
Belo Desastre
Capítulo 2
No silêncio tranquilo de seu carro, Marybeth rasgou o envelope. Um papel, confirmando que seu grande dia estava de fato marcado, flutuou para fora e caiu em seu colo.
"Inacreditável!", disse ela, balançando a cabeça quando seus olhos pousaram na data do recibo. Por alguma razão misteriosa, seu pai e Danica tinham guardado uma bomba dessas por mais de um mês e largaram tudo em cima dela bem na última hora. Ela até sabia se virar sob pressão. Mas isso? Já era absurdo demais.
Se não fosse tão revoltante, até dava pra rir. Mas era revoltante, e ela estava de coração partido. Talvez por ter sido pega de surpresa. Mas né, as facadas mais doloridas sempre vinham de quem a gente mais confiava. A mãe dela que o diga-prova viva de que confiar nas pessoas era pedir pra sofrer, principalmente naquelas que juravam estar do seu lado.
Virou o papel e discou para o número anotado no verso. O telefone do futuro marido tocou por uma eternidade antes de cortar. Nada de caixa postal. Do jeito que ela apreciava. Talvez ele não fosse tão ruim afinal.
Tentou de novo. Dessa vez, atendeu. Uma voz grossa e mal-humorada veio pelo viva-voz, "Alô?"
Totalmente despreparada e ainda tentando processar toda essa loucura que tinha acabado de descobrir, Marybeth travou. E o fato de o cara não soar nem um pouco amigável só piorava tudo. Nada de tom tranquilo ou aberto a conversa.
"Fale!", resmungou ele. E na cabeça dela, a imagem era clara: aquele tipo cansado, nariz pontudo sendo apertado com raiva, entradas de cabelo brilhando sob aquela luz branca de motel barato, barrigão forçando uma camiseta velha de regata.
A imagem mental foi o suficiente para lhe causar náusea. Mas suas palavras duras fizeram com que ela segurasse tudo.
"Pare de respirar feito psicopata e fale alguma coisa!"
Psicopata? Marybeth se ajeitou no banco, irritada. Se alguém ali era estranho, era ele!
"Olha só," disse ela friamente, irritada por ter que fazer essa ligação ridícula. "Aqui é Marybeth, filha de Lionel Tyson. A mulher que você deveria se casar hoje."
Houve uma breve pausa antes que o "ogro" falasse novamente, "Até que enfim. Já estava começando a achar que você nunca ia me ligar."
Sério isso? Quem esse cara achava que era? Nem parecia que ele estava lidando com algo que ia mudar a vida DE VERDADE dela.
"Já que você só resolveu me chamar poucas horas antes do nosso final feliz, me diga aí-tá tentando escapar do acordo?"
"Não exatamente," disse Marybeth rapidamente. "Mas tava pensando se dava pra resolver isso de outro jeito... sem envolver o cartório."
Ouviu-se uma respiração mais forte do outro lado antes de ele soltar a bomba: "Eu não faço acordo de última hora. Nove da manhã. Cartório da Rua Strand. Nos vemos lá."
"Não!"
"Não?" ele zombou em um tom assustadoramente parecido com o dela. "Você tem ideia de quanto seu pai me deve? O que ele ofereceu como garantia está muito aquém das minhas expectativas. Mas já que sou um homem razoável-"
"Muito aquém das suas expectativas? Homem razoável?" Marybeth gritou. "Que parte de se casar com um completo estranho é razoável para você?"
O outro ficou quieto, refletindo. E por um segundo, ela até achou que ia rolar bom senso. Talvez ele mesmo visse que isso tudo era um absurdo e topasse um plano parcelado pra quitar a dívida do pai. Só que não era bem assim. Ele a surpreendeu mais uma vez com sua resposta. "Eu acho que cada parte disso é razoável, não acha?"
Chega de papo furado. Marybeth foi direto ao ponto. "O que você quer pra acabar logo com essa palhaçada?"
"Você sabe muito bem, Beth."
"É Marybeth!"
"Na minha cama, não será!"
O quê? Marybeth teve certeza de que seu queixo estava no chão de seu KIA Picanto. Como assim o assunto foi de dívida pra cama em questão de segundos?
"Papai-" A voz alegre de uma menininha soou pelo telefone, trazendo Marybeth de volta à realidade.
Ela recuperou a compostura. "Você tem uma filha?"
"Por que você acha que quero me casar com você?"
"Como é que é?"
"Beth, não sei o quanto teu pai te contou. Mas ele me deve uma grana absurda e ainda tentou dar pra trás. Só que, no meu mundo, palavra é coisa séria. A proposta é você trabalhar pra mim como faxineira, babá e... digamos... companhia ocasional. É isso ou nada."
Marybeth engoliu em seco enquanto limpava suas mãos suadas na calça do pijama. Ele não parecia mais um velho tarado. Não. Esse cara era do tipo que dominava as reuniões de diretoria, o tipo que metia medo só de entrar na sala. Não que ela tivesse visto muitas reuniões desse tipo. O lugar mais próximo disso em que já estivera era a sala dos professores da Escola Primária de Sea Point, onde ela lecionava para alunos do primeiro ano.Mas não podia dar o gostinho de parecer acuada. Então, respirou fundo, engoliu o pânico e mandou ver, tentando soar firme.
"Agradeço a proposta, mas vou ter que recusar. Já tenho uma carreira legal ensinando crianças. Não tô a fim de ficar limpando bagunça sua."
"Sinto muito, mas qual parte desta conversa te fez pensar que estou aberto a negociações?" O homem deu uma gargalhada. Que audácia! Ele realmente riu dela, e Marybeth teve tanta vontade de bater o celular repetidamente no painel sufocante de calor até o som irritante da risada sarcástica dele desaparecer.
"Olha, Beth, eu posso encaixar os seus horários no meu esquema. Mas já vou avisando: hoje vai acontecer. E se eu tiver que ir até aí te buscar, vou."
A ameaça pairou no ar e fez Marybeth estremecer. Foi fácil imaginar ele chegando com um bando de capanga e revirando o apartamento do pai pra arrastá-la até o cartório.
"Para o caso de você ainda não ter entendido completamente, deixe-me lembrar que sou a única coisa entre seu pai e uma cela de 2,10 por 2,70."
Ele parecia estar se divertindo à custa do desespero dela. Mas de certa forma... ela já esperava. Sabia, por experiência, que discutir com o pai pelo telefone nunca levava a lugar algum. Devia ter deixado pra confrontar esse cara cara a cara no cartório-
"Lionel não é mais tão jovem." O futuro marido dela interrompeu seus pensamentos. "E com a cirrose dele tão fora de controle-"
"Cirrose?!" perguntou Marybeth num fio de voz minúsculo, que mais parecia de um dos seus alunos mais tímidos no primeiro dia de aula. Foi seu primeiro contato com esse problema assustador. Primeira vez descobrindo que o pai estava gravemente doente. O que mais ele escondeu dela?
Era como se tivessem puxado o chão debaixo dos pés dela. Nem respirar ela conseguia direito, mesmo tentando convencer os pulmões a funcionarem. Então, destravou o vidro da porta e deixou o ar quente entrar. Qualquer coisa era melhor do que o peso que prendia o peito dela.
"Ele não te contou?" O homem estalou a língua, com um desprezo quase palpável enquanto continuava, sem se preocupar nem um pouco com o fato de ter acabado de virar o mundo dela de cabeça para baixo com sua notícia inesperada. "Você realmente quer arriscar o bem-estar dele ao enviá-lo para o sistema de saúde penitenciário?"
Marybeth mordeu o lábio inferior, pensando. Além do fato de ser uma condição crônica grave, ela sabia pouco sobre cirrose. Mas, seria tão ruim assim mandar seu pai para a prisão pelos seus crimes? Ela viveria em paz por alguns meses, talvez até anos. Não teria mais que se preocupar com as encrencas que ele se metera. Não teria mais que temer atender chamadas a altas horas da noite, porque sua mente sempre saltava para a assustadora conclusão de que era A LIGAÇÃO-aquela que transformaria sua vida de filha de golpista em órfã, num estalo.
"Beth, então tá fechado?"
"É Marybeth!" Ou "Doçura", como seu pai, com seus inúmeros segredos, gostava de chamá-la quando queria dinheiro ou algum outro favor dela. Mas ela nem mencionou isso pro cara, sabia que ele não ligava. Ele já tinha decidido que ela era Beth, ponto final.
Qual era mesmo o nome dele?
Ela deu uma olhada no papel em sua mão e revirou os olhos.
Austin Hawthorne. Um nome bem apropriado para um sujeito convencido.
"Certo, Beth. Te vejo às 9h00 da manhã. Não se atrase!" disse o presunçoso Austin, e logo desligou, deixando ela atônita com toda a situação.
Como foi que ela perdeu tão mal assim?
"Argh!" Marybeth soltou um grito silencioso enquanto amassava o papel em uma bolinha e o jogava ao chão.
"É só por um ano. Papai disse que é só por um ano," ela se consolou ao sair do carro.
Quão difícil poderia ser limpar as coisas dele e cuidar da filha?
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