
As cláusulas do Amor
Capítulo 3
Não sabia como agradecer Alana, ela estava me consolando fazia um tempo. Depois de uma crise de choro no banheiro da faculdade, me vi desabando em seus braços, confessando todas as contas acumuladas e a ameaça da assistente social.
- Ao menos você está mais calma. Viu? O chocolate quente ajuda em tudo...
- Não sei como te agradecer...
- Já estive em dificuldades como você, e alguém me estendeu a mão. Agora é a minha vez de fazer o mesmo.
Seu olhar tinha aquela ternura que me desmontava.
- Assim que eu conseguir outro emprego, vou te devolver o dinheiro que me emprestou para pagar as contas atrasadas.
- Não se preocupe com isso. Pense em se recompor, em se concentrar no que deseja para o futuro. Lute por isso.
- Se eu conseguir pagar todas as contas e cuidar dele já me sentirei realizada. Já não sonho como antes...
- Pois não deve se limitar a isso. - Ela alisou a minha mão sobre a mesa, firme. - Precisa ter ambição, continuar sonhando, agindo.
Engoli em seco.
- Me sinto tão frustrada, tão falida... um fracasso. Se meus pais estivessem aqui... - as palavras se quebraram junto com a dor que me sufocava.
- Sinto muito, querida. Mas não pense no que a vida te tirou. Foque suas forças no que ainda pode conquistar.
- Obrigada, Alana.
Ela sorriu, mas logo o sorriso se apagou. O rosto ficou sério, pensativo, como se estivesse decidindo se deveria ou não revelar algo.
- Sei de um jeito para você se organizar, sair da mira da assistente social.
Meu coração acelerou. Estava disposta a qualquer coisa que me tirasse daquela espiral de desespero.
- Desde que não seja ilegal... - brinquei, tentando aliviar o peso da conversa, mas na verdade implorando para que ela continuasse.
- Não é ilegal. - Ela baixou o tom, os olhos buscando os meus. - Estou confiando em você. Contar isso me custa muito... ninguém sabe do meu segredo.
Assenti e apertei a mão dela em cumplicidade. Ela respirou fundo antes de continuar:
- Trabalho em uma boate. Uma agência de acompanhantes de luxo. Ganhamos muito bem e...
De repente tudo fez sentido. A mudança drástica, o fim da exaustão de quem vivia de dois empregos, o jeito como ela passou a se vestir melhor, a tranquilidade em sua vida.
- Alana... eu... não sei se conseguiria ir para a cama com...
- Não se preocupe. - Interrompeu com segurança. - Você pode escolher. Se aceitar sexo, cobra mais. Mas em teoria, nosso papel é fazer companhia. Conversa na boate, drinks que eram preparados sem álcool para nós, jantares, eventos, festas, até coisas simples como um cinema. Atendemos um público exclusivo, com muito dinheiro. Se não gostar do cliente ou se ele passar dos limites, você é retirada imediatamente. Se ele desrespeitar alguém, perde o acesso para sempre.
- Não sei... - murmurei. Não era uma santa puritana, mas a ideia de me vender parecia humilhante. Embora... a vida que eu levava ultimamente também era.
- Pense. - Ela tirou um cartão da bolsa e colocou sobre a mesa. - É da proprietária. Se decidir, ligue. Marcaremos um encontro para conversarem. Não vai se arrepender. Você sabe como eu vivia no começo da faculdade. Agora tenho uma vida confortável, a faculdade está paga. Estou juntando dinheiro para abrir meu próprio negócio em breve.
- Fico feliz por você, de verdade. - Respondi com sinceridade. - Agradeço sua confiança, sua ajuda, e quanto ao convite, vou pensar.
Ela sorriu e me puxou para um abraço apertado. Era minha única amiga desde que havíamos nos mudado para aquela cidade, na época do tratamento da minha mãe.
A saudade me atingiu como uma maré alta. A dor de não ter mais ninguém para dividir meus pesos era sufocante. Éramos só nós, e agora restávamos apenas em dois.
....
Dias depois...
A febre havia aumentado de forma assustadora. O corpo dele tremia, os olhos turvos se perdiam em delírios que me faziam estremecer. No hospital público, a espera era interminável, sem qualquer previsão de atendimento. Ali, no hospital particular, tudo custava caro demais, mas pelo menos havia um médico o examinando.
- Então...? - perguntei com a voz trêmula, a aflição me corroendo por dentro.
- Ficaram expostos ao frio por muito tempo?
Assenti em silêncio. Mentir não adiantaria de nada.
- E como anda a alimentação dele? - a pergunta veio como uma facada.
Engoli seco.
- Não está sendo como deveria... - admiti, sentindo o olhar julgador pousar sobre mim. - Estamos em dificuldades financeiras, não temos como comprar tudo o que seria ideal.
O médico suspirou, abaixou a cabeça e prosseguiu com o exame, verificando a cor dos olhos, controlando a respiração fraca.
- Também ficou exposto a mofo?
Meu peito ardeu de culpa. Assenti outra vez. Mais uma falha, mais um fardo que eu havia colocado sobre seus ombros frágeis.
- Imaginei. - Murmurou, por fim. - Infelizmente teremos que interná-lo. Está com uma infecção respiratória grave, pneumonia. Se não tratarmos agora, pode se agravar.
O mundo pareceu girar. O desespero me tomou de assalto, tanto pelo estado dele quanto pelas consequências de tudo aquilo. Financeiras, emocionais, sociais. A consulta já custava mais do que eu poderia pagar. A internação e o tratamento seriam um abismo ainda maior.
Olhei para o corpo pequeno tremendo sob o lençol do hospital e a culpa me esmagou. Eu havia falhado. Eu havia permitido que chegássemos àquele ponto.
- Faça tudo o que for preciso. Custe o que custar. - Implorei.
O médico assentiu, e uma mão apertou meu ombro. Gorette estava ali, oferecendo o conforto que eu não conseguia encontrar em mim mesma.
- Pode ficar, eu... - comecei.
- Vá, querida. - Interrompeu com firmeza. - Vai se atrasar no trabalho. Eu cuido de tudo, não se preocupe.
Abracei-a com força, grata por sua existência. Sem ela, eu já teria perdido a guarda dele há muito tempo.
Saí do hospital com passos pesados, caminhando até o carro velho. Olhei para aquela lata enferrujada e pensei em vendê-la, mas sabia a verdade: não valeria nem o suficiente para uma compra de supermercado. Entrei, desabei sobre o volante e deixei que as lágrimas me engolissem de uma vez por todas.
Tudo estava piorando. O tempo que a assistente social havia me dado se encurtava. Se ela soubesse do que estava acontecendo, certamente me arrancaria o que eu mais amava.
Enxuguei o rosto às pressas, girei a chave, mas o carro apenas tossiu e morreu. Golpe final. Como se a vida debochasse de mim.
No mesmo instante, o telefone vibrou. Atendi sem olhar.
- Você está atrasada! Borges não está na empresa e você já aproveitando disso? - a voz arrogante me fez cerrar os olhos. O irmão do meu chefe.
- Meu carro quebrou. Estou saindo do hospital, eu avisei...
- Não me interessam os seus dramas pessoais, garota. Quero você aqui em quinze minutos ou estará demitida! - e desligou sem me dar chance de resposta.
A raiva queimou em minhas veias. Enfiei o celular de volta na bolsa, pronta para correr até o ponto de ônibus. Mas então meus dedos tocaram o cartão que Alana havia me dado. O nome da boate reluzia em vermelho sobre o fundo escuro.
Era isso ou perder tudo. Ela havia prometido que seria uma saída, e talvez fosse a única. Meu coração disparou enquanto discava o número anotado atrás do cartão. O som da chamada ecoou como uma sentença.
Quando a voz do outro lado respondeu, me apresentei. Naquele instante compreendi: não havia mais volta. Faria o que fosse preciso para escapar daquela miséria. Mesmo que isto significasse me tornar uma acompanhante de luxo.
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