
Após o divórcio, ela revelou ser bilionária
Capítulo 2
As portas automáticas do prédio de apartamentos de vidro obsidiana se abriram, e Aurora saiu para o ar cortante de outubro. O porteiro, um homem chamado Henry que sempre a olhava com uma mistura de pena e desdém, moveu-se para assobiar por um táxi.
— Não precisa, Henry — disse Aurora, sua voz cortando o barulho do trânsito matinal. Ela não parou de andar. Agarrou a alça de sua mala de couro surrada e virou à direita, afastando-se da fila de carros pretos que esperavam.
Henry congelou, com a mão meio levantada. Ele a observou partir, confuso. A Sra. Thorne nunca andava a pé.
Aurora movia-se com um propósito. A cidade estava acordando. O cheiro de escapamento, nozes torradas e concreto úmido encheu seus pulmões. Era áspero, sujo e real. Era melhor que o ar higienizado e com cheiro de lavanda da cobertura.
Ela precisava clarear a cabeça. A adrenalina do confronto com Sterling estava desaparecendo, deixando para trás uma clareza fria. Ela não tinha casa. Não tinha emprego. Tinha dezenove dólares no bolso e um laptop que estava três anos obsoleto.
Mas ela tinha sua mente. E tinha um mapa do futuro gravado em suas sinapses.
Ela virou em uma rua lateral, pegando um atalho em direção à estação de metrô. Os prédios aqui eram mais antigos, as sombras mais longas. Esta era a divisa entre o distrito dos ultra-ricos e o resto do mundo.
Um grito estilhaçou o silêncio da manhã.
Foi agudo, aterrorizado e interrompido abruptamente.
Aurora parou. Seu corpo reagiu antes de seu cérebro. Seu peso se deslocou para a ponta dos pés. Em sua vida passada — antes de Sterling, antes da fachada de esposa-troféu — ela aprendera a sobreviver em lugares muito piores do que este. E na vida que vivera antes de sua morte, ela aprendera habilidades que não pertenciam a uma sala de reuniões.
Ela olhou em direção à entrada de um beco estreito a cerca de seis metros à frente. Sombras dançavam contra a parede de tijolos.
Ela não deveria se envolver. Era uma mulher sozinha com uma mala. Deveria continuar andando.
Mas o grito ecoou em sua memória, sobrepondo-se aos seus próprios gritos silenciosos na cama do hospital.
Aurora largou a alça de sua mala. Ela se moveu em direção ao beco, seus passos silenciosos no pavimento.
Nas profundezas das sombras, três homens haviam encurralado uma jovem. Ela parecia uma estudante universitária — mochila, moletom oversized, o terror estampado em seus olhos. Um homem a mantinha presa contra uma caçamba de lixo. Os outros dois riam, um deles abrindo e fechando um canivete automático. Clic. Clic. Clic.
Do outro lado da rua, estacionado na penumbra sob um andaime, estava um elegante Maybach preto. Suas janelas eram tão escuras que pareciam vazios.
Dentro do carro, Elias Thorne sentava-se no banco de trás, com um tablet apoiado no joelho. A tela exibia um complexo relatório financeiro sobre as flutuações do mercado asiático. Seu rosto era uma máscara de indiferença, os ângulos agudos de sua mandíbula iluminados pela luz azul da tela.
— Senhor — disse seu motorista, um homem estoico chamado Graves, com a voz tensa. — Há uma situação no beco. Devo ligar para o 911?
Elias não levantou o olhar imediatamente. — Se desejar. — Sua voz era um barítono baixo, suave e frio como pedra polida. Ele já vira violência suficiente no mundo dos negócios para ser insensível ao tipo físico.
Mas então, um movimento capturou sua visão periférica.
Uma mulher.
Ela entrou no enquadramento da entrada do beco. Era esguia, vestida com um casaco simples que parecia fino demais para o clima. Não parecia uma heroína. Parecia uma vítima em potencial.
Elias abaixou o tablet. Ele observou.
Aurora não gritou. Não anunciou sua presença. Pegou uma garrafa de vidro do chão.
E a atirou.
A garrafa se espatifou contra a parede a centímetros da cabeça do homem com a faca. Cacos de vidro choveram. Os homens se viraram, assustados.
— Caiam fora — disse Aurora. Seu tom era de conversa, até mesmo entediado.
O homem com a faca riu. Foi um som feio e úmido. — Olhem só, rapazes. Uma voluntária.
Ele avançou sobre ela.
No carro, Graves ofegou. — Oh, meu Deus, ela vai ser morta.
Elias inclinou-se para a frente, seus olhos se estreitando.
O bandido investiu com a faca em direção ao estômago de Aurora.
Aurora não recuou. Ela avançou para o espaço. Seu movimento foi um borrão. Ela não tentou dominá-lo; não tinha mais força para isso. Em vez disso, usou a física. Sua mão esquerda disparou, agarrando o pulso do homem, guiando o próprio impulso dele para passar por ela.
Houve um estalo nauseante.
O homem gritou, largando a faca.
Aurora não parou. Usou o impulso dele, girando-o e batendo seu rosto contra a parede de tijolos. Ele desabou como um saco de papel molhado.
O segundo homem rugiu e atacou. Aurora se esquivou por baixo de seu golpe selvagem. Ela surgiu por dentro da guarda dele, cravando o cotovelo em seu plexo solar. Não foi um golpe de nocaute, mas foi preciso o suficiente para lhe roubar o fôlego. Enquanto ele se curvava, ela desferiu um chute forte na lateral de seu joelho.
Ele caiu uivando.
O terceiro homem, aquele que segurava a garota, a soltou e recuou, com os olhos arregalados de incredulidade. Ele olhou para seus dois companheiros caídos, depois para a mulher esguia parada calmamente em meio à carnificina.
— Sugiro que você corra — disse Aurora. Ela ajeitou o casaco, alisando uma ruga na manga.
O terceiro homem se virou e disparou pelo beco.
A estudante universitária deslizou para o chão, soluçando.
No Maybach, o silêncio reinou.
A boca de Graves estava ligeiramente aberta. — O senhor viu aquilo? Foi... eficiente. Quem é ela?
Elias encarou a mulher. Ele repassou a luta em sua mente. Eficiência. Nenhum movimento desperdiçado. Ela lutava como alguém que sabia exatamente onde o corpo humano era fraco, compensando sua falta de massa com uma precisão aterrorizante.
— Senhor, a polícia está chegando — observou Graves enquanto sirenes soavam à distância. — Nós intervimos?
Elias observou enquanto uma viatura da polícia parava junto ao meio-fio, bloqueando a entrada do beco. Dois policiais saíram, com as armas em punho.
— Não — disse Elias, sua voz desprovida de emoção. — Somos meras testemunhas. Espere aqui até que os policiais peguem nosso depoimento. Não interaja com ela.
Ele observou Aurora Vance se ajoelhar ao lado da garota que chorava. Ele a viu checar as pupilas da garota, com as mãos firmes. Ela ergueu o olhar, seus olhos varrendo a rua até se fixarem nas janelas escuras e fumê de seu carro.
Ela não podia vê-lo, mas ele sentiu que ela sabia que ele estava ali.
Elias sentiu um estranho arrepio frio na base de seu crânio. Curiosidade. Uma coisa perigosa.
— Graves — disse Elias em voz baixa.
— Senhor?
— Depois que a polícia nos liberar, descubra quem ela é.
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