
Cicatrizes Que Contam Uma História de Triunfo
Capítulo 3
Passei a noite em claro na cadeira desconfortável do hospital.
O Léo dormiu profundamente, a febre finalmente a ceder.
Eu, por outro lado, senti cada segundo a passar.
A minha mente era um turbilhão de imagens: o sorriso do Pedro na foto, a voz fria da minha sogra, o rosto inocente do meu filho.
De manhã, o médico deu-nos alta.
O Léo já estava mais animado, a balbuciar no meu colo enquanto esperávamos por um táxi.
"Papá? Papá?"
Ele perguntou, olhando para a porta.
O meu coração contraiu-se.
"O papá está a trabalhar, meu amor. Vamos para casa."
A mentira saiu com um gosto amargo.
Quando chegámos ao nosso apartamento, a porta estava destrancada.
Entrei com cautela, o Léo seguro nos meus braços.
O Pedro estava sentado no sofá, a olhar para o nada.
Ele não parecia o noivo feliz da foto.
Parecia cansado, com olheiras profundas.
Ele levantou-se quando me viu.
"Catarina..."
Eu não disse nada.
Passei por ele, levei o Léo para o quarto e deitei-o no berço.
Ele adormeceu quase instantaneamente.
Fechei a porta suavemente e voltei para a sala.
O Pedro ainda estava de pé no mesmo sítio.
"O Léo esteve com febre. Passámos a noite no hospital."
A minha voz era neutra, desprovida de qualquer emoção.
"Eu sei. A minha mãe disse-me. Eu..."
"Eu vi as fotos, Pedro."
Interrompi-o.
Ele baixou o olhar.
"Catarina, eu posso explicar."
"Explicar o quê? Que te casaste com outra mulher no nosso aniversário, enquanto o teu filho estava doente?"
Cruzei os braços, sentindo uma força fria a percorrer-me.
"Não é assim tão simples."
"Então simplifica para mim."
Ele passou a mão pelo cabelo, um gesto de frustração que eu conhecia bem.
"A Sofia... ela está doente. Muito doente. Os médicos não lhe dão muito tempo."
Esperei.
"O sonho dela sempre foi casar-se. A família dela... eles são muito ricos e influentes. O pai dela ofereceu-me uma sociedade na empresa dele se eu realizasse o último desejo da filha."
Ele olhou para mim, como se esperasse que eu entendesse.
Como se fosse a coisa mais razoável do mundo.
"Então vendeste-te."
Não era uma pergunta. Era uma afirmação.
"Não! Eu fiz isto por nós! Pelo nosso futuro! Pelo Léo! Imagina as oportunidades, o dinheiro... Nunca mais teríamos de nos preocupar com nada!"
Ele aproximou-se, tentando pegar na minha mão.
Recuei.
"Não me toques."
O meu tom era gélido.
"E o que é que eu devia fazer? Ficar em casa, a cuidar do nosso filho, enquanto tu vives uma vida dupla com a tua esposa rica e moribunda?"
"É temporário, Catarina! Assim que ela... tu sabes... tudo voltará ao normal. Seremos só nós os três. E seremos ricos."
A forma casual como ele falou da morte dela revoltou-me.
"Não existe 'nós', Pedro. Acabou."
"Não digas isso. Eu amo-te. Eu amo o Léo."
"Amor? Tu não sabes o que é o amor. O amor não mente. O amor não abandona. O amor não se vende."
Virei-me e fui para o nosso quarto.
Abri o armário e tirei uma mala.
"O que estás a fazer?"
Ele perguntou, seguindo-me.
"Vou-me embora. Eu e o Léo."
Comecei a atirar as minhas roupas e as do Léo para dentro da mala, sem qualquer cuidado.
"Não podes fazer isso! Eu sou o pai dele! Tu não tens para onde ir!"
Ele agarrou-me no braço.
Soltei-me com força.
"Não te atrevas a tocar-me outra vez. E eu tenho para onde ir. Qualquer sítio é melhor do que aqui, contigo."
Fechei a mala e empurrei-a para a porta.
"Catarina, por favor, pensa nisto. Pensa no Léo. Queres que ele cresça sem pai?"
A mesma chantagem emocional da mãe dele.
Parei e olhei para ele, os meus olhos a arder.
"Ele já não tem pai. O pai dele morreu ontem, num casamento num jardim."
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