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Capa do romance Carga Congelada, Uma Esposa Traída

Carga Congelada, Uma Esposa Traída

Forçada ao frio do porta-malas para não incomodar a amante do marido, a jovem morre segurando pílulas abortivas disfarçadas. Dez anos após salvá-lo, ela era vista como um fardo por Atlas. Ao descobrir o corpo da esposa e do filho, ele executa a amante e busca a própria morte como redenção. No além, Atlas implora perdão, mas encontra apenas o vazio. Livre da obsessão, ela o rejeita, observando a alma do homem que a destruiu se despedaçar para sempre.
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Capítulo 3

A SUV parou completamente, o silêncio repentino após o rugido do motor parecendo estranhamente alto. Atlas se espreguiçou e abriu a porta, uma rajada de ar frio da montanha invadindo o veículo.

— Finalmente — resmungou ele, esfregando as têmporas. — Essa viagem foi interminável. Ela ainda está lá atrás? — Ele nem olhou para o porta-malas, o tom mais irritado do que curioso.

Eu não sou apenas "ela", meu eu fantasmagórico pensou, pairando perto do ombro dele. Eu sou Elisa. Sua esposa. Aquela que morreu no seu porta-malas. Aquela que você matou. Mas as palavras não tinham som, sem sentido para os vivos.

Cátia saiu do lado do passageiro, tremendo dramaticamente, embora seu sorriso fosse largo e vibrante.

— A serra! — exclamou ela, abrindo os braços, alheia à tragédia que acabara de acontecer a poucos metros atrás dela. — É ainda mais mágico do que eu lembrava, Atlas querido. As luzes de inverno, o ar puro... é perfeito para nós.

Torres, o segurança de rosto sombrio, aproximou-se da SUV.

— Chefe, a equipe vai descarregar a bagagem. Devo mandar eles... buscarem ela? — perguntou ele, os olhos desviando para a traseira do veículo, uma leve hesitação na voz.

Atlas acenou com a mão, dispensando o assunto.

— Apenas diga para levarem ela direto para o quarto. E certifique-se de que ela fique lá. Não quero ela vagando por aí e fazendo cena. Ela deveria estar descansando, lembra? — Ele nem especificou qual quarto, apenas "o quarto dela", como se qualquer canto servisse.

Torres assentiu, uma expressão estranha cruzando seu rosto. Ele olhou para Cátia, que apenas deu de ombros, a atenção já focada no chalé luxuoso.

— Entendido, chefe.

Mas Torres não disse à equipe para me buscar. Ele apenas disse para descarregarem a bagagem. O equipamento de esqui, as malas, as caixas. E eu. Meu corpo permaneceu, um segredo silencioso e congelado, aninhado entre as coisas esquecidas.

Atlas e Cátia entraram no saguão opulento, suas risadas ecoando pelo grande espaço. Eram a imagem da riqueza e felicidade, completamente inconscientes do contraste arrepiante que sua alegria formava com a forma sem vida ainda no carro.

— Estou exausta — reclamou Cátia, apoiando-se pesadamente em Atlas. — E um pouco triste, ainda, sobre... você sabe. — Ela fez bico, os olhos se enchendo de lágrimas convenientes.

Atlas imediatamente passou um braço ao redor dela.

— Eu sei, amor. Está tudo bem. Vamos esquecer tudo isso. — Ele deu um beijo suave na testa dela. — Tenho algo para você. — Ele tirou uma pequena caixa de veludo do bolso. Dentro, um pingente de diamante brilhava sob as luzes do lustre. — Para um novo começo. Para o nosso bebê.

Cátia engasgou, as lágrimas instantaneamente esquecidas.

— Atlas! É lindo! Você é o melhor. — Ela jogou os braços ao redor dele, cobrindo o rosto dele de beijos.

Eu assisti, uma memória fraca se agitando dentro da minha forma espectral. Mamãe costumava me dar coisas, pensei. Coisas pequenas. Uma pedra pintada. Um botão brilhante. Ela dizia que eram símbolos do amor dela. O amor da Mamãe era quente e macio, como seu velho cobertor de lã. Os gestos de Atlas eram frios e duros, como os diamantes que ele dava a Cátia.

A lembrança do porão, das palavras cruéis de Atlas, da escuridão, do frio, ressurgiu. Eu odiava o escuro. Ele trazia de volta as piores coisas. Não apenas a solidão, mas ele. O homem que Torres às vezes trazia para a casa. Aquele com mãos frias e olhos que não sorriam. Ele vinha quando Atlas estava fora, quando Cátia saía. Ele vinha para o porão.

Ele me tocava. De maneiras que me assustavam. De maneiras que doíam. E eu chorava, silenciosamente, porque Atlas tinha me dito para ficar quieta. "Boas meninas não fazem barulho, Elisa", ele tinha dito. "Especialmente quando você está encrencada."

Eu não entendia o que estava acontecendo. Só sabia que era ruim. E a escuridão do porão, era exatamente como a escuridão do porta-malas. Exceto que não havia ninguém para me ouvir no porta-malas. Ninguém para me machucar mais. Nem o homem estranho. Nem Atlas. Nem Cátia.

Minha forma fantasmagórica tremeu. Por que ele não tinha me amado? Foi porque eu quebrava coisas? Porque minhas palavras às vezes saíam emboladas e erradas? Eu o amava. Mamãe disse que eu tinha que ser boazinha, e ele me amaria. Eu tentei tanto. Tanto, tanto. Mas nunca foi o suficiente.

Dentro do calor aconchegante do chalé, Atlas e Cátia estavam se acomodando na suíte.

— A Elisa não deveria estar aqui a essa hora? — perguntou Cátia, um sorriso malicioso brincando nos lábios. — Talvez ela tenha se perdido no caminho para o quarto. Ela sempre foi um pouco... confusa.

Atlas bufou, tomando um gole de champanhe.

— Deixe ela se perder. Melhor ainda, deixe ela ficar onde quer que o Torres a tenha colocado. Ela não é mais problema meu. Ela é problema de um cuidador agora. Ou problema de uma clínica. — Ele parecia aliviado, quase tonto com o pensamento de sua recém-descoberta liberdade.

Um funcionário do hotel, um jovem com olhos nervosos, bateu na porta.

— Sr. Ferraz, terminamos de descarregar a SUV. Mas... não conseguimos encontrar toda a bagagem. E... sua esposa?

Atlas franziu a testa, a irritação nublando suas feições.

— O que você quer dizer com "não conseguimos encontrar"? Ela deveria estar no quarto dela. E toda a bagagem deveria estar aqui. Verifique de novo! — Ele retrucou, a voz afiada.

— Senhor, verificamos o quarto que o senhor especificou para ela, está vazio. E vasculhamos o veículo completamente. Algumas das malas menores estão faltando. E... não havia ninguém no porta-malas quando descarregamos os esquis. — O jovem gaguejou, o rosto pálido.

Cátia riu, um som quebradiço e zombeteiro.

— Ah, pelo amor de Deus. Ela provavelmente está apenas jogando um de seus joguinhos bobos. Escondida em algum lugar. Tentando chamar atenção. — Ela revirou os olhos. — Ela sempre fazia isso. Lembra quando ela fingiu estar doente só para você carregá-la?

Eu não estava fingindo, eu queria gritar. Minha cabeça doía. Minha barriga doía. Vocês fizeram doer! Mas as palavras nasceram mortas, ecoando apenas no vazio silencioso onde minha vida costumava estar.

O maxilar de Atlas endureceu.

— Ela é um maldito estorvo — murmurou ele, pegando o celular. — Sempre. Eu disse para ela ir direto para o quarto. Agora ela provavelmente está vagando pelos corredores, fazendo um espetáculo. — Ele discou um número, os dedos socando os botões com força raivosa. — Elisa, se você estiver aprontando uma das suas, vai se arrepender! Atenda o telefone!

Ele segurou o telefone no ouvido, ouvindo. Apenas o toque distante, abafado e solitário, respondeu a ele.

— Droga, Elisa, me atenda! — ele rugiu, sua frustração transbordando. Ele olhou ao redor da suíte luxuosa, como se esperasse ver meu rosto infantil espiando por trás de uma cortina. — Onde diabos você está?

Nesse momento, o telefone dele vibrou com uma chamada recebida. Não de mim. Era Torres. Atlas olhou feio para a tela, depois atendeu, a voz curta.

— Torres, onde ela está? A equipe não consegue encontrá-la. Ela já está na clínica?

Uma pausa. Então, a voz de Torres, baixa e urgente, veio pelo telefone, alta o suficiente para eu, a observadora espectral, ouvir.

— Chefe... temos um problema. Um grande problema. O manobrista... ele acabou de encontrar algo no porta-malas. Algo... inesperado.

O rosto de Atlas empalideceu. Ele olhou para o telefone, os olhos arregalados com um horror súbito e crescente.

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