
Cinco Anos, Um Nome Esquecido
Capítulo 2
O ar frio da noite me atingiu quando pisei na rua, mas pouco fez para esfriar o fogo que queimava em meu peito. Breno e Isabela estavam logo atrás de mim, seus passos ecoando no asfalto. Quando chegamos ao carro, movi-me para abrir a porta do passageiro, um movimento robótico. Mas Isabela foi mais rápida.
Ela se lançou para frente, um flash loiro, e deslizou para o banco da frente. O impacto de seu quadril contra o meu enviou uma pontada de dor pela minha lateral. Eu tropecei, me segurando na moldura da porta.
"Opa! Foi mal, Eliza!", ela chilreou, sem parecer nem um pouco arrependida. Seus olhos encontraram os meus, um brilho triunfante em suas profundezas. "Parece que cheguei primeiro, não é?"
Eu não disse nada, apenas fiquei ali, esperando. Esperando que Breno fizesse algo, qualquer coisa, para reconhecer o desrespeito flagrante. Ele não fez.
"Bela, você senta aí. Eliza, pode entrar atrás", disse Breno, com a voz seca. "A Bela enjoa fácil no carro."
Meu estômago se contraiu. Enjoa? Eu também enjoava. Por anos, eu carregava um pequeno kit de emergência na minha bolsa: balas de gengibre, uma compressa fria, remédios para enjoo. Não porque Breno se lembrava, mas porque ele nunca se lembrava. Ele esquecia minha alergia, meu nome, meu desconforto. Ele esquecia tudo o que realmente importava. Percebi com uma nova onda de desespero que minha bolsa, com seu conteúdo vital, ainda estava na festa.
"Eu também enjoo", afirmei, minha voz surpreendentemente firme.
Breno suspirou, um som impaciente. "Eliza, por favor. Não comece. Está tarde, todo mundo está cansado. Apenas entre." Ele esfregou as têmporas. "Não seja dramática."
Dramática. Essa era a palavra dele para a minha dor. Minha frustração. Minha existência. Olhei para ele, olhei de verdade, e vi um estranho. Não adiantava discutir. Peguei meu celular, na esperança de chamar um Uber, mas a tela permaneceu teimosamente escura. Bateria morta. Que sorte a minha.
A rua estava deserta, as sombras se estendendo longas e ameaçadoras no brilho fraco das luzes distantes. O ar estava mais frio agora, cortando meu vestido fino. O medo, frio e agudo, me cutucou. Imaginei o pior. Qualquer coisa poderia acontecer aqui fora. Mas eu não daria a ele a satisfação de me ver com medo.
"Entra, Eliza!", Breno estalou, sua paciência esgotada.
Engoli uma resposta atravessada, meu maxilar doendo. Com um suspiro pesado que parecia vir das profundezas da minha alma, deslizei para o banco de trás.
Isabela, enquanto isso, tagarelava na frente, sua voz brilhante e irritantemente alegre. "Ah, Breno, lembra daquela vez que escapamos da mansão dos seus pais e fomos observar as estrelas? Fomos pegos voltando e seu pai ficou furioso!" Sua risada tilintou no espaço fechado, amplificada pelo interior do carro, cada som um golpe de martelo nas minhas têmporas.
Breno riu, um som quente e genuíno que eu não ouvia dirigido a mim a noite toda. "Como eu poderia esquecer? Você estava apavorada, mas fingiu ser tão corajosa."
A conversa deles tecia uma tapeçaria de memórias compartilhadas, um mundo particular do qual eu estava trancada do lado de fora. Minha cabeça começou a latejar, meu estômago a revirar. A náusea familiar do enjoo de carro, amplificada pelo estresse e pelo som implacável da voz de Isabela, subiu rapidamente. Pressionei minha testa contra o vidro frio, tentando respirar, tentando segurar.
"E Breno", continuou Isabela, sua voz baixando para um sussurro conspiratório, "lembra daquela promessa que você me fez quando éramos crianças? Que você sempre cuidaria de mim?"
Foi isso. O ponto de ruptura. Meu controle se quebrou.
"Será que vocês dois podem, por favor, ficar quietos?", gritei, minha voz crua e tensa, cortando a bolha íntima deles. Minha cabeça latejava, meu estômago se rebelava.
Isabela se virou no assento, os olhos arregalados, fingindo choque. "Ah, Breno, ela é tão grossa! Eu só estava tentando te animar. Você parece tão estressado ultimamente, e eu só queria te lembrar de tempos mais felizes." Ela agarrou o braço dele, seus olhos se enchendo de lágrimas falsas.
O rosto de Breno era uma máscara de pedra, seu maxilar tenso. Ele me olhou no espelho retrovisor, seus olhos frios e distantes. Ele não disse nada, mas seu silêncio foi mais alto que qualquer grito. Foi um julgamento.
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