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Capa do romance Carga Congelada, Uma Esposa Traída

Carga Congelada, Uma Esposa Traída

Forçada ao frio do porta-malas para não incomodar a amante do marido, a jovem morre segurando pílulas abortivas disfarçadas. Dez anos após salvá-lo, ela era vista como um fardo por Atlas. Ao descobrir o corpo da esposa e do filho, ele executa a amante e busca a própria morte como redenção. No além, Atlas implora perdão, mas encontra apenas o vazio. Livre da obsessão, ela o rejeita, observando a alma do homem que a destruiu se despedaçar para sempre.
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Capítulo 1

Meu marido me obrigou a viajar no compartimento de carga gelado porque sua amante queria paz e silêncio.

Eu morri lá atrás, agarrada às "vitaminas" que ela me deu, enquanto eles riam no banco da frente.

Foi só quando meu corpo congelado foi encontrado que Atlas percebeu que tinha acabado de matar sua própria esposa e seu filho que nem chegou a nascer.

Dez anos atrás, eu salvei Atlas de um acidente de carro que me deixou com a mente de uma criança.

Ele me odiava por isso.

Ele me tratava como um fardo e deixou sua amante, Cátia, me alimentar com pílulas abortivas de alta dosagem disfarçadas de suplementos de saúde.

Quando a polícia descobriu a verdade, o mundo de Atlas desmoronou.

Ele descobriu que Cátia nunca esteve grávida — mas eu estava.

Consumido por uma fúria tardia e violenta, ele executou Cátia com as próprias mãos e exigiu a pena máxima para si mesmo.

Ele achava que a morte seria sua redenção.

Ele achava que poderia me encontrar do outro lado e fazer as pazes.

Mas quando seu espírito finalmente alcançou o meu, implorando por perdão, eu não senti o amor que tanto desejei em vida.

Eu não senti nada.

— Vá embora, Atlas — sussurrei, assistindo sua alma se despedaçar. — Finalmente estou livre.

Capítulo 1

Meu estômago parecia estar sendo esmagado por uma mão de ferro gelada e úmida, torcendo minhas entranhas sem piedade. Cada solavanco na estrada enviava uma nova onda de agonia pela minha barriga, fazendo minha cabeça latejar. Apertei os olhos com força, tentando fazer a dor desaparecer, mas ela só crescia, como um cobertor pesado e escuro me sufocando.

— Atlas — gemi baixinho, tentando me mover entre as pesadas bolsas de esqui e os bastões de metal frio que me pressionavam. Minha voz era pequena, sufocada, engolida pelo rugido do motor e pela música alta vinda da frente.

Ele não me ouviu. Ele nunca ouvia.

Ele tinha me colocado lá atrás, no porta-malas de sua enorme SUV preta blindada. O espaço era escuro e frio, ainda mais gelado que o ar da serra lá fora. Eu odiava o escuro. Ele trazia os pensamentos ruins, aqueles que faziam meu peito ficar apertado e minha cabeça girar.

— Para de choramingar, Elisa — Atlas tinha dito mais cedo, sua voz cortante e impaciente. Ela me feriu mais do que o frio aqui dentro. — A Cátia e eu precisamos conversar. Você não pode ficar quieta só por um minuto?

Ele aumentou o som então, uma batida alta e grave que fazia o carro vibrar. Era o jeito dele de me mandar desaparecer. Ele sempre fazia isso. Ele gostava de silêncio quando Cátia estava por perto.

Meu estômago contraiu de novo, forte, como se algo estivesse se rompendo por dentro. Um líquido quente e pegajoso começou a se espalhar entre minhas pernas. Cheirava a cobre, como as moedinhas que a Mamãe costumava me deixar segurar. Mas aquilo não eram moedas. Aquilo era ruim.

Levei a mão ao medalhão no meu pescoço, o metal frio sendo um pequeno conforto contra meu peito dolorido. Mamãe tinha me dado. "Seja uma boa menina, Elisa", ela tinha dito, logo antes de ir embora para sempre. "Seja boazinha, e o Atlas vai te amar. Ele tem que amar. Ele prometeu."

Eu sempre fui boazinha. Eu tentava tanto. Mas Atlas nunca me amou. Ele nem sequer olhava para mim, não de verdade. Não como ele olhava para a Cátia.

Minha cabeça parecia pesada, nadando em um nevoeiro espesso. Dez anos atrás, o mundo tinha desabado sobre mim. Eu lembrava do metal retorcido, dos gritos horríveis. Lembrava de puxar Atlas para fora, o rosto dele pálido e imóvel. Então, tudo ficou preto. Quando acordei, o mundo era diferente. As cores eram brilhantes demais, os sons altos demais. E meus pensamentos... eles eram como o desenho de uma criança feito com giz de cera, simples e quebrados.

Disseram que eu salvei o Atlas. Disseram que a família dele me devia a vida. E a Mamãe, ela fez eles pagarem. Ela fez o Atlas casar comigo. Era para me manter segura, para eu não ficar sozinha. Mas eu estava mais sozinha agora do que nunca.

A dor na minha barriga explodiu, mais aguda dessa vez, e eu engasguei. Meus olhos se abriram, mas só havia escuridão. Tentei me encolher em uma bola, me fazer menor, para fazer a dor ficar menor. Mas era grande demais. Tudo era grande demais. A escuridão, o frio, a dor.

Eu queria a Mamãe. Queria que ela cantasse uma canção de ninar, fizesse carinho no meu cabelo e dissesse que tudo ficaria bem. Mas a Mamãe tinha ido embora. E eu estava sozinha no escuro.

Um solavanco repentino e violento da SUV me jogou contra a parede dura. Uma dor aguda e lancinante atravessou minha cabeça. O mundo inclinou, depois girou. Minha respiração travou na garganta. Senti-me flutuar, leve e estranhamente em paz, acima do porta-malas frio e escuro.

Olhei para baixo. Lá estava eu, encolhida no chão, minhas mãos pequenas agarradas ao estômago, uma mancha escura se espalhando pelo meu jeans. Meus olhos estavam abertos, mas pareciam vazios. Como as bonecas que a Mamãe costumava guardar no sótão.

A música ainda batia, alta e alheia a tudo. Eu podia ver através da divisória fina, dentro da cabine principal. Atlas estava rindo, com a cabeça jogada para trás. Cátia estava ao lado dele, a mão no braço dele, seus lábios vermelhos curvados em um sorriso presunçoso.

— Ela finalmente calou a boca — ronronou Cátia, a voz pingando satisfação. — Eu te disse que ela acabaria parando.

Atlas riu, um som grave e rouco que costumava fazer meu coração disparar, muito tempo atrás, antes do acidente. Agora, só soava... vazio.

— É — disse ele, pegando a mão de Cátia. — Sempre fazendo cena, essa garota. Que estorvo.

Estorvo.

Aquela palavra ecoou no espaço confinado, ricocheteando no equipamento de esqui, no meu corpo imóvel.

Ele olhou para Cátia, o olhar suave e cheio de algo que eu sempre desejei desesperadamente.

— Logo, Cátia — murmurou ele, apertando a mão dela. — Logo ela vai sair das nossas vidas para sempre. Então poderemos realmente recomeçar. Você e eu. E o nosso bebê.

Nosso bebê. As palavras se retorceram no meu estômago inexistente. Senti um vazio estranho e frio onde minha dor costumava estar. Não era apenas o bebê da Cátia. Era o meu bebê também. Ou teria sido. Se Cátia não tivesse forçado aquelas pílulas brancas goela abaixo, me dizendo que eram vitaminas. "O Atlas quer que você seja forte", ela disse, com aquele sorriso doce demais. "Tome estas. Vão te ajudar a parar de reclamar."

E agora, eu estava em silêncio. Para sempre.

Estou morta, pensei, uma calma estranha me invadindo. A dor tinha ido embora. O frio tinha ido embora. Apenas uma leve sensação de tristeza persistente restava, como um eco esquecido.

A SUV finalmente diminuiu a velocidade, entrando em uma entrada grandiosa revestida de pedra. Luzes brilhantes de um chalé imponente cintilavam contra as montanhas cobertas de geada de Campos do Jordão. Um manobrista em uniforme impecável correu para abrir as portas.

Atlas e Cátia saíram, de mãos dadas, os rostos iluminados pela excitação da chegada. Cátia estremeceu delicadamente, puxando seu casaco de pele de grife para mais perto.

— Está congelando, querido — arrulhou ela. — Vamos entrar.

— Só um momento — disse Atlas, olhando para trás, para a SUV. — Alguém viu a Elisa? Ela provavelmente está emburrada em algum lugar. — Ele parecia irritado, não preocupado.

Nesse momento, uma figura corpulenta em uma jaqueta preta grossa se aproximou da SUV. Seu rosto era sombrio, os olhos duros. Ele tinha um sorriso tenso e desagradável. Ele parecia problema, o tipo sobre o qual a Mamãe sempre me avisava. Seu nome era Sr. Torres, o "faz-tudo" do Atlas, um homem que sempre parecia carregar um segredo obscuro nos olhos.

— Atlas — disse Torres, com a voz rouca. — Eu cuidei dos... arranjos. A clínica está esperando por ela. Eles estão prontos para recebê-la hoje à noite, sem fazer perguntas.

Cátia sorriu radiante para Torres, um brilho triunfante nos olhos.

— Perfeito. Mal posso esperar para finalmente ter um pouco de paz e sossego por aqui.

A testa de Atlas franziu.

— Tem certeza de que este é o lugar certo, Torres? Parece um pouco... decadente. Eu quero que cuidem dela, não apenas que a joguem fora. — Mesmo nisso, a preocupação dele era menos comigo e mais em evitar uma situação complicada. Ele se preocupava com as aparências. Sempre.

Torres riu, um som seco e sem humor.

— Não se preocupe, chefe. É discreto. Muito privado. Ela ficará... confortável. E longe da vista. É isso que você queria, não é?

Cátia se aproximou de Atlas, acariciando o braço dele.

— Querido, não se preocupe. O Torres sabe o que está fazendo. A Elisa vai ficar bem. Ela sempre dá um jeito de ficar "bem". Agora, vamos nos aquecer. Estou morrendo de fome.

Atlas suspirou, com um toque de irritação na voz.

— Tudo bem. Mas se houver qualquer problema, Torres, você resolve. Não quero ouvir mais um pio sobre ela. — Ele olhou para a traseira do veículo, seu olhar passando direto por onde eu flutuava. — Ela sempre consegue ser um incômodo tão grande, mesmo quando está tentando ser boazinha.

Eu os observei, uma estranha sensação de desapego tomando conta de mim. Minha história tinha terminado, sozinha no porta-malas escuro e frio. E eles, os vivos, já estavam planejando meu apagamento. Atlas, Cátia, Torres. Todos estavam envolvidos, cada um à sua maneira. Minha súplica silenciosa, meu último suspiro, tinham passado despercebidos. Eu era apenas mais um incômodo, mais um problema a ser resolvido, como uma mosca irritante zumbindo perto demais.

Meus olhos, do meu ponto de vista etéreo, voltaram para o meu corpo sem vida, ainda escondido entre os equipamentos de esqui e a bagagem esquecida. Ninguém estava me procurando. Ninguém nunca procurava de verdade.

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