
Com o destino nas próprias mãos
Capítulo 3
Após sair da casa da família Marsh, Eleanor ficou na calçada tentando chamar um táxi, pois preferiu não usar o conversível, já que não era mais dela.
Enquanto ela olhava para a casa que chamou de lar por dezoito anos, um sorriso amargo se esboçou em seus lábios, o absurdo de tudo isso lhe pesando no coração. Ela havia se sacrificado e investido tudo o que podia nessa família, apenas para no fim ser completamente abandonada.
Com um suspiro silencioso, Eleanor pegou o celular e leu a mensagem que acabara de receber — o endereço da casa dos pais biológicos, em Dridsa, região onde os habitantes lutavam para sobreviver, muitas vezes sem o que comer.
Se Pholis representava uma utopia para os privilegiados de Isonsea, Dridsa era um contraste cruel — um verdadeiro campo de batalha para os desfavorecidos.
Quando ela chegou, olhos curiosos a observavam com confusão e intriga, porque a diferença gritante entre sua aparência e o ambiente era impossível de ignorar.
O que uma jovem tão bela e íntegra estava fazendo em um lugar como esse?
Notando sua elegância refinada e aspecto impecável, eles presumiram que ela fosse de uma família rica em Pholis, distante da dura realidade de Dridsa.
Sem se importar com os olhares, Eleanor caminhava pela região, por fim parando diante de uma casa degradada.
Ao olhar para as paredes deterioradas, ela sentiu uma pontada de compaixão pela família que vivia ali, imaginando as dificuldades que enfrentavam todo santo dia.
"Quem você está procurando, senhorita?", uma voz hesitante interrompeu seu devaneio, a trazendo de volta à realidade.
Quando se virou, Eleanor deparou-se com uma mulher cujo rosto exibia profundas linhas de expressão, marcado por anos de trabalho árduo e resiliência.
A mulher observava Eleanor com cautela, seus olhos se estreitando num reconhecimento quase imperceptível. Foi então que um breve lampejo de surpresa passou pelo seu rosto.
"Você é...", ela começou, a voz se esvaindo conforme tentava identificar Eleanor.
"Meu nome é Eleanor", respondeu a jovem calmamente, embora o peso do momento pressionasse seu peito com uma força esmagadora.
As mãos da mulher, antes firmes, se estremeceram, fazendo com que os legumes que segurava escorregassem e caíssem no chão.
"Você é... Eleanor?" A voz dela vacilou, marcada pela descrença, choque e um traço de algo mais profundo — talvez culpa. "É você mesmo..."
Num movimento instintivo, ela estendeu a mão, como se tivesse a intenção de tocar Eleanor, mas hesitou em seguida, sua mão congelada no ar.
"Desculpe, devo ter te confundido com outra pessoa", gaguejou a mulher, retirando a mão no instante seguinte.
Desviando o olhar, ela recolheu os vegetais no chão apressadamente e se virou para entrar em casa.
Antes que a mulher pudesse entrar, Eleanor declarou: "Quero saber a verdade."
Diante dessas palavras, o olhar da mulher recaiu instantaneamente, e seus olhos ficaram vermelhos à medida que as lágrimas começavam a se formar.
"Entre", ela murmurou com uma voz fraca e trêmula, então foi para dentro, seus movimentos lentos e deliberados.
Eleanor permanecia com seu semblante sereno de sempre, embora sua mente fervilhasse com as emoções conflitantes. Ela esperara sentir raiva, ressentimento, e talvez até fúria, quando encontrasse sua mãe biológica. No entanto, o momento lhe trazia apenas uma calmaria profunda e inesperada.
Ao entrar, seus olhos percorreram os móveis modestos, enquanto seu nariz era invadido por um cheiro persistente de abafado e uma sensação de penúria que preenchia o espaço. Ela quase podia sentir o peso da luta diária dessa família.
Nesse momento, um homem saiu de um quarto. "Lily, você voltou. Kane vai trabalhar até tarde de novo — acho que você poderia fazer uma sopa para ele essa noite."
Sua voz se esvaiu ao se deparar com Eleanor, os olhos se arregalando. "E quem seria esta?"
Com a voz mal acima de um sussurro, a mulher, Lily Harris, respondeu: "Maverick, esta é... Eleanor."
O rosto de Maverick Harris se contorceu de incredulidade, seus olhos piscando com um breve lampejo de pânico que ele rapidamente mascarou.
"Eleanor?", repetiu, sua voz trêmula de surpresa. "O que ela está fazendo aqui? Nós nem a conhecemos. Você..."
Os ombros de Lily se curvaram enquanto ela limpava uma lágrima do rosto, então se virou para encarar o marido e dizer num tom calmo, mas resoluto: "Não faz sentido continuar escondendo isso. Eleanor veio até nós em busca de respostas, e ela já deve saber a verdade. Este segredo nos assombrou por tanto tempo, pesando sobre mim a ponto de me sufocar. Acho que é hora de revelar tudo."
Após dizer isso, ela olhou para Eleanor com as lágrimas escorrendo pelo rosto, o peso da revelação sendo absorvido.
A aparência abatida de Lily atingiu Eleanor no fundo da alma: a calma que sentira instantes antes esvaiu-se como pó, revelando emoções mais complexas do que previra.
Maverick se aproximou e colocou sua mão firme no ombro da esposa, soltando um suspiro pesado antes de dizer com a voz embargada pelo pesar: "Você tem razão. Este segredo nos dilacerou por anos, e agora é hora de enfrentá-lo."
Então, ele se virou para Eleanor, sua expressão marcada pela culpa e remorso. "Devemos a você muito mais do que apenas um pedido de desculpas."
Eleanor exalou lentamente, o peso de anos a pressionando. Por fim, fez a pergunta que tanto a assombrava: "Por que vocês me abandonaram?"
A franqueza da pergunta deixou o casal Harris abalado, seus rostos se empalidecendo. Após um longo e carregado silêncio, eles não tiveram outra opção senão contar a dolorosa verdade.
Dezoito anos atrás, a filha de Chloe havia desaparecido, e isso a fez ter um surto delirante. Na tentativa de aliviar a dor da esposa, Louis decidiu trazer a filha da família Harris para sua casa, a criando como se fosse deles.
Eleanor foi acolhida pela família Marsh porque nasceu frágil e doente, e a família Harris, que já precisava criar três filhos e enfrentar problemas financeiros, não tinha condições de cuidar dela. Em meio ao desespero, eles tiveram que entregá-la para Louis.
A revelação caiu como um balde de água fria em Eleanor, que, sentada no velho sofá, ficou congelada, a mente lutando para processar tudo o que acabara de ouvir.
A sala parecia se fechar ao seu redor, e sua visão das paredes ficavam turvas.
Lily e Maverick trocaram olhares inquietos, incertos de como proceder e receosos de quebrar o frágil silêncio.
Com expressões carregadas de apreensão, nenhum deles ousava ser o primeiro a falar.
Por fim, a voz de Maverick cortou a tensão, insegura, mas sincera. "Eleanor... como foi sua vida com a família Marsh?"
Sua pergunta pairou no ar — implícita, mas carregada — denunciando sua preocupação e o desconforto com o que estava prestes a ouvir.
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