
As Noventa e Nove Traições Dele, Minha Liberdade
Capítulo 3
"Você tem certeza disso, Helena?" Dr. Torres, meu mentor e chefe da divisão aeroespacial, olhou para mim por cima dos óculos, sua expressão marcada por uma mistura de preocupação e admiração. "O Projeto Quimera é um compromisso de três anos. Altamente confidencial. Remoto. Praticamente fora do mapa."
Suas palavras tinham a intenção de me dissuadir, de me fazer reconsiderar a natureza drástica da minha decisão. Mas elas apenas solidificaram minha determinação.
"Tenho certeza, Doutor", respondi, minha voz firme. "É exatamente o que eu preciso."
Ele suspirou, empurrando os óculos para cima do nariz. "É uma oportunidade incrível, claro. Seu trabalho no sistema de propulsão por si só a torna inestimável. Mas também é... uma fuga. Uma fuga bem literal."
Ele não precisava elaborar. Todos sabiam. A rede de fofocas na instituição era eficiente. A notícia do meu centésimo adiamento de casamento, seguida pelo cancelamento abrupto e meu voluntariado imediato para o Projeto Quimera, se espalhou como fogo. As línguas se soltaram. Alguns sentiam pena de mim, outros fofocavam, alguns, eu sabia, me julgavam por abandonar Bruno Tavares, o "charmoso Comandante do GRUMEC".
Mas aqui, à beira de algo novo, as opiniões deles pareciam distantes, irrelevantes. O Projeto Quimera era mais do que uma fuga; era salvação. Uma chance de me enterrar no trabalho, de redescobrir a engenheira brilhante que eu sabia que era, a mulher cuja mente, e não seu estado civil, a definia. Longe do julgamento constante, das expectativas sufocantes, do drama interminável.
Minha avó, uma mulher formidável com uma inteligência afiada e um tino para negócios ainda mais afiado, me ligou na noite em que terminei com Bruno. "Esse rapaz não vale uma única lágrima que você derramou, Helena", ela declarou, sua voz firme. "Deixe-me fazer algumas ligações. Posso ter a carreira dele em frangalhos até de manhã. Vamos mostrar a ele o que acontece quando desrespeita uma mulher Ribeiro."
Eu balancei a cabeça, embora ela não pudesse me ver. "Não, Vó. Não faça isso. Não quero forçá-lo a nada. Um casamento construído sobre ressentimento é pior do que nenhum casamento. Quero construir meu próprio futuro, nos meus próprios termos. Não através de vingança."
Ela fez uma pausa, depois soltou uma rara e suave risada. "Minha menina. Você finalmente encontrou sua espinha dorsal. Bom. Eu sempre soube que você tinha isso em você."
E ela estava certa. Por anos, eu acreditei que amor significava sacrifício, que ser "boa" significava ser complacente. Mas a traição de Bruno, seu descaso casual com meus sentimentos, sua disposição em usar minha carreira como alavanca, havia quebrado algo dentro de mim. O ressentimento havia fermentado, lentamente se transformando em desafio.
O Projeto Quimera era uma instalação de pesquisa confidencial aninhada no Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão. Era remoto, isolado, quase monástico em sua dedicação à ciência. Sem sinal de celular, internet limitada e protocolos de segurança rígidos significavam uma ruptura completa com o mundo exterior. Perfeito. Era um lugar onde minha mente poderia finalmente voar livre, desimpedida da bagagem emocional do meu passado.
O projeto em si era incrivelmente complexo, lidando com sistemas de propulsão de última geração que poderiam revolucionar as viagens espaciais. Era o tipo de desafio que me estimulava, o tipo de quebra-cabeça intelectual que fazia meu sangue cantar. Eu havia me candidatado meses atrás, passando por testes e entrevistas rigorosos, minhas qualificações falando por si. Minha aceitação foi um triunfo silencioso, um testamento às minhas capacidades. Agora, era meu santuário.
Comecei a fazer as malas, organizando meticulosamente minhas anotações, minha pesquisa, meus poucos pertences pessoais. Havia um senso de urgência, uma necessidade desesperada de cortar laços, de apagar o passado. Bloqueei o número de Bruno. Ignorei as ligações cada vez mais frenéticas da minha mãe, sabendo que ela ficaria furiosa com o escândalo, comigo partindo para um "projeto secreto" de todas as coisas.
Então, uma batida na porta do meu apartamento.
Abri e vi Bruno parado ali, um buquê das minhas lírios favoritas em uma mão, uma sacola de delivery do meu restaurante japonês favorito na outra. Ele parecia... arrependido. E esperançoso. Uma combinação perigosa.
"Helena", ele disse, sua voz suave, quase terna. "Não tenho notícias suas há dias. Fiquei preocupado. Pensei que você poderia precisar de um mimo. Combinado especial, do jeito que você gosta."
Sua presença parecia um fantasma, um resquício de uma vida passada que não tinha mais poder sobre mim. Eu não o via desde nossa última e brutal ligação. Parecia uma vida inteira atrás.
"Você parece... bem", ele ofereceu, um sorriso hesitante brincando em seus lábios.
Eu apenas o encarei, os lírios parecendo um suborno, o combinado uma tentativa barata de reconciliação. "E você, Bruno", respondi, minha voz monótona. "Você parece exatamente o mesmo."
Ele se encolheu. "Helena, por que você está agindo assim? Eu sei que errei. Eu disse algumas coisas que não queria dizer."
Minha mente voltou às suas palavras: casamento temporário... a Helena vai entender... ela é uma certeza. E então: vou mandar revisar sua credencial de segurança. Ele quis dizer aquilo? Ou foi tudo apenas uma tática conveniente?
Quem te ofende uma vez, te ofende sempre. O velho ditado ecoou na minha cabeça.
"Por que você está aqui, Bruno?", perguntei, indo direto ao ponto. Chega de jogos. Chega de deixá-lo ditar a narrativa.
Ele se mexeu desconfortavelmente. "Eu só... eu queria te ver. Conversar. Você não pode simplesmente fugir da nossa vida, Helena. De mim."
"Nossa vida, Bruno, acabou quando você decidiu que eu era uma certeza que você poderia colocar em uma prateleira enquanto bancava o herói para a Karina", afirmei, minha voz vazia, sem raiva, apenas a verdade fria e dura. "Acabou quando você ameaçou minha carreira para me manipular. Acabou quando percebi que você estava planejando se casar com minha irmã e depois voltar para mim como se nada tivesse acontecido."
Seu rosto empalideceu, o sangue sumindo de suas bochechas. Ele gaguejou: "Eu... eu não sei do que você está falando, Helena. Isso é ridículo. Eu nunca-"
"Não minta, Bruno", interrompi, meu olhar inabalável. "Eu ouvi você. Eu ouvi tudo."
Ele engoliu em seco, seus olhos piscando de pânico. Os lírios começaram a murchar em sua mão. "Helena, por favor. Não foi assim. Era um plano de contingência. Para a Karina. Eu só estava tentando ajudá-la. Você sabe como ela fica desesperada."
"E quanto ao meu desespero, Bruno?", perguntei, uma risada amarga me escapando. "Isso já importou para você? Meus anos de espera, de colocar minha vida em espera, de sacrificar minha própria felicidade pelo drama fabricado da sua irmã, já contaram para alguma coisa?"
Ele tentou se aproximar, mas eu levantei a mão, parando-o. "Não. É tarde demais. Estou de partida. Por três anos. E quando eu voltar, se eu voltar, não serei a mesma Helena que você deixou para trás."
Seus olhos se arregalaram, um horror crescente em seu rosto. "Três anos? Helena, não! Você não pode simplesmente... desaparecer! E nós? E tudo o que tínhamos?"
"E o que tínhamos, Bruno?", perguntei, querendo saber de verdade. "Um homem que se importa mais com a irmã da ex-noiva do que com a noiva? Um homem que ameaça a carreira da parceira pela crise fabricada da irmã? Um homem que acha que pode me colocar em pausa e voltar para mim quando quiser? E quanto a isso, Bruno?"
Ele parecia totalmente perdido, sem palavras. A fachada cuidadosamente construída do Comandante charmoso havia desmoronado, revelando um homem desesperado e arrogante que finalmente percebeu que havia ido longe demais. Ele olhou para mim, realmente olhou para mim pela primeira vez em anos, e viu uma estranha.
"Helena, por favor", ele finalmente conseguiu dizer, sua voz rouca, crua. "Não vá. Eu vou consertar. Eu juro. Vamos nos casar na próxima semana. Sem mais adiamentos. Vou dizer à Karina para lidar com seus próprios problemas. Apenas... não vá embora."
Suas palavras, antes um sonho febril, agora soavam ocas, patéticas. Ele estava me prometendo o que eu sempre quis, mas parecia um prêmio de consolação, um último esforço desesperado nascido do medo, não do amor.
Eu balancei a cabeça lentamente. "É tarde demais, Bruno. Você teve cem chances. Cem. E você desperdiçou cada uma delas. Cansei de esperar você me escolher."
Ele abriu a boca para protestar novamente, mas eu o cortei. "Eu tenho que ir. Meu transporte estará aqui em breve."
Ele ficou ali, os lírios pingando água no chão, a sacola de delivery esquecida em sua mão. Seu rosto era uma máscara de incredulidade. "Você está falando sério?", ele sussurrou, como se só agora compreendesse a enormidade da minha decisão.
"Nunca estive mais séria na minha vida", confirmei, minha voz carregando o peso de anos de emoção reprimida. "Adeus, Bruno."
Fechei a porta suavemente, firmemente, deixando-o parado no corredor, cercado pelos restos de sua tentativa fútil de me reconquistar. O silêncio que se seguiu não era vazio; estava cheio da promessa de um futuro finalmente, verdadeiramente, meu.
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