Capa do romance Carros atolados e brigas na chuva

Carros atolados e brigas na chuva

9.8 / 10.0
Em Carros atolados e brigas na chuva, Clara e Kaio enfrentam uma tempestade isolados em uma fazenda. Este romance modern explora escolhas difíceis e segredos revelados. Descubra como essa young adult fiction romance books transforma uma rivalidade antiga em uma descoberta inesperada.
Resumo de Carros atolados e brigas na chuva
Clara sempre detestou Kaio, vivendo em pé de guerra com ele desde a infância. Contudo, um carro atolado sob tempestade obriga os rivais a uma convivência forçada. Enquanto lida com a insegurança de seu namoro e o medo de ter pego o veículo escondido, ela se abriga em uma fazenda desconhecida. Nesse cenário caótico, Clara descobre novas facetas no filho dos amigos de seus pais, desafiando tudo o que julgava saber e transformando seus sentimentos para sempre.
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Carros atolados e brigas na chuva Capítulo 1

Certo. Tudo estava dando muito errado. Muito, muito, muito errado.

Não era para eu estar ali, dentro de um carro atolado ao lado de Kaio enquanto discutíamos sem parar. Decididamente era muito errado estar chovendo tanto a ponto de eu não poder ir para fora e colocar alguma distância entre nós dois.

Era mais errado ainda eu sentir uma vontade incontrolável de chorar porque Xande não estava me atendendo, e era muito errado que nas duas ligações anteriores ele estivesse muito diferente.

Eram muitos "muito". E eu só queria que Kaio parasse de falar comigo, parasse de dizer que eu devia prestar mais atenção na estrada e focar menos no meu "namorado idiota".

Para começo de conversa, Kaio não devia estar naquele carro. O carro era da minha família, que não tinha nenhuma relação com a família dele. Em teoria.

Afundei o rosto nas mãos, abandonando a discussão.

- O que você tem agora? – ele perguntou imediatamente.

- Só cale a boca, está bem? – rebati com irritação.

- Nossa, Clara, você é sempre tão bem educada. – ele retrucou com sarcasmo.

Aquele foi o último "muito" insuportável por parte de Kaio que eu estava disposta a aceitar. Abri a porta do carro, que poderia muito bem estar dentro de um rio tamanha a quantidade de água que entrou, e me lancei para fora do carro.

O chão estava escorregadio, quase impossível de se andar, mas mesmo assim eu me impulsionei para o mais longe possível do carro e de Kaio.

- O que você pensa que está fazendo? – escutei a porta do outro lado do carro bater com força.

- Colocando alguma distância entre nós dois. – gritei.

- Pare de ser irracional e volte para a porcaria do carro. – ele gritou de volta.

Obviamente eu não obedeci, e ele veio até onde eu estava com mais facilidade do que eu esperava. Deveriam ser os tênis, com toda certeza.

- Está chovendo demais. – Kaio segurou meu braço.

- O que mais de óbvio você vai me dizer hoje? – tentei puxar o braço, mas ele não soltou.

- Clara, será que...

E foi nesse momento que eu escorreguei e caí de costas na lama, levando Kaio comigo. Não sei o que doeu mais, as costas batendo em alguma coisa levemente dura, ou o corpo dele em cima do meu.

Quanta humilhação.

- Sai! – gritei, empurrando seus ombros com as mãos.

- Eu estou tentando. – ele retrucou, bufando.

De alguma forma nós dois conseguimos ficar em pé depois de alguns minutos angustiantes. Aquilo fez a raiva ceder um pouco, o suficiente para não precisarmos discutir para decidir voltar para o carro.

Tentei a porta do motorista quase ao mesmo tempo que Kaio tentou a do passageiro. Nenhuma das duas abriu.

- Onde está a chave? – ele me perguntou naquele tom de quem está fazendo de tudo para não perder a cabeça.

- Como assim? Você saiu depois de mim. – eu, no entanto, não estava mais nem aí.

- Mas você é a motorista. – ele desistiu de ser civilizado – O motorista é o responsável pela chave.

- E onde está escrito isso?

Nós dois nos encaramos através da chuva, assimilando a ideia de que estávamos no meio do nada. Com carteiras e celulares presos dentro de um carro trancado.

Eu já tinha dito que aquele dia estava muito insuportável? Porque naquele instante pensei que eu ia explodir de frustração.

- Certo... – Kaio balançou a cabeça, tentando focar no que importava mais – Precisamos sair daqui.

Não me preocupei em responder.

Ele olhou ao redor com a mão em cima dos olhos – não sei porque, já que estava ficando escuro também e não mudaria em nada o fato de que não dava para enxergar nada.

- Vem, Clara. Precisamos tentar achar algum lugar. – quando voltou a falar, sua voz estava verdadeiramente controlada.

Continuar brigando em uma noite de chuva como aquela seria idiotice, e já que Kaio tinha cedido, resolvi apenas concordar e me aproximar dele.

Nós andamos alguns minutos, sem saber ao certo para onde estávamos indo. Como tudo era terra, mato, árvores e natureza em geral ao redor, não dava nem para ter certeza se estávamos na estrada ou não.

- Você está bem? – era a primeira vez que ele perguntava aquilo para mim.

- Estou. – tentei soar confiante, mas meu queixo estava tremendo um pouco por causa do frio – E você?

- Também.

Mais um tempo se passou, e quando eu já estava quase cogitando voltar para o carro e simplesmente me sentar no capô, Kaio apontou em uma direção.

- Parece que tem alguma coisa lá.

Forcei os olhos, mas tudo era escuridão.

- Não estou vendo nada.

- Vem comigo.

O segui. Afinal, o que mais eu poderia fazer? Por mais que Kaio me irritasse além do imaginável, ficar sozinha no meio do nada era ainda menos atraente do que estar com ele.

Acabou que ele tinha certa razão. Havia mesmo alguma coisa, mas não era exatamente nossa salvação. Era apenas uma construção de madeira do que, talvez em algum momento, deveria se tornar um celeiro.

- Pelo menos nós conseguimos ficar fora da chuva. – ele comentou.

- É. – concordei sem muita animação.

Eu estava ensopada. Tudo que usava era uma calça jeans e uma camiseta de mangas longas. E estava frio, e provavelmente ficaria ainda mais.

- Olha, você deve estar congelando. – Kaio se aproximou de mim e abriu o zíper da sua jaqueta.

- Não. – neguei rapidamente.

- É impermeável. – ele a tirou – Estou seco por baixo.

Aceitei, meio sem jeito.

- Acho melhor você tirar essa blusa molhada. – ele virou de costas – Não vai adiantar de nada continuar com ela.

Nervosa pela nossa proximidade, virei de costas e rapidamente tirei a blusa e vesti a jaqueta dele. O calor contra minha pele foi imensamente agradável, mas o cheiro do perfume de Kaio era um pouco perturbador.

- Pronto? – ele perguntou, honestamente ainda de costas.

- Sim. – respondi baixo – Obrigada.

- Não se preocupe. – e pela primeira vez ele parecia zero irritado – Vamos estender isso.

Kaio pegou minha blusa molhada e estendeu em uma janela – ou melhor, no vão que um dia seria uma janela propriamente.

Depois disso, nenhum de nós sabia exatamente o que fazer. Não tínhamos celular, luz, livros... Era somente nós dois, duas pessoas que não gostavam muito de estar uma na presença da outra, isolados em uma construção no meio do nada.

Nos sentamos no chão, longe um do outro, e ficamos em silêncio. A chuva não dava sinais de diminuir tão cedo, e de qualquer forma, o carro estava preso em algum lugar com a chave dentro.

Pensei em Xande, longe e inalcançável.

- Clara. – Kaio me chamou depois de algum tempo – Posso perguntar, honestamente, o que você vê naquele cara?

Não havia nada além do que um tom de dúvida.

- Você teria que conhecer o Xande para entender.

- Eu conheço o Xande.

- Conhecer de verdade.

- Sei.

Kaio respirou fundo. Eu não podia ver o rosto dele, mas imaginei seus olhos revirando.

- Olha, o Xande é uma boa pessoa. Ótimo aluno, está se destacando na faculdade cada vez mais. Ele cuidava da avó antes de ir para a faculdade, e acho que não teria ido se ela não tivesse falecido.

Minhas palavras pareceram adequadas quando pensei, mas ao falar achei tudo muito estranho.

- Ele também foi voluntário em um abrigo de animais por três anos.

Kaio estava completamente quieto.

- Não é legal você julgar o tempo todo. – reclamei.

- Não estou julgando, Clara. Só estava curioso.

Ele continuava calmo.

Eu não precisava explicar nada para ele, muito menos provar que meu namorado era ótimo. Kaio não tinha nenhuma relação com a minha vida.

- Só acho que se você se sentisse realmente segura nessa relação, não iria pegar o carro no meio dessa tempestade para ir atrás dele.

Estava demorando...

- Eu não tenho que te explicar nada, Kaio.

- Não, você não tem. – ele concordou.

Me encolhi mais. Mesmo com a jaqueta quente, minhas pernas estavam muito geladas. Aquela seria uma longa noite.

- Você está bem aí? – ele me perguntou alguns minutos depois.

- Estou ótima. – eu não iria dizer o quanto estava tremendo.

- Clara, posso ouvir seus dentes batendo daqui.

Escutei um som, depois passos se aproximando.

- O que você quer? – perguntei, alarmada.

- Só não quero que você fique doente. – ele se sentou ao meu lado, perto o suficiente para me tocar.

Eu queria muito me afastar, mas o calor era tão atraente....

- Olha, eu vou só... – senti o braço dele passar por trás do meu pescoço.

Continuei onde estava.

- Clara, por favor. – ele me puxou suavemente de encontro ao seu corpo.

Cedi e apoiei a cabeça logo abaixo do seu pescoço. Seu corpo não estava mais muito quente, mas ainda assim era mais quente do que o meu e isso era confortável demais.

Ao perceber que eu estava relaxando, seu braço me envolveu com firmeza.

- Só tente descansar. – a voz dele estava perto demais do meu ouvido.

Pensei em dizer qualquer coisa hostil, mas desisti. Era melhor descansar, poupar energias e conservar calor. Então, comecei a adormecer suavemente, quase sem perceber.

Mesmo assim, contabilizei aquilo como mais uma coisa errada daquele dia.

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