
Check-inMate
Capítulo 2
— Consegui reservar o jatinho da VBlanco. O lado bom é que você vai chegar lá mais cedo, e o lado ruim é que seu pai vai descobrir mais rápido. — comunicou Júlia do outro lado da linha.
— Com o lado ruim eu me viro depois. O importante agora é chegar lá o mais rápido possível. — respondi fechando minha mala com uma só.
— Tudo bem. Como sempre é você quem sabe, mas já adianto que ele vai ficar furioso. Tem uma reunião na sua agenda para depois de amanhã, parece que é importante, espero que tenha um bom motivo para eu segurar sua bronca dessa vez.
— E você sabe do que se trata?
— Não, mas pelo o que a secretária dele disse, já tem presença confirmada de um representante da Benevides, parece que vem bomba por aí. — ótimo, as coisas estavam cada vez mais estranhas.
— Bomba vai ter se eu estiver presente nessa reunião. Você não tem ideia das coisas absurdas e terroristas que já passaram pela minha cabeça. — me exaltei mais uma vez. — Júlia, sabe que eu nunca me meti nessa briga, mas mexeram com a pessoa errada. Dane-se o que meu pai acha, eu vou massacrar está entendo? Acabou a palhaçada!
— Res-pira! Perder o controle agora não é a melhor opção. — ri amargamente. Júlia não é nem um pouco racional, surtar geralmente é algo que ela faria nessa situação, todavia, ela também era meu ponto neutro na maioria das vezes, a serenidade e sensatez que uma turbulência exige.
— Não estou perdendo o controle, muito pelo contrário, agora eu é que estarei no controle. Anote aí, acabou a concorrência, eles vão cair! — declarei, categórica e eloquente.
— É, eu não vou nem tentar dialogar, boa viagem!
— Eu terei!
Desliguei já colocando minha mala no carro, que por sinal, era minha paixão, não a Land Rover em si, mas carros em geral. O Evoque preto blindado é um dos meus bebês favoritos que apelidei de Kratos, — Mania de colocar nomes em carros que herdei da minha mãe. — a personificação do poder, o herói espartano que vingou sua família de Ares. Após mata-lo, ele se tornou o novo Deus da Guerra no Monte Olimpo.
Qualquer semelhança é mera coincidência.
Minha escolha foi pragmática, por motivos de discrição e praticidade, já que ele estava na vaga mais próxima.
A favorita entre eles era Penélope, a "fêmea" da minha coleção. A Lamborghini Aventador dourada, usada apenas em ocasiões especiais ou quando quero atravessar a cidade em vinte minutos.
Horas depois estava desembarcando em Nova York, uma hora e meia antes do previsto. Fui direto para o hotel, cheguei exausta constatando que esse foi definitivamente, o pior e mais longo dia da minha vida!
Estava no meu pior humor possível e só desejava uma cama confortável para uma boa noite de sono, e sendo praticamente a dona do hotel que estava hospedada, sabia que esse seria o menor dos problemas, pois muito em breve eu terei.
— Rachel. — chamei a atenção de uma das recepcionistas, lendo seu nome no uniforme, ela se assustou ao notar de quem se tratava.
— Senhorita Vittale, como foi de viagem? — se prontificou, digitando algo no computador. Retornei minha atenção para o celular enquanto falava.
— Pior impossível! Libere meu quarto e mande algo leve para comer. Sem glúten, sódio e sem carboidrato, de preferência orgânico, com suco natural. — invés de fazer o que falei, ela ficou me encarando, então devolvi o olhar. — Algum problema?
— É que a senhorita chegou uma hora antes, ainda estamos preparando o seu quarto. — respondeu receosa.
— Então arrumem outro! Isso não é uma pousada, é um hotel. — pontuei.
— Estamos com todos os quartos ocupados, o seu acabou de ser liberado, mas em meia hora no máximo poderemos fazer o check-in. — bufei exausta. — Enquanto isso não gostaria de fazer sua refeição no restaurante?
— E eu tenho outra opção? — ela respirou fundo para manter sua postura. Eu disse que não estava de bom humor!
— Desculpe, foi só uma sugestão.
— Seu trabalho é calcular uma margem de erro de no mínimo uma hora para mais e para menos, para garantir, que nenhum hóspede chegue tão cansado quanto eu e tenha que ficar aguardando. Mas, se você tiver mais sugestões, coloca na caixinha, alguém também é pago só para lê-las! — puxei um formulário de sugestões e observações, junto com uma caneta e coloquei encima do balcão.
— Desculpe. — pediu, assentindo com uma postura ainda mais profissional do que quando eu cheguei.
— Chame alguém para guardar minha mala. — deixei o local impaciente. Jantei enquanto analisava tudo o que o Bento me enviou.
Deixei bem claro a todos que não era o meu melhor dia, sinceramente não devia bons modos a ninguém, apenas o salário do mês, e este posso garantir que está em dia.
Estava me levantando quando o garçom se esbarrou em mim e levou ao ar sua bandeja com tudo o que tinha de mais melequento, uma mistura de sopa, salada e líquidos caíram sobre mim.
Meu dia não poderia ficar pior.
Respirei profundamente tentando não surtar de vez.
— Você é cego? — perguntei entre os dentes. Essa era a única maneira de manter meu tom de voz baixo nesse momento. O garoto por outro lado, estava tão verde quando a sopa que caiu em mim.
— Desculpe senhora, pelo amor de Deus me desculpe, a senhora levantou e... e... e eu não estava preparado...
— Está dizendo que a culpa é minha?
— Não, com certeza a culpa é minha.
— Sorte sua que eu não sou uma hóspede. — falei em um tom fingido de paz, ele pareceu se acalmar. — E sorte a minha que sou a filha do dono.
— Oh meu Deus. — ele sorriu aliviado.
Procurei com o olhar alguém responsável por perto, ao lado do hall principal encontrei o gerente.
— Demita o garoto. — ordenei enquanto passava por ele. Voltei para a recepção recebendo olhares e isso não melhorou minha situação. — Minha mala? — assustei a tal Rachel mais uma vez.
— Já foi para o seu quarto senhorita, em vinte minutos ele estará pronto.
— Vinte minutos a mais do prometido você quer dizer. — corrigi. — Preciso de uma roupa, urgente.
— Só... — ela arregalou os olhos, só agora notando meu estado. — só temos uniformes. — arqueei uma sobrancelha, duvidando daquela informação.
— Que seja, estou fedendo a cebola! — grunhi, ainda mais irritada. Ela me acompanhou até o vestiário feminino, onde me entregou uma muda de roupa dobrada, ao abrir constatei que era um uniforme de camareira. Vesti e sai escondida. Ignorando a expressão satisfatória que Rachel sustentava.
Decidi que iria esperar no próprio corredor do meu quarto, o último andar daquele prédio.
Estava saindo do elevador quando um hóspede me chamou.
— Ei, você! — procurei com o olhar e encontrei um homem parado em frente a uma porta semiaberta. Ele me encarava, mas mesmo assim olhei para trás, procurando quem ele chamava com tanta autoridade.
— Eu? — apontei para mim.
— Está vendo mais alguém aqui? Eu chamei tem quatorze minutos! — meu cérebro deu pani e por muito pouco eu não ri.
— Está falando comigo? — a expressão que ele fez, confesso que me deu um friozinho na barriga, principalmente pelo seu tamanho e aparência intimidadora.
— Só tem você aqui, ou eu por acaso tenho cara de doido para conversar sozinho? — permaneci estarrecida. — Eu não tenho a noite toda mocinha. — ralhou, pegando-me de surpresa. Ele deu espaço para eu entrar e então caiu minha ficha. Olhei para baixo e revirei os olhos com o uniforme.
— Você está me confundindo. — usei meu tom mais pacifico, pelo único motivo dele se tratar de um hóspede. Minha paciência estava por um fio. Eu só queria chegar no meu quarto e dar esse dia por encerrado.
Esse parecia um daqueles pesadelos em que tentamos correr, mas não conseguimos sair do lugar.
— Santo Deus menina, vai deixa-lo esperando até quando? — uma outra camareira surgiu, empurrando o carrinho de limpeza para dentro do quarto me puxando pela mão.
Eu mal tive tempo de protestar, sua mão gelada e ainda úmida agarraram meu pulso com firmeza, mas isso não me impediu de notar uma risadinha de canto que o rapaz me lançou ao me ver passar por ele.
— Tire a mesa do café da manhã, preciso desse quarto organizado em meia hora. — comunicou, ainda sorrindo de canto.
— Eu não vou limpar nada, vocês não sabem quem eu sou não? — a mocinha me encarou estupefata, já ele arqueou uma sobrancelha desdenhando.
— Mil perdões, ela deve ser a novata. — pediu ela com pesar, ele por sua vez não deixava a expressão presunçosa, e diria até que divertida ceder. — A bruxa está a solta menina, fica zanzando por aí sem fazer nada que a próxima no olho da rua é você!
— Bruxa? — repeti boquiaberta. O hóspede riu baixinho. Ela não me olhava, estava apressada demais recolhendo as louças de porcelana sob a mesa, até que seu bip apitou no bolso.
— Finaliza aqui pra mim, vou correr para ajudar a outra menina no quarto do Dragão. — em disparada, ela agarrou seu carrinho e saiu do quarto, voltando apenas para deixar um bombom na cama.
Eu não conseguia descrever meu estado agora. Meus pés estavam pregados no chão, minha expressão espantada, mas eu me via sem reação. O que me puxou de volta para a realidade fora a risada que novamente o homem soltou.
Era nítido, ele sabe quem eu sou.
Inflei o peito, cruzei os braços, e endureci meu semblante. Esperando que ele parasse de rir.
Eu não estava surpresa, lidava com isso o tempo todo. Estar à frente de uma obra sozinha, me custou muita frieza, posso dizer que estou calejada.
— Vai demitir ela também? — perguntou irônico, cruzando os braços. A julgar pelo bronzeado, bermuda branca, camiseta polo e mocassim social, pude concluir que era um desocupado, que torra todo seu dinheiro com hotéis e viagens, e seu precioso tempo em academias, tendo seu único compromisso o post de "o de hoje está pago" do dia.
— Não é da sua conta! — grunhi, me preparando para sair dali.
— Vê se aprende a falar com seus funcionários, senhorita mimada Blanco. — sua expressão mudou dramaticamente.
Revirei os olhos mais uma vez, pensando seriamente em me olhar no espelho. Só podia estar escrito na minha testa: Estou com tempo sobrando, testem minha paciência!
— Você não me conhece! — bufei, colecionando mais uma para fechar esse dia com chave de ouro.
— E nem quero conhecer, o pouco que vi me deu náuseas. O que você faz é assédio profissional, abuso de autoridade e um excesso de papai me deu tudo isso! — eu forcei meus pés a saírem dali, mesmo querendo quebrar a fuça do crossfiteiro.
— Fica aí achando que estou comovida. Você é o quê, defensor dos subordinados? — verdade seja dita, eu estava sem psicológico nenhum, só me restava sair com o clássico deboche. — O dia que "você" quiser pagar o salário de todos eles, pode até opinar no jeito que trato meus funcionários. Para isso tem que ter muita bala na agulha. — bati a porta do quarto com força, sequer olhei sua expressão final.
O dia que eu não conseguir rebater uma indireta, direta, provocação ou cinismo, me enterra, mas hoje realmente eu estou com minha cabeça em outro lugar, problemas incalculávelmente maiores.
Ao entrar no meu quarto, em frente ao dele, peguei a primeira coisa que encontrei e lancei contra a parede em um momento de descontrole. Não acreditava que aquele dia pudesse ser real.
Também foi uma das piores noites da minha vida, mesmo exausta, não preguei o olho. Passei a madrugada inteira lendo, estudando e investigando todos os meus passos até aqui. Ainda bem cedo, pedi um café no quarto, e enquanto tomava, liguei para Júlia pelo telefone do Hotel, com tudo o que precisava de cabeça.
Primeiro pedi à ela que entre em contato com os advogados da empresa para marcar uma reunião ainda hoje com o representante daqui, depois pedi uma reunião com a corretora para o final da tarde ou amanhã cedo, no máximo.
Júlia atualmente trabalha como meu braço direito, assistenciando tudo o que meu tempo não permite, é minha melhor amiga, e um dos três pilares que mencionei. Atua comigo no tempo livre, enquanto advoga na vara criminal. Um doce de pessoa, um demônio nos tribunais.
Além dos meus pais, ela é a única que não tem medo de me falar a verdade sempre, e em qualquer circunstância. Moramos juntas desde o falecimento da sua mãe, quando ainda tinha quatorze anos, meu pai também bancou seus estudos, nos formamos juntas, trabalhamos juntas, e moramos juntas. E hoje ela já cursa seu doutorado, é meu maior orgulho!
Ela é completamente diferente de mim, e ainda me pergunto como nos damos tão bem. Ela é meiga, delicada, centrada, romântica incurável, ótima conselheira, mas não consegue se resolver emocionalmente.
Completamente apaixonada pelo Bento, eles namoraram o período do curso inteiro, mas então tivemos que voltar e ela não abriu mão da sua vida aqui, assim como ele se recusa a sair de Santorini, acharam melhor terminar e eu apoiei essa decisão, eles eram novos demais para mudar de vida.
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