
Apostando no amor
Capítulo 2
_Papai, é você? _ eu gritei saindo do banheiro, enrolada na toalha.
Eu tinha acabado de chegar em casa e percebi que ele não estava. Imaginei que conseguiria tomar um banho rápido primeiro antes de descer e fazer o jantar, antes que ele chegasse.
_Sou, eu querida. _ ele respondeu do andar de baixo.
Satisfeita, eu comecei a me secar, sentindo todo o meu corpo dolorido de tanto andar de um lado para o outro servindo mesas. Mas eu teria de suportar mais um pouco, pois ainda teria de voltar para meu segundo turno.
Hoje estava sendo um dia muito puxado no bar e faltavam funcionários. Eu não poderia deixar o Owen na mão. Então decidi passar em casa e me refrescar antes de recomeçar tudo novamente.
Peguei uma calça jeans surrada dentro do guarda roupas e uma blusinha curta.
Eu não gosto de trabalhar dessa maneira, mas ajuda a ganhar mais gorjetas e é disso que eu mais preciso no momento.
O trabalho noturno no bar, junto as aulas de dança que dou pelas manhãs, três dias por semana, ajudam a manter as contas em dia.
Principalmente as contas que ainda tinham com o hospital onde sua mãe ficara internada até seu último suspiro, um ano atrás.
Amarrei meu cabelo em um rabo de cavalo bem apertado, para que não ficasse caindo sobre meus olhos o tempo todo, e calcei novamente meu velho par de All star.
Desci correndo as escadas, indo direto para a cozinha e abri a geladeira para ver o que podia fazer para meu pai comer.
Havia uma salada de batatas que já não tinha uma aparência tão fresca assim, e toda a carne que tínhamos estava congelada.
Suspirei, resignada.
Eu não tinha tempo para preparar nada a não ser um sanduíche.
Isso teria que servir.
Foi então que notei o copo sobre a pia.
Eu não tinha deixado nenhuma vasilha suja quando saí para o trabalho mais cedo!
Fechei a geladeira novamente e peguei o copo, cheirando o líquido âmbar em seu interior.
Uísque!
_Papai! _ eu gritei, irritada e saí da cozinha a sua procura.
Meu pai estava deitado no sofá, de frente para a tv, apertando o botão do controle pulando os canais, sem escolher nenhum.
Eu achei aquilo muito estranho.
_Você está bem? _ perguntei, me abaixando a sua frente e acabei tombando na garrafa de uísque que ele deixou no chão próximo ao sofá.
Fiz uma careta.
Fazia muito tempo que não o via bebendo daquela maneira.
Ele tinha dispensado o copo e resolveu que beber diretamente da garrafa era melhor.
_ Eu acho que estraguei tudo, meu anjo. _ ele disse, suas palavras saindo um pouco emboladas demais para que eu compreendesse.
_Sobre o que está falando? _ eu perguntei.
Seja o que for que o estava incomodando, era sério! Pensei. A última vez que meu pai havia bebido tanto, foi no momento em que ligaram do hospital avisando que mamãe tinha morrido.
_Eu apostei o que não devia... _ ele tentou dizer, mas estava bêbado demais para se manter acordado e eu estava muito atrasada para tentar decifrar o que ele estava dizendo.
_Vamos conversar pela manhã e você me explica o que aconteceu, ok! _ Eu disse, ajeitando a almofada sob sua cabeça.
Peguei a colcha que mantínhamos sempre em um cantinho do sofá, para o caso de um de nós adormecer por ali mesmo, e joguei sobre ele após tirar seus sapatos.
Então peguei as chaves da minha moto, minha jaqueta e capacete, e saí rapidamente de casa.
Eu não gostava da ideia de deixá-lo sozinho naquele estado, mas eu não tinha escolha.
Owen precisava de mim no bar e ele estava sempre me ajudando.
Era minha vez de retribuir o favor.
_Mad, os rapazes da mesa quatro estão esperando suas cervejas! _ Owen gritou para mim do outro lado do balcão e eu revirei os olhos.
Já havia pedido diversas vezes para não me chamar pelo nome dentro do bar, mas ele sempre se esquecia.
_Já estou indo! _ gritei de volta e coloquei as cervejas sobre minha bandeja, andando o mais rápido que podia, tomando o cuidado de não as deixar cair.
Qualquer bebida desperdiçada sairia do meu bolso e eu precisava sair com eles cheios naquela noite e não o contrário!
_Ei gatinha, eu já estava ficando com sede... _ um dos rapazes falou comigo, olhando diretamente para o meu decote e não para a garrafa que eu colocava a sua frente.
_Desculpem a demora. _ pedi educadamente.
O bar estava lotado e estávamos dando o nosso melhor para atender todo mundo.
Já estava terminando de colocar a última cerveja na mesa quando senti a mão dele em meu traseiro.
_Há uma ótima maneira de se redimir... _ ele disse, me deixando enojada.
Observei o cara bem atentamente, para não esquecer seu rosto, assim eu poderia evitar atendê-lo novamente.
Cabelos ralos, barba por fazer e uma cicatriz que deixava seus lábios com uma aparência meio sinistra...
_ E eu conheço uma ótima maneira de você sair essa noite com todos os dedos no lugar. _ eu disse com um sorriso forçado enquanto erguia meu conjunto de abridor e canivetes. Um pequeno presente que Owen tinha me dado algum tempo atrás.
Os outros caras na mesa zombaram dele enquanto ele retirava a mão de cima de mim a contragosto e eu pude guardar meu canivete de volta no bolo da frente do meu jeans.
Me afastei com minha bandeja vazia de volta para o bar e suspirei cansada, enquanto dava a volta para dentro do balcão.
_Essa noite está uma bagunça! _ Owen disse parando ao meu lado enquanto eu lavava alguns copos.
_ Eu que o diga! _resmunguei. _ Não vou atender “mão boba” ali da frente. _ eu avisei apontando com o queixo para a mesa quatro e Owen seguiu o meu olhar.
_Você mostrou o canivete para ele? _ ele perguntou, recostando o quadril no balcão enquanto me encarava.
Dei aquela olhada de “o que você acha!” para ele e Owen riu, divertido.
_Essa é a minha garota! _ ele disse me dando um beijo na testa antes de se afastar novamente.
Isso era outra coisa que ele fazia muito ultimamente, e que não me agradava.
Fazia parecer… íntimo demais e ele sabia o que eu pensava a respeito de me envolver com alguém do trabalho.
Eu deixei isso acontecer uma vez...
E não cometeria o mesmo erro novamente!
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