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Capa do romance Asas de Anjo

Asas de Anjo

Bianca busca recomeçar sua vida em uma cidade pacata após provar maturidade aos pais para morar sozinha. No caminho para a nova universidade, ela conhece Val, um jovem com aura de badboy que a introduz ao seu círculo de amigos na UCC. Entre eles está o ranzinza Eduardo, tratado por Val como um irmão. Em um ambiente repleto de preconceitos e julgamentos precipitados, Bianca descobre que as aparências enganam e as pessoas escondem muito mais do que revelam.
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Capítulo 2

A pensão Universitária se localizava exatamente ao lado do terreno da universidade e pertencia à mãe de Val. Alunos vindos de outras cidades ou que buscavam uma vida independente de seus pais, se hospedavam e lá permaneciam até se formarem. A proximidade e preço razoável eram grandes atrativos, além da eficiência da proprietária em administrar o local.

Era um imóvel espaçoso, de três andares, com um terraço aberto. O primeiro andar se constituía de duas salas, sendo uma de estar com diversos sofás, almofadas e televisão. Uma outra sala funcionava como um salão de jogos, tendo um sofá antigo, uma mesa de sinuca, máquina de petiscos e de bebidas, dois fliperamas e uma estante repleta de discos de vinil e jogos de tabuleiro. Além das salas, também tinha uma ampla cozinha e uma lavanderia, onde os hóspedes podiam usar livremente as lavadoras, secadoras e ferro de passar. No segundo e terceiro andares ficavam os quartos, todos amplos com banheiros próprios. Seis quartos por andar, sendo todos duplos.

Eduardo e Rafael se divertiam jogando sinuca no salão de jogos. Eduardo segurava seu taco com precisão, corpo curvado sobre a mesa, concentrado, olhando para as bolas à sua frente. Haviam apostado uma caixa de cerveja e Rafael, para variar, estava ganhando.

Eduardo precisava acertar aquela jogada ou perderia jogo, o que significaria ser zoado pelo amigo até o próximo século. Ele estava tão concentrado, que não percebeu quando alguém se aproximou lentamente e não ouviu os passos atrás de si. Na hora em que se preparou para dar sua melhor tacada, um forte estalo ecoou pelo salão de jogos, seguido de um grito rouco e um estrondo de algo caindo no chão.

Rafael se esforçava para conter o riso, mas tal esforço o fez gargalhar ainda mais alto. Especialmente quando seus olhos voltavam para a cena a poucos passos dele. Deitado no chão, com a mão no rosto e um filete de sangue emergindo dos lábios, estava Alex.

— Cara, você me acertou um soco!— Gritou Alex, tocando os lábios com a ponta dos dedos.

— Que merda você pensou que estava fazendo ao me dar um pescotapa, seu corno? — Ripostou Eduardo, ainda furioso.

— Matando saudades? — Renato respondeu no lugar de Alex, entre gargalhadas.

Alex e Renato eram dois irmãos, vinte e vinte um anos, respectivamente. Alex era bem moreno, alto, magro, cabelos negros caindo na testa, mas sempre escondidos por um boné; Renato era o que no passado chamavam de mulato, pele bem morena, cabelo crespo e olhos cinzas, que dependendo do dia, pareciam mais azulados ou esverdeados. Renato tinha o corpo um tanto mais musculoso que o irmão, embora ambos fossem bem definidos pelo boxe que praticavam.

Alex e Rafael tinham um relacionamento de cumplicidade e amizade muito fortes, especialmente por terem personalidades parecidas. Ambos eram simpáticos, amigáveis e mulherengos. Renato, assim como Eduardo, era mais fechado e sério, embora a seriedade de Eduardo, as vezes, fosse um pouco sombria... Os irmãos entraram no mesmo ano que Eduardo e Rafael na faculdade e dividiam um quarto na pensão Universitária.

Eduardo estendeu a mão ao Alex para ajudá-lo a se levantar e se cumprimentaram com um abraço. Jogado no sofá, do canto da sala, perdendo a voz de tanto rir, estava Renato. Os amigos se cumprimentaram.

— Vai pagar a cerveja! — Disse Rafael.

— Porra nenhuma! Não tenho culpa de Alex ter acabado com o jogo!

— Mas você estava perdendo! — Protestou Rafael.

— Por que, em vez de comprarmos cerveja, não esperamos Val chegar, ele vem hoje, não vem? De repente a gente pode ir para o clube, rever as amigas... Sugeriu Alex apertando a mão de Rafael, que o cumprimentou pela ideia.

— Esse é nossa última semana antes das aulas começarem, temos que aproveitar! — Comentou Renato.

*****

Val abriu a porta do charmoso e antiquado prédio da Pensão Universitária e apontou o balcão da recepção, onde uma mulher madura, estatura mediana e cabelos cortados bem curtos, assistia a novela. Quando os viu entrar, a mulher se levantou de um salto e correu na direção de Val.

— Valdemar! Por que não me avisou que voltaria hoje? E por que não atendeu meu telefonema ontem à noite? Não sabe como me deixa preocupada quando ignora minhas ligações? — Gritou alegre Glória abraçando Val, que carregava sua mochila e a bolsa de viagem de Bianca.

— Oi, mãe, já pode parar de me espremer! — Disse sorridente, beijando em seguida a testa de Glória e propositalmente ignorando a enxurrada de interrogações que ela havia lançado sobre ele.

— Quem é essa linda jovem?— Glória perguntou, olhando para a jovem ao lado de seu filho.

— Me chamo Bianca. — Respondeu e estendeu a mão para cumprimentar a proprietária da pensão. — Reservei uma vaga aqui, acredito que falei com a senhora pelo telefone semana passada.

— Ah, sim, querida, será um prazer tê-la aqui conosco. Somos como uma grande família. — Glória pegou um molho de chaves em uma gaveta e jogou para o filho. — Leve-a até o quarto 203, Valdemar.

— Ok, mamãe, até mais tarde!

— Não tão mais tarde, desça logo que eu vou preparar um lanchinho pra você! Deve estar com fome e só de te olhar já vi que perdeu peso! — Glória se retirou para a cozinha na intenção de preparar tal lanche.

Val sorriu. A mãe sempre achava que ele tinha perdido peso cada vez que passava algum tempo na casa do pai. Na verdade, ele temia ter engordado já que, enquanto estava lá, não treinou como de costume.

— Foi muita sorte te conhecer no trem, Valdemar. — Bianca sorriu, levantando uma sobrancelha. — Eu acho que me perderia se estivesse sozinha!

— BB, isso é verdade, é sempre muita sorte me conhecer. — Disse Val, com uma piscadela. — Mas se me chamar de Valdemar de novo, juro que vai perder um amigo!

— Desculpa, Val, não resisti... Aliás, não há nada de errado com seu nome, só te provoquei porque achei sua tentativa de escondê-lo hilária.

— Ok... Esqueça meu nome! Venha comigo que eu te levarei até seu quarto. — Disse Val, quando Bianca terminou de preencher a ficha.

Subiram as escadas para o segundo andar e pararam em frente à porta do quarto 203.

— Voila, Mademoiselle!

Val abriu a porta do quarto para Bianca entrar e entrou em seguida, deixando a bolsa de viagem dela próxima à cama que estava vazia. No lado direito do quarto, tinha um guarda roupa grande e a cama destinada à Bianca. Entre a cama e o guarda roupa ficava uma cômoda/penteadeira com espelho. No lado esquerdo do quarto, onde ficava a janela, tinha outra cama com um violão sobre ela, uma mesinha de cabeceira, uma cadeira com um par de tênis masculinos e uma cesta de lixo cheia de papel amassado.

— Não vai me dizer que você é meu colega de quarto?

— Infelizmente, não... — Val conteve um sorriso e decidiu não comentar nada sobre a outra pessoa que ocupava o quarto 203. — Meu quarto fica no fim do corredor, número 206. Se precisar de alguma coisa, estarei por lá.

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