
Cicatrizes de Uma Farsa
Capítulo 3
Ricardo saiu daquela casa sentindo o peso do mundo em seus ombros. Ele caminhou pelas ruas sem rumo, um fantasma em sua própria cidade. Cada olhar que recebia era de pena ou repulsa. Seu rosto desfigurado era um mapa de sua tragédia.
Ele se sentia um estranho em sua própria pele. Olhava para as mãos, finas e com as veias saltadas, e não as reconhecia. Olhava seu reflexo em vitrines e via um monstro.
Ele pensava em Mariana e Laura. Elas, junto com Sofia e o novo noivo de Mariana, agora formavam uma família. Uma família feliz, construída sobre as ruínas de sua vida. A ironia o corroía por dentro. Eles o expulsaram, o torturaram, o abandonaram, e agora viviam a vida que deveria ter sido dele.
Ele não queria vingança. A vingança não traria sua saúde de volta, não apagaria as cicatrizes, não silenciaria os pesadelos. Ele só queria que a verdade fosse dita. Que sua inocência fosse reconhecida. Era o mínimo que merecia.
Com o pouco de força que lhe restava, ele foi a um hospital público. Precisava de um laudo médico. Um documento que provasse o estado em que seu corpo se encontrava. Que provasse que a história que contavam sobre ele era uma mentira.
O médico que o atendeu ficou chocado. Ele listou os danos: esôfago e estômago severamente queimados pelo produto químico, um rim falhando, o fígado comprometido. E isso era apenas o dano interno. As cicatrizes em seu rosto e pescoço eram permanentes.
Ricardo pegou o relatório médico com as mãos trêmulas. Era a sua única arma. A prova de que não era o vilão, mas a vítima.
Ele decidiu voltar à mansão. Não para pedir, mas para exigir. Exigir que olhassem para a prova, que encarassem a consequência de seus atos.
Quando ele chegou, Mariana estava saindo. Ela o viu e seu rosto se contorceu em uma expressão de nojo e impaciência.
"O que você quer agora, Ricardo? O dinheiro não foi suficiente?"
Ele não respondeu. Apenas estendeu o envelope com o relatório médico.
"Leia."
Mariana pegou o envelope com desdém. Ela o abriu, tirou os papéis e passou os olhos por cima, sem real interesse.
"Laudo médico? O que é isso? Uma tentativa patética de conseguir mais dinheiro? De se fazer de vítima?"
Ela amassou os papéis, formando uma bola, e a jogou no rosto de Ricardo. O impacto foi fraco, mas a humilhação foi imensa. O papel caiu aos seus pés, um símbolo de sua dor desprezada.
"Eu não fiz nada, Mariana" , ele disse, a voz rouca e baixa. "Eu era inocente. E você… você me envenenou."
"Eu já te disse" , ela retrucou, a voz subindo de tom, "eu não sabia que aquele produto era tão forte! Eu estava com raiva, estava cega! Sofia estava desfigurada, sangrando! O que você queria que eu fizesse? Acreditasse em você contra a minha própria família?"
"Você era a minha família" , ele sussurrou. A dor em sua garganta era física, mas a dor em seu peito era muito pior.
"Eu não tive a intenção de te machucar tanto" , ela disse, tentando se justificar, mas suas palavras soavam vazias. "Foi um erro. Um momento de desespero."
Um erro. Cinco anos de tortura, uma vida destruída, um corpo em ruínas. Tudo isso, para ela, era apenas um "erro" .
Ricardo sentiu uma raiva fria subir por sua espinha. Uma força que ele não sabia que ainda possuía. Lentamente, ele começou a desabotoar a camisa.
"O que você está fazendo?" , Mariana perguntou, recuando um passo, desconfiada.
Ele não respondeu. Apenas tirou a camisa, revelando seu tronco e costas.
O ar pareceu ficar preso nos pulmões de Mariana. Seu rosto empalideceu. O que ela viu a deixou sem palavras.
As costas de Ricardo eram uma tela de horrores. Cicatrizes de chibatadas, longas e profundas, se cruzavam em um padrão grotesco. Marcas de queimaduras de cigarro pontilhavam sua pele. E, em seus braços, pequenas cicatrizes incontáveis, marcas de agulhas.
"Isso" , disse Ricardo, a voz firme pela primeira vez em anos, "não foi um 'erro' . Isso foi o que sua mãe e você me fizeram passar por cinco anos. Todos os dias. Naquele lugar para onde vocês me mandaram."
Ele se virou, mostrando as costas por completo.
"Eles me injetavam drogas para me manter dócil. Me batiam quando eu não obedecia. Me deixavam sem comer por dias. Tudo porque vocês disseram que eu era um monstro."
Mariana olhou para as cicatrizes, o queixo tremendo. Pela primeira vez, a realidade do que ela tinha feito pareceu atingi-la. A culpa em seus olhos era inegável. Ela franziu a testa, uma expressão de dor genuína cruzando seu rosto. Ela deu um passo à frente, como se fosse tocá-lo, mas hesitou.
"Eu… eu não sabia…" , ela gaguejou. "Laura me disse que era um lugar de correção… que eles iriam te ajudar…"
"Ajudar?" , Ricardo riu, um som seco e sem alegria. "Eles me destruíram. E você foi quem deu o primeiro golpe."
A culpa no rosto de Mariana durou apenas um instante. Logo foi substituída pela defensiva. Ela precisava se proteger da verdade insuportável.
"E o que você queria que eu fizesse?" , ela quase gritou, a voz esganiçada. "Eu também sacrifiquei muito! Eu tive que dar um jeito na bagunça que você criou! Eu tive que dar uma satisfação para a minha família, para a sociedade! Você acha que foi fácil para mim?"
Satisfação. Essa era a palavra que ela usou. Não era sobre a verdade. Nunca foi. Era sobre aparências. Sobre dar uma "satisfação" para os outros.
Ricardo vestiu a camisa lentamente. O frio voltou a tomar conta de seu corpo. Ele olhou para Mariana, e a mulher que ele um dia amou havia desaparecido para sempre. Em seu lugar, havia uma estranha, uma cúmplice de sua tortura que se via como uma vítima.
Ele se virou para ir embora, deixando o laudo médico amassado no chão, entre eles.
Não havia mais nada a ser dito. As cicatrizes em suas costas falavam mais alto do que qualquer palavra.
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