
Capoeira: A Dança da Alma e do Punho
Capítulo 2
João sentiu o sangue ferver.
Ele parou Sofia perto da saída da academia, o cheiro de suor e madeira encerada pairando no ar.
"Sofia, precisamos conversar."
A voz dele saiu mais áspera do que pretendia.
Sofia suspirou, ajeitando a alça da bolsa no ombro.
"Agora, João? Estou com pressa."
"É sobre a apresentação regional," ele disse, bloqueando a passagem dela sutilmente. "Mestre Antunes escolheu o Ricardo."
Ela o encarou, os olhos castanhos frios.
"E?"
"E? Sofia, treinamos juntos para isso. Era a minha vez."
A injustiça da decisão o consumia. Mestre Antunes mal olhara para ele nos últimos treinos, toda a sua atenção focada em Ricardo.
Sofia cruzou os braços.
"João, seja realista. Ricardo tem mais... presença. O Mestre viu isso."
Ela continuou, a voz firme, quase didática.
"Ele tem um talento natural que chama a atenção. Conexões também ajudam, você sabe. O pai dele..."
Ela não precisou terminar. O pai de Ricardo era influente no circuito da capoeira.
"Então é isso? Talento natural e conexões?" João sentiu o maxilar travar. "E todo o meu esforço? Minha dedicação?"
"Esforço é bom, João, mas às vezes não é o suficiente."
As palavras dela eram como golpes, precisos e dolorosos.
"O Mestre quer o melhor para a academia. Ricardo é a melhor aposta."
Uma dor aguda apertou o peito de João.
Era mais do que a apresentação perdida, era a validação que ele buscava, esmagada.
Lágrimas ameaçaram surgir, mas ele as engoliu com força.
Não na frente dela. Não assim.
Ele se sentia pequeno, desamparado.
A academia, antes seu refúgio, agora parecia um tribunal que o condenara.
Sofia continuou, impassível.
"Ricardo tem futuro, João. Ele vai longe."
A palavra "talento" ecoava na mente dele, cada repetição um novo golpe.
"Ele nasceu para isso," ela acrescentou, como se isso explicasse tudo, justificasse tudo.
O coração de João parecia ter algo cravado nele, uma sensação física de dor e traição.
Ele se sentiu invisível, como se seus anos de dedicação fossem nada.
João riu, um som amargo que surpreendeu até a ele mesmo.
"Então, o que foi tudo isso, Sofia? Nosso namoro... era só para me usar? Para o seu pai, talvez, ter uma 'conexão' com o Mestre através de mim, antes de perceberem que eu não era bom o suficiente?"
A suspeita, antes uma sombra, agora ganhava contornos nítidos.
Ele lembrou-se do pai dela, sempre cordial, mas com um olhar calculista.
Lembrou-se de como Sofia parecia mais interessada em seus progressos na capoeira do que nele como pessoa.
Ele se lembrou de inúmeras vezes.
Sofia e Ricardo rindo juntos após os treinos, olhares cúmplices trocados por cima de sua cabeça.
Mestre Antunes elogiando Ricardo efusivamente por movimentos que João já dominava há tempos, mas que dele passavam despercebidos.
As peças se encaixavam, formando um mosaico de engano e favoritismo.
A dor da traição era dupla: profissional e amorosa.
João respirou fundo, uma onda de raiva fria substituindo o desespero.
Ele não ia se afogar naquela mágoa.
Ele não ia deixar que eles o definissem.
"Sabe de uma coisa, Sofia?"
A voz dele agora era calma, perigosamente calma.
"Você tem razão. Ricardo tem mais futuro... com você."
Ele se endireitou, a insegurança dando lugar a uma nova e frágil determinação.
"Eu não preciso disso. Não preciso de você."
"João..." ela começou, talvez surpresa pela mudança súbita.
Mas ele já tinha se virado.
"Acabou, Sofia."
Ele caminhou para longe dela, sem olhar para trás.
Cada passo era uma afirmação de sua decisão.
Ele não pertenceria mais àquela academia, àquela cidade, àquela vida.
Naquela mesma noite, João arrumou uma pequena mochila.
Roupas, seus documentos, o pouco dinheiro que tinha.
Deixou para trás o berimbau que ganhara de seu pai, um presente relutante.
Deixou para trás as fotos com Sofia, as medalhas de competições menores.
Ele foi para a rodoviária, o coração pesado, mas a mente estranhamente clara.
Salvador, com seu sol e suas rodas de capoeira famosas, ficaria para trás.
Na rodoviária, o painel de destinos piscava nomes de cidades que ele mal conhecia.
Sentia-se perdido, à deriva.
Para onde ir? O que fazer?
A capoeira era tudo o que ele conhecia, tudo o que ele amava, apesar da recente traição.
Então, um nome pequeno num canto do painel chamou sua atenção: "Horizonte Belo - MG".
Um folheto amassado, preso com fita adesiva ao lado do guichê, anunciava uma "Academia Raízes da Terra - Mestra Clara".
A foto era de uma mulher mais velha, olhar sereno, ao lado de um grupo pequeno de capoeiristas sorridentes.
Era simples, humilde, o oposto da ostentação da academia de Mestre Antunes.
Uma lembrança distante surgiu.
Sua mãe, falecida há anos, mencionara uma vez uma tia-avó que vivia no interior de Minas, numa cidadezinha com um nome parecido.
Ela também falava de capoeira, de como era diferente por lá, mais ligada à terra, às tradições antigas.
Seria um sinal? Um chamado?
Ele não sabia, mas uma faísca de curiosidade se acendeu.
Impulsivamente, João caminhou até o guichê.
"Uma passagem para Horizonte Belo, por favor."
A decisão estava tomada.
Ele não sabia o que o esperava, mas qualquer coisa seria melhor do que a sombra de Sofia e Ricardo.
Com o bilhete na mão, ele embarcou no ônibus noturno, deixando para trás a cidade litorânea e a vida que o magoara.
A jornada de autodescoberta havia começado.
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