
As Cicatrizes Que Ela Escondeu do Mundo
Capítulo 3
O silêncio no carro era mais pesado do que a tempestade lá fora. O único som era o ritmo dos limpadores de para-brisa e o zumbido dos pneus no asfalto molhado.
Afonso alcançou o pequeno console refrigerado entre os assentos. Tirou uma garrafa de água Evian.
Ele a estendeu para ela.
Alvorada encarou a garrafa. Sua garganta parecia forrada com lixa. Ela estava desidratada, tonta. Mas pegar aquilo parecia aceitar suborno.
"Pegue," disse Afonso.
Ela não se moveu.
Ele suspirou, uma expiração aguda pelo nariz. Inclinou-se e empurrou a garrafa na mão dela. As pontas dos dedos dele roçaram as costas da mão dela.
Alvorada se encolheu violentamente. Foi um espasmo de corpo inteiro, como se ele a tivesse queimado com um cigarro. A mão dela tremeu, e a garrafa de vidro pesado escorregou de seu aperto, caindo com um baque no tapete.
Afonso congelou. Ele puxou a mão de volta lentamente, os olhos se estreitando.
"Você tem medo de mim," ele declarou. Não era uma pergunta.
Alvorada correu para pegar a garrafa. Suas mãos tremiam. "Não. Minhas mãos estão apenas... frias. Escorregadias."
Ela quebrou o lacre e tomou um gole. Queria virar tudo de uma vez, mas forçou-se a dar goles pequenos e medidos. Não mostre fome. Não mostre sede. Não mostre necessidade.
Afonso a observava. Ele se lembrava de uma garota que falava pelos cotovelos, que costumava se pendurar no braço dele e implorar por atenção. Essa mulher era um fantasma.
"Eles te soltaram mais cedo," observou Afonso, o tom neutro, sondador. "Qual foi a razão oficial?"
Alvorada apertou a garrafa até os nós dos dedos ficarem brancos. Ela não olhou para ele, o olhar fixo na água balançando lá dentro. Deu um balanço de cabeça minúsculo, quase imperceptível. "Não sei," ela murmurou, as palavras quase inaudíveis.
A palavra pairou no ar. Não era uma mentira, nem uma resposta sarcástica. Era um vazio. Uma ausência de informação que ela se recusava, ou não podia, fornecer.
Afonso notou algo no pulso dela. A manga tinha subido um pouco quando ela bebeu. Havia uma marca ali. Um hematoma roxo escuro que circulava o osso. Uma marca de restrição.
Ele se inclinou ligeiramente para frente. "Deixe-me ver seu braço."
Alvorada puxou a manga para baixo, enterrando a mão no tecido. "A Pluma provavelmente está esperando por você. Você não deveria ser visto com a presidiária. É ruim para o preço das ações."
Afonso sentiu um flash de irritação. Ela estava desviando. E ela estava certa, mas ele odiava que ela estivesse certa.
"Você está muito atenciosa de repente," ele disse, a voz pingando sarcasmo.
Alvorada encostou a cabeça no banco e fechou os olhos. "Estou apenas cansada, Afonso. Deixe isso para lá."
O carro começou a diminuir a velocidade. Eles estavam entrando na Propriedade da Família.
Os portões de ferro - mais ornamentados que os do campo, mas ainda assim portões - se abriram. A casa principal surgiu à frente, um monstro de tijolos e vidro, resplandecendo com luzes. Parecia a boca de uma besta esperando para engoli-la inteira.
O Rolls-Royce deslizou até parar sob o pórtico.
Alvorada abriu os olhos. Através do vidro riscado de chuva, ela os viu.
Sua mãe. Seu pai. Pluma.
Eles estavam parados na varanda, emoldurados pelo brilho quente da entrada. Um retrato de família perfeito.
O motorista abriu a porta de Alvorada. O ar frio correu para dentro.
Alvorada respirou fundo. Hora do show.
Ela jogou as pernas para fora. Assim que seu pé ferido tocou o pavimento, o joelho cedeu. A dor foi cegante. Ela caiu para frente.
Afonso estava lá. Ele havia saído do lado dele e dado a volta mais rápido do que ela esperava. Ele a pegou pelo cotovelo, o aperto firme.
"Eu te peguei," ele murmurou.
Alvorada reagiu por instinto. Ela o empurrou para longe, com força. "Me solta!"
O grito ecoou sob o arco de pedra.
Afonso tropeçou um passo para trás, as mãos levantadas em rendição. Sua expressão escureceu.
Alvorada ficou em uma perna só, tremendo, segurando seu saco plástico. Ela olhou para ele, os olhos arregalados com um tipo de pânico selvagem. Então ela percebeu onde estava. Percebeu quem estava assistindo.
Ela endireitou a coluna.
"Eu consigo andar," ela disse, a voz caindo para um sussurro. "Não preciso da sua ajuda."
Ela se virou e mancou em direção à porta da frente, arrastando o pé inchado. Afonso ficou na chuva, olhando para as costas dela. Ele puxou o celular do bolso.
Digitou uma mensagem para seu chefe de segurança: Consiga o arquivo dela do campo. O verdadeiro. Hoje à noite.
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