudado. Usei a chave reserva que eu ainda guardava.
O cheiro de casa, o cheiro da minha mãe, ainda estava lá, fraco, mas presente. Fui até o quarto da Bia. A cama arrumada, seus bichos de pelúcia enfileirados. Lembrei-me do dia em que ela foi levada. Lembrei do desespero, da busca incessante. Lembrei do policial me entregando um pequeno laço de fita que estava no cabelo dela, encontrado perto do corpo.
E então, uma memória me atingiu. Uma conversa que eu tive com meu pai pouco antes de ele morrer. Ele estava preocupado com a dívida que tínhamos com um agiota, um dinheiro que pegamos para uma das "terapias" de Juliana. O agiota estava pressionando, fazendo ameaças. Meu pai disse que a empresa de construção onde ele trabalhava, a Costa Construtora, era notoriamente negligente com a segurança, mas pagava um pouco mais. Ele assumiu o risco extra para tentar levantar o dinheiro mais rápido.
Costa Construtora. O sobrenome de Juliana.
Meu sangue gelou. Não era apenas uma negligência aleatória. A empresa pertencia à família dela. Meu pai morreu trabalhando em um ambiente inseguro fornecido pela família da mulher pela qual ele estava se sacrificando.
A porta da frente se abriu com um estrondo. Eu me virei, o coração na boca.
Era Juliana. O rosto dela estava pálido, os olhos arregalados. Ela devia ter me seguido do hospital.
"Miguel? O que você está fazendo aqui? Esta casa foi vendida."
Ela entrou, olhando ao redor com uma expressão de desgosto.
"Precisamos conversar. Você está agindo de forma estranha."
Eu me coloquei entre ela e a porta, bloqueando sua passagem. Meu corpo inteiro tremia de raiva contida.
"Saia da minha casa", eu disse, a voz baixa e perigosa.
Ela tentou passar por mim, mas eu segurei seu braço. Com mais força do que eu pretendia.
"Não me toque", eu sibilei. "Nunca mais."
---
Você pode gostar





