
Chamas do Ódio, Amor Perdido
Capítulo 2
As chamas lambiam as paredes da minha casa, o calor era insuportável, e a fumaça preta enchia meus pulmões. O som das sirenes ao longe era um ruído abafado, inútil. Segurei minha filha, Clara, com força contra o peito, seu choro fraco era a única coisa que importava no meio do caos.
"Isabela! Abra a porta! Por favor!"
Eu gritava, batendo na porta do quarto trancada. Do outro lado, ouvia apenas o silêncio dela.
O fogo se aproximava, e o rosto de Clara, sujo de fuligem, se contorcia de medo e dor. Olhei para a porta, para a mulher que eu amei por mais de uma década, a mulher com quem me casei, a mãe da minha filha.
E então, sua voz veio, fria e desprovida de qualquer emoção.
"Se não fosse por vocês duas, Gabriel não teria morrido."
Cada palavra era uma sentença de morte.
"Todos os dias desde que ele se foi, eu me sinto como um zumbi. Eu já queria levar vocês para o túmulo dele há muito tempo!"
O ódio em sua voz era palpável. O fogo finalmente nos alcançou. A imagem do sorriso de Clara desaparecendo na fumaça foi a última coisa que vi. O amor que eu senti por Isabela se transformou em cinzas, junto com meu corpo e o da minha filha inocente.
Então, abri os olhos.
A luz do abajur era suave, o quarto estava silencioso, e o cheiro não era de fumaça, mas de um perfume floral que eu conhecia muito bem. O perfume de Isabela.
Meu corpo estava pesado, quente. Uma onda de calor percorreu minhas veias, e minha mente estava confusa. Olhei para o lado. Isabela estava ali, deitada na minha cama, com o rosto corado e os olhos turvos de desejo, exatamente como naquela noite, dez anos atrás.
Ela se aproximava de mim, seus lábios entreabertos.
"Luana..."
A voz dela, baixa e rouca, me causou um arrepio de pavor.
Não. Não de novo.
Lembrei-me de tudo. Meu irmão mais velho, Ricardo, com pena do meu amor não correspondido, drogou Isabela, sua melhor amiga, e a jogou na minha cama. Ele me forçou a ser a "cura" dela, pensando que isso nos uniria.
Na vida passada, eu cedi. Cedi ao desejo, à oportunidade, à esperança tola de que ela poderia me amar. O resultado foi um casamento forçado, três anos de espera solitária com nossa filha, e uma morte horrível em um incêndio provocado pelo ódio dela.
Desta vez, não.
"Não me toque."
Minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
Isabela parou, confusa pela minha rejeição. A droga em seu sistema a deixava vulnerável, mas a frieza em meus olhos pareceu atravessar o nevoeiro em sua mente.
Usei toda a minha força para empurrá-la para o lado. Meu próprio corpo protestou, uma febre estranha me dominando. Ricardo. Aquele idiota não drogou apenas Isabela. Ele deve ter colocado algo na minha bebida também, para "me dar coragem" . A raiva me deu a energia de que eu precisava.
Levantei da cama, cambaleando. Minhas pernas tremiam. Procurei meu celular na penteadeira. Meus dedos desajeitados quase o derrubaram.
Isabela me olhava da cama, um misto de confusão e frustração em seu rosto.
"Luana, o que você está fazendo? Eu não me sinto bem..."
"Eu sei" , respondi, sem olhá-la. "É por isso que vou consertar isso."
Disquei o número que eu sabia de cor, o número que, na vida passada, eu deletei com o coração partido. O número do verdadeiro amor dela.
O telefone chamou uma, duas vezes.
"Alô?"
A voz de Gabriel soou do outro lado da linha, sonolenta e um pouco irritada.
"É a Luana" , disse eu, minha respiração ofegante. "Venha para a minha casa. Agora. É sobre a Isabela. Ela não está bem."
Houve um silêncio, depois a voz dele ficou alerta.
"O que você fez com ela?"
"Eu não fiz nada!" , gritei, a frustração e o pânico me dominando. "Foi meu irmão. Apenas venha. Rápido."
Desliguei antes que ele pudesse responder. Olhei para Isabela, que agora estava sentada na cama, abraçando os joelhos. A imagem dela, tão desamparada, não me causava mais pena. Apenas a lembrança do fogo e do rosto da minha filha.
Eu salvei a vida dela. E, ao fazer isso, salvei a minha e a de uma criança que nunca mais teria que sofrer. Desta vez, o destino seria diferente. Eu me certificaria disso.
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