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Capa do romance Bem-vindo de volta ao Brasil

Bem-vindo de volta ao Brasil

Roberto viveu ilegalmente nos EUA por uma década, mas decide abandonar tudo para buscar um amor virtual no Brasil. Sem documentos e apenas com a roupa do corpo, ele encara o choque do retorno após uma perigosa travessia pelo México. Entre cidades como Rio e Boston, surge o mistério: quem é Rubrus e onde está a garota dos seus sonhos? Uma jornada de superação, aventura e segredos, culminando em um desfecho que promete surpreender a cada página.
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Capítulo 1

Inverno na grande cidade. A noite envelhecia mais cedo, trazendo consigo a poeira branca que tingia a paisagem. Nas ruas,

flocos de neve desafiavam para-choques, gorros e corpos apressados. Os mais afoitos bailavam por entre os edifícios; os mais

preguiçosos adormeciam nos ponteiros do relógio daquele que foi

o primeiro arranha-céu de Boston, o Marriott Custom House.

Pouco mais adiante, em um restaurante fincado no bairro italiano de North End, parte dos funcionários se reunia nos fundos da

cozinha. Havia em seus olhos um brilho fosco de esperança pelo

retorno de um funcionário, cuja ausência completava três dias.

— Hoje ele não vem mais... – informou Zeca, passeando os

olhos pelo teto até debruçá-los fixamente no relógio. – Onde se

meteu esse garoto?

— Quem? – indagou a garçonete, que chegara àquele momento, olhando a pia abarrotada de louças sujas.

— Roberto, o lavador de pratos.

Senhor Rodrigues, o cara que teria de lavar toda aquela lou-

ça sozinho, começou a mexer no celular.

— Tá ligando pra quem? – perguntou o Zeca.

— Pra Amanda.

— Amanda? Que Amanda?

— A namorada dele lá de Nova Iorque. Alguma coisa estranha tá acontecendo. Desde que o Roberto sumiu não consigo

falar com essa garota.

O celular chamou, chamou... por fim caiu na caixa de mensagem:

— 我现在无法接听您的电话。 请留言。1

1 - Eu não posso atender sua ligação neste exato momento. Por favor,

deixe uma mensagem

— Aí, num tô dizendo?... Agora a mensagem tá em chineis!

— Olha, Rodrigues, não quero te assustar, mas tão dizendo

por aí que o Roberto foi deportado. E onde há fumaça há fogo.

— Então, deixa eu voltar ao trabalho e, a propósito, trata

de colocar um anúncio procurando outro funcionário – disse o

Rodrigues, começando a colocar os pratos na lava-louças.

— Tá bom, mas antes deixa eu ligar pro Zé.

— Zé, que Zé?

— O mineirinho que divide o apartamento com ele em East

Boston. Chegou uma mensagem. Essa notícia vai lhe interessar,

decerto. ...Parece que encontraram o Roberto.

“Roberto vazou”, dizia a mensagem (traduzindo o mineirês: “foi embora”); chegou no Brasil só com a roupa do corpo.

Eita homem de coragem! Nem todo mundo tá disposto a voltar a

ganhar em real depois de pôr a mão nas verdinha$.

Escolhas à parte, agora podemos responder à questão:

“WHERE´S ROBERTO”

?

— ...Tô falando com ele agora, me liga outra hora – respondeu o Zé, inconformado, voltando do trabalho, puto pra caralho.

— Roberto voltou para o Brasil??? Puta que pariu!!!!!!

Pois, é. Viajou sem visto, sem lenço e sem documento (literalmente). Comprou uma passagem só de ida. “Oh, vida!”

— He’s crazy!

— I know.

Brincou com a sorte, se enrolou. Ou estava prestes a se enrolar? (Eehhhh... isso não vai prestar.) É o que o Zé, com muito custo, por celular, tentava explicar – caminhando apressado,

touca cobrindo-lhe os olhos, mochila nas costas, empacotado.

A jaqueta era do Boston RedSox, time de beisebol local muito

aclamado – nove graus negativos, um frio lascado – pelo menos

pra mim, que não estou acostumado –, mas pro Zé aquele frionão era nada, que com naturalidade falava ao celular e gesticulava. Passava despercebido em meio a tanta gente, também apressada que, como ele, ia pro trampo ou voltava pra casa. Chineses,

coreanos, guatemaltecos, indonésios, armênios, colombianos e

mexicanos; hondurenhos, marroquinos, haitianos, salvadorenhos, paquistaneses, cubanos e dominicanos; gente de toda parte, dos mais diversos continentes. A maioria jamais pensava em

voltar pro seu país novamente. Já Roberto, minha gente... ah!!!

A realidade era bem diferente.

— Eu sabia, isso não ia acabar bem. Você vivia com o corpo

na América, a cabeça no Brasil e o coração também... ou então

vivia em outro mundo! E depois que começou a namorar pela

internet... aí lascou tudo. Até filmes você assistia dublado em

português! Como queria aprender inglês?

— Calma, Zé! Pensa no lado bom. Pelo menos, ele não foi

deportado.

— Unbelievable!

– exclamou o dono do restaurante onde

Roberto havia trabalhado, sem entender a deserção do funcioná-

rio, de quem ele chegou, inclusive, a assinar os papéis para ele

ter se legalizado.

— What fuck he’s doing in Brazil?

— I don’t know.

Só sei que o Zé, agora dentro do seu apartamento, faltava

pouco para se descabelar de vez, enquanto o Roberto, mais precisamente no saguão de embarque do Aeroporto Internacional de

Goiânia, buscava argumentos para justificar a burrada que fez.

— “Preferi a língua universal do amor ao inglês.”

— Ih, lá vem você com essas frases desses livros que não te

ajudaram pra nada. Você não aprende mesmo...

— “Amar se aprende amando.”— Eu sei, criatura, mas até quando você vai continuar errando?

— “Se eu errar que seja por muito, por amar demais, por me

entregar demais, por ter tentado ser feliz demais.”

— ...E por ser trouxa demais... por acreditar nesses namoros

virtuais que nunca dão certo. ...Como a Amanda, linda trapezista

morena de Chicago, que você conheceu, aliás, também na sala

de bate-papo, mas que na verdade era a mulher barbada do circo.

Sem falar da Amanda manicura, que a gente fez até vaquinha pra

trazê-la com o cunhado do Brasil, e depois descobrimos que ela

queria trazer o marido, um tremendo folgado...

Era assim mesmo, não tinha jeito. Nos namoros virtuais do

Roberto, sempre algo dava errado. Por isso, ele resolveu sair de

trás do computador e ir em busca de seu grande amor, que até

então ele só sabia o nome.

— Eu só não entendi uma coisa: se a sua namorada era de

Nova Iorque, como você foi parar no Brasil?

Ô, Zé! Cada coisa em seu lugar. O homem acabou de chegar. Deixa, pelo menos, ele esfriar “os pé”, parar na cafeteria,

tomar um café. Com certeza, esse assunto ele vai esclarecer e

a gente, enfim, o desenrolar dessa história vai entender. Onde

ela começa e, principalmente, a forma surpreendente em que ela

termina.

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