
Até Que a Morte Nos Reúna
Capítulo 2
Sofia Mendes olhou para a medalha de honra ao mérito do pai, a Medalha Marechal Argolo, fria em sua mão.
Lágrimas silenciosas escorriam por seu rosto enquanto lembrava da brutalidade que levara seu pai, um capitão condecorado da Polícia Militar da Bahia, e sua mãe.
Uma poderosa facção criminosa de Salvador, o Comando do Pelourinho, ligada ao tráfico de drogas e jogos de azar, era a responsável.
A dor se transformou em uma resolução fria.
Ela se vingaria.
Assumiria o codinome "Estrela".
Para isso, precisava morrer.
Forjaria a própria morte em um acidente de lancha na Baía de Todos os Santos, adotaria uma nova identidade.
Anos antes, em segredo, doara um rim para seu então namorado, João Pedro Azevedo. Um sacrifício de amor que ele jamais soube.
Agora, esse mesmo João Pedro, rico empresário do setor de energias renováveis, era seu marido.
Um marido que a desprezava.
Ele acreditava que Sofia o abandonara na época da faculdade por um homem mais velho e influente, um político baiano, em busca de luxo.
A verdade era muito mais sombria.
Sofia tomou sua decisão.
Procurou uma unidade de inteligência da polícia, revelou seu plano.
Eles precisavam de alguém infiltrado. Ela precisava de vingança.
A aliança foi selada.
Sua morte simulada seria o primeiro passo.
Mas antes, havia o inferno do seu casamento.
João Pedro a desposara por vingança, para humilhá-la, para ostentar seu poder sobre a mulher que ele acreditava tê-lo traído.
E Juliana Castro, amiga de infância de Sofia, vinda de uma família tradicional de Feira de Santana, era a arquiteta de parte desse inferno.
Secretamente apaixonada por João Pedro desde a adolescência, Juliana era manipuladora.
Convenceu João Pedro de que fora ela quem lhe doara o rim, solidificando seu lugar ao lado dele.
Agora, Juliana vivia com eles, a "amiga do casal", e instigava João Pedro a novas crueldades.
Sofia voltou para casa, o som da música alta e risadas femininas a atingindo antes mesmo de abrir a porta.
Era sempre assim.
João Pedro fazia questão de exibir suas amantes, de humilhá-la publicamente em sua própria casa.
Ela entrou na sala.
João Pedro estava no sofá, uma loira siliconada em seu colo, ambos rindo de algo que ele sussurrava ao ouvido dela.
Juliana estava sentada em uma poltrona próxima, um sorriso satisfeito no rosto, observando a cena.
Sofia sentiu o entorpecimento habitual, a dor surda, a humilhação.
Respirou fundo, a imagem da medalha do pai em sua mente.
"Preciso de você," João Pedro disse, sem sequer olhá-la, a voz fria, dispensando a loira com um tapa na bunda.
A mulher se levantou, ajeitando o vestido minúsculo, e lançou um olhar de desprezo para Sofia antes de sair.
"Sirva-nos uísque," ele ordenou, finalmente encarando-a. "E depois suba. Tenho algo para você."
Sofia obedeceu em silêncio, o ressentimento queimando em seu peito.
Serviu as bebidas, a mão firme apesar da tempestade interior.
Ele a seguiu até o quarto do casal, que agora parecia mais uma câmara de tortura psicológica.
João Pedro jogou um maço de dinheiro sobre a cama.
"Para seus serviços," ele disse, o desprezo evidente em sua voz. "Você não é boa em mais nada, ao menos sirva para alguma coisa."
A degradação era palpável.
Sofia sentiu a raiva subir, mas a engoliu.
"Por que faz isso, João Pedro?" ela perguntou, a voz baixa, mas firme. "Por que continua com essa farsa?"
"Farsa?" ele riu, um som amargo. "Você chama isso de farsa? Você quebrou meu coração, Sofia. Me abandonou pela promessa de uma vida de luxo. Agora, você tem o luxo, mas também tem a mim. E vai pagar por cada lágrima que derramei."
"E Juliana?" Sofia perguntou, a voz embargada. "Ela também faz parte da sua vingança? O que você fez com o braço dela?"
A lembrança da festa de São João na fazenda de João Pedro, semanas atrás, era vívida. Juliana simulando uma queda do mezanino, acusando Sofia de tê-la empurrado. O braço quebrado. A encenação perfeita.
João Pedro se aproximou, o rosto sombrio.
"Juliana é leal. Ela esteve ao meu lado quando você me deixou para morrer. Ela me deu uma parte dela, literalmente." A referência à doação do rim, a mentira de Juliana que ele engolira. "Você nunca entenderia o que é sacrifício."
O desespero apertou o coração de Sofia. Ele não fazia ideia.
Um flashback a atingiu.
Salvador, anos atrás. A faculdade.
Ela e João Pedro, jovens, apaixonados, cheios de sonhos.
Passeios pela orla, o cheiro do dendê, o som do axé.
A doença súbita dele, a necessidade urgente de um transplante de rim.
A decisão dela, secreta, de doar o seu. O medo de perdê-lo.
A cirurgia clandestina, a recuperação rápida para que ele não desconfiasse.
E então, a morte do pai.
As ameaças da facção.
Se ela não se afastasse de João Pedro, ele seria o próximo.
A decisão agonizante de terminar tudo, de inventar um interesse por um homem mais velho, de parecer superficial e interesseira para protegê-lo.
A dor nos olhos dele quando ela partiu.
O acidente de carro dele, meses depois, a notícia chegando a ela como um soco.
Ele sobreviveu, mas o ódio por ela se solidificou.
Ela o salvara duas vezes, e ele nunca soube.
O flashback se dissipou.
João Pedro a observava, os olhos frios.
Ele se reergueu, focou na carreira, enriqueceu.
E então, anos depois, ele a procurou.
Não por amor. Por vingança.
Ele a forçou a casar, prometendo um inferno. E cumpriu.
"Você não passa de uma interesseira, Sofia," ele disse, a voz carregada de amargura. "Sempre foi. Só o dinheiro te importa."
A dor era quase insuportável, mas ela manteve a máscara.
Era preciso. Para protegê-lo. Para sua missão.
"Sim," ela disse, a voz surpreendentemente firme. "Você tem razão. O dinheiro é tudo que me importa."
Ele a olhou com nojo, mas havia um brilho estranho em seus olhos. Uma ponta de dúvida? Ou apenas mais combustível para seu ódio?
Ela aceitou o dinheiro da cama.
Seu destino sombrio a aguardava. A missão era iminente.
E ela não fraquejaria.
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