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Capa do romance Apostando em Você

Apostando em Você

Gregory Blackwell vive de forma libertina, entregue aos prazeres e excessos, até que os planos de seu pai interrompem sua rotina. Com os bens confiscados, ele fica sob a tutela de Eloise, uma mulher firme que tem apenas um mês para regenerá-lo. Para vencer esse desafio, ela deve monitorá-lo constantemente, mergulhando em seu mundo caótico. Em meio a essa aposta arriscada, Eloise tenta transformá-lo, sem saber se terá sucesso ou se acabará se perdendo.
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Capítulo 3

Eloise

A animação e a felicidade de alguém poderia morrer tão depressa? Pois a minha foi morrendo em segundos, naquele exato momento.

O convite para tomar um café naquela tarde, feito por Charlie, soou com uma pitadinha de esperança — estaríamos nos aproximando? — e poderia ter se tornado algo melhor, se fosse do jeito que eu estava imaginando que seria. Mas nada, nadinha, seguia o roteiro que minha mente havia planejado, uma ilusão satisfatória, digna de Shakespeare.

E até pensei em um nome para a peça: O Coração Dilacerado de Eloise.

Charlie era meu melhor amigo na faculdade, e acabamos por nos distanciar um pouco depois da formatura, mas ainda trocamos raras ligações e mensagens. A pior parte de tudo isso é que minha paixonite por ele não havia passado, mesmo com a distância entre nós. Eu ainda tinha aquelas sensações de borboletas no estômago toda vez que o olhava.

Na tentativa de disfarçar minhas frustrações, peguei a xícara com meu café, que já estava meio frio, havia perdido muito tempo divagando com meus pensamentos. Levei ela até a boca, grudando meus lábios na parte lisinha, antes de tomar o primeiro gole.

Café frio é muito ruim.

— E então você está interessada? — Charlie indagou e se inclinou para frente. — Eu sei que parece algo complicado, mas não será de todo. E sei também que está precisando de um trabalho.

De fato. Eu estava há um longo tempo procurando um trabalho. Isso era tão nítido que alguém poderia me parar na rua e ver uma placa luminosa na testa "Procura-se emprego".

Quando saí de Phoenix e decidi me mudar para Seattle, pensei que poderia ser mais fácil uma vida aqui. Mas de qualquer forma, eu tinha um lugar para voltar, caso nada desse certo, só que continuaria insistindo nisso.

Nada estava indo como havia sido planejado. Mesmo após conseguir o diploma, nada mudou, e sempre tive a ideia que com ele tudo seria mais fácil, mas não foi. E se tivesse tudo corrido bem, já estaria ajudando a minha família e viveria bem aqui.

Eu pressionei os lábios, assim que afastei a xícara, e a coloquei de volta sobre a mesa. Uma das minhas mãos deslizaram para debaixo da mesa, e eu usei o polegar esfregando no tecido do jeans azul. Isso me ajudou a pensar um pouco.

Respirei fundo quando percebi que Charlie me encarava, Ele pareceu me analisar por alguns segundos, talvez tentando captar algo e saber o que eu estava pensando, e também esperando por uma resposta. Isso durou pouco tempo, pois ele prosseguiu tentando me convencer da ideia maluca que me propôs mais cedo.

— Será apenas por um mês, isso só se resume a... — Charlie continuava explicando.

— Impedir que ele se meta em encrencas e verificar tudo que ele fizer, e relatar isso a seu pai. — Completei com um aceno de mão.

De todos os trabalhos do mundo que poderiam me oferecer naquele momento, aquele me soou mais estranho. Se tornar quase uma babá de um homem, e ainda mantê-lo longe de fazer alguma merda, parecia loucura, na verdade, era uma loucura.

E ainda se tratando do homem em questão, a coisa ficava mais difícil. Gregory Blackwell, irmão do meio de Charlie.

— Isso. — Ele sorriu e esticou sua mão pela mesa. — Você é a única pessoa que eu tenho certeza que poderia cumprir essa tarefa facilmente.

E lá vamos nós de novo. Talvez Charlie tivesse total consciência do que o sorriso dele era capaz de fazer comigo, inclusive me fazer render aquela loucura. O que me leva a crer que ele só poderia ter feito de propósito. E parecia mesmo levar a sério aquela coisa toda.

O homem à minha frente, mantinha um sorriso no rosto, o que o tornava ainda mais sexy. Ele havia deixado sua barba crescer um pouco. Seu cabelo castanho e seus olhos da mesma cor parecia brilhar, juntamente com os raios que atravessavam a vidraça do café, ali no centro. E para completar todo o pacote, trajava um paletó de tweed.

Pisquei algumas vezes, tinha medo de deixar transparecer alguma expressão idiota, enquanto o admirava. E meu coração batia tão rápido na caixa torácica, que precisei respirar fundo e contar até dez mentalmente, antes de falar qualquer coisa.

Embora tudo que ele estivesse fazendo e o seu esforço me puxasse para o renda-se, por incrível que possa parecer, ainda tinha um resquício de sanidade e racionalidade.

— Eu preciso pensar. — Suspirei e olhei para baixo. — Eu realmente não esperava por isso.

— Eu entendo, meu irmão não é alguém bem... como posso dizer — Ele tamborilou o dedo indicador sobre a mesa e depois apontou — Fácil de lidar.

Gregory Blackwell, eu lembrava muito bem dele. Nos formamos na mesma universidade, cursando o mesmo curso e me admirava que ele tivesse levado adiante, até conseguir se formar. Mas nunca fomos próximos.

Charlie e ele são totalmente opostos, em tudo. No estilo, jeito de falar e sobretudo, o comportamento. Não havia pensado nele até agora, depois de um bom tempo.

Mas levando em consideração a forma que ele falava sobre o irmão, talvez houvesse piorado e muito com o tempo. Não sabia muito sobre Gregory, mas tinha ideia o suficiente para entender que eles não se davam bem, e isso ainda durante a faculdade, sempre se desentendendo.

— Mas, se mudar de ideia, não hesite em me ligar. — Charlie disse levantando da cadeira — Isso pode ser ótimo, se pensar bem. Eu confio muito em você.

Eu assenti e ele continuou. — Preciso ir, prometi a Charlotte que chegaria no horário, para participar da escolha da lista de convidados.

E foi aí que tudo pareceu um castelo de cartas que com um pequeno sopro, foi derrubado. Se o meu coração fosse um pedaço de papel, ele estaria bem picotado, e depois estaria queimando nas chamas da desesperança.

Se eu pudesse voltar no tempo, assim teria feito. Não teria errado o caminho e nem subiria aquelas escadas, e não teria esbarrado nele. Mas não posso voltar no tempo, e nem mesmo posso mudar o que eu sinto por dentro. Infelizmente.

— Até mais!

***

Assim que atravessei a porta do apartamento, dei uma olhada por cima do ombro antes de fechá-la. Pude ver a minha amiga largada no sofá, com vários papéis em mãos. E eu arriscaria dizer que seria todas as costas desse mês e poucas do anterior que estavam atrasadas.

Não podia me abster da culpa. Como eu não conseguia trabalho, tentava ajudar no mantimento do apartamento com um pouco de dinheiro que havia conseguido juntar trabalhando como secretária em um escritório. E ainda precisava dividir esse dinheiro em partes para que eu conseguisse ajudar meus pais também.

Eles estavam passando por um grande aperto. Meu pai trabalhava em sua loja de tecidos, e o que lucrava mal dava para cobrir algumas das despesas e minha mãe não podia trabalhar, tinha meus dois irmãos menores para tomar conta.

O dinheiro que restava em minha conta, tinha seus dias contados para acabar, e não iria dar para cobrir os dois feitos. Além do mais, não iria viver nas costas da minha amiga.

— Aqueles idiotas! — Ela falou retorcendo os lábios. — Daqui a pouco vão cobrar taxas para a gente andar pelos corredores. Isso é um absurdo.

Meu coração se remexeu por dentro, em ver toda aquela situação, e ainda em pensar que tudo poderia piorar. Precisava encontrar uma solução para aquilo rápido.

— Elô, sua mãe ligou. — Ela se voltou em minha direção e depois apontou para o telefone. — Como foi o café com o príncipe encantado?

— O "príncipe encantado" — Falei fazendo aspas no ar — Está noivo, e vai casar no próximo mês.

— Eu me esqueci dessa parte... — Ela fez uma pausa e bateu no sofá para que eu me sentasse. — O que vai ser de nós? — Stacie falou jogando os papéis sobre a pequena mesinha à nossa frente.

— Ele só me chamou lá para fazer uma proposta. — Estiquei minhas pernas sobre a mesinha. — No começo achei que estava brincando com minha cara.

Stacie se inclinou para frente e uma de suas sobrancelhas se ergueu. Então me pus a contar toda a conversa que tive com Charlie, e ela escutou tudo atenta, e até arregalou os olhos algumas vezes e levava a mão para tapar a boca.

— Está falando sério?

Assenti.

— E você vai aceitar? — Ela indagou. — Não parece tão ruim assim.

E poderia haver outra chance? Outra oportunidade?

Eu sabia que não haveria nada que chegasse tão rápido. E todas aquelas contas não iriam esperar.

Eu precisava aceitar.

Deslizei a ponta de meus dedos pelos cabelos, e os levei para trás. Meu olhar caiu novamente sobre a grande pilha de boletos acumulados, e respirei fundo.

É apenas um mês, Eloise.

Você pode fazer isso.

De toda forma, o que pode acontecer em um mês?

— Vou ligar para o Charlie. — Me levantei do sofá. — Eu vou aceitar.

***

Não se passava das quatro da tarde, quando liguei para Charlie. Avisei que eu tinha uma resposta positiva para a sua proposta e ele pareceu feliz com a minha decisão. E por que não ficaria?

Ele chegou rápido em meu apartamento, ficara combinado que ele me levaria até seu pai, o grande cabeça dessa ideia maluca, e também para que pudesse me explicar um pouco mais sobre tudo que eu precisaria fazer e como aquilo poderia, de alguma forma, dar certo.

Eu não conseguia parar de pensar em como tudo aquilo parecia uma espécie de brincadeira, e que a qualquer momento, alguém iria tocar em meu ombro e gritar, que eu estava em uma pegadinha.

Balancei as pernas e às vezes batia com a ponta do sapato no chão firme, e olhei ao redor. O lugar parecia um tanto frio, embora lá fora estivesse bem quente.

Arrumei a minha postura na cadeira, assim que ouvi a porta se abrir atrás de mim. Um senhor passou por mim, e em poucos segundos se sentava atrás da mesa que tinha à minha frente. Ele me lembrava um pouco o Charlie, mesmo com os cabelos grisalhos e uma expressão mais séria, ainda lembrava.

— Você é a senhorita, Eloise Becker. — Ele esticou sua mão para tocar a minha e sorriu.

Ele pareceu um pouco gracioso, mesmo com a tentativa falha de sorrir. Seus olhos eram de um verde colonial, e também notei algumas feições das quais Charlie havia puxado.

— Tenho certeza que o Charlie lhe explicou tudo. — Ele falou e eu balancei a cabeça em positivo. — Bem, o que posso dizer? Esse é meu último recurso, para tentar ajudar meu filho e lhe ensinar uma lição ou pelo menos tentar. Atitude claramente desesperada.

— Eu entendo. — Minha voz saiu arrastada.

— Enfim, para prosseguir, tenho uma proposta de pagamento pelo trabalho que será feito — Ele abriu uma gaveta conectada a sua mesa, e tirou de lá um papel e uma caneta. — Me diga se essa quantia está boa para você. — O mesmo rabiscou algo no papel e lançou em minha direção.

Coloquei minha mão sobre o papel e depois puxei. Eu hesitei um pouco antes de olhar o que havia escrito, mas quando meus olhos caíram na porção de zeros, minha mão começou a tremer e até pisquei algumas vezes para saber se estava enxergando certo. Engoli em seco, enquanto tentava assimilar a quantia que estava descrita ali.

Aquilo era mais do que eu ganharia em um ano, com o meu trabalho de secretária. Ou talvez até mais, não consegui fazer as contas direito.

— Se não for de seu agrado, eu posso aumentar a quantia facilmente. – Sua voz era dura, mas ele tentava passar calma.

— Não! — Soltei, mas havia saído um tanto alto, o que me fez levar a mão à boca. Respirei fundo antes de continuar, e dessa vez tive o cuidado de baixar um pouco a voz — Isso está ótimo.

Ele assentiu e voltou sua atenção para a gaveta, em busca de pegar algo dali — Então temos um acordo? — Ele perguntou e eu confirmei depressa — Ao final do mês deve me relatar tudo o que foi ocorrido, e depois disso seu trabalho estará concluído. Confiarei no seu julgamento.

Ele puxou o que devia ser um contrato e o passou o mesmo em minha direção e logo me entregou uma das canetas postas sobre a mesa.

Li tudo o que estava escrito ali. O tempo, quantia em dinheiro e o que ficaria em minhas mãos, em meus cuidados, tudo estava correto ali, e eu só precisava assinar.

Segurei a caneta que a mim foi oferecida, e segurei um pouco contra o papel, demorou um pouco, mas eu assinei meu nome na última linha. Então devolvi o papel.

— Para continuar, você ficará responsável pelos cartões de créditos e as chaves do carro e da moto que estiverem em posse do Gregory. — Ele começou e colocou os itens em cima da mesa, e depois deslizou eles em minha direção. — Tais não devem ser entregues a ele, você usará quando for necessário, para alguns gastos.

— Sim, senhor — As minhas palavras saíram no automático.

— Eu estou confiando em você, senhorita Becker — Sua fala me deixou apreensiva. — Já que meu filho Charlie também tem toda confiança em você.

Ele estendeu sua mão em minha direção, para um novo cumprimento — E mais uma coisa, fico feliz em ter aceitado.

Apertei sua mão, e não evitei o sorriso que veio instantaneamente. Mas aquilo não queria dizer que eu estava feliz.

Um mês, um mês. É apenas isso, Eloise. Relaxa.

Tentei me apegar à ideia de que os dias passariam rápido. Eu seria capaz de lidar com ele, e também mantê-lo longe de encrenca.

Esse mês passaria em um piscar de olhos. E para melhorar, eu quitaria as contas do apartamento, enviaria uma quantia um pouco maior para meus pais, e ainda teria o bastante para fazer o que eu quisesse. Dessa vez nada daria errado, não dessa vez.

Nada daria errado para Eloise Becker.

Gregory Blackwell, não pode ser tão ruim assim!

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