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Capa do romance Apartamento 79, Vermelho

Apartamento 79, Vermelho

Gabriele retorna para conduzir o público através da segunda parte de Apartamento 79, Vermelho. Para compreender os segredos sombrios que cercam Wanda, é essencial ter acompanhado a temporada anterior. Esta obra é restrita a iniciados, e violar essa norma trará sérias consequências ao leitor. Prepare-se para mergulhar neste universo perigoso, mas lembre-se: assine o contrato antes de prosseguir. Tudo o que você viu até agora foi apenas o prefácio do horror.
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Capítulo 3

Ep.3

Quando chegamos ao andar, a porta se abriu e ouvi a vizinha do meu lado saindo com seu filho. Wanda saiu e eu depois, e a vizinha tomou o elevador. Fui direto para minha porta e Wanda ficou parada ali manuseando seu celular. Fiquei procurando as chaves na minha bolsa, nervosa. E, quando já entrava, pela primeira vez além de um bom dia, ela me fez uma pergunta antes que eu fechasse a porta:

– Tem carregador de celular?

– O-o quê? – perguntei, gaguejei e me senti uma idiota.

– Carregador de celular – disse Wanda me mostrando seu aparelho na mão.

– Sim, claro – deixei a porta aberta e entrei. Não a convidei para entrar, coloquei minhas coisas na mesa, e, quando percebi, ela já estava dentro do meu apartamento. Tomei um pequeno susto.

– Está tudo bem? – perguntou ela, fechando a porta. – Desculpe se já fui entrando.

– Não tem problema. Eu que não fui educada, deveria tê-la convidado a entrar. Afinal fomos vizinhas por alguns anos.

– Verdade – disse ela com um leve sorriso.

Fiquei olhando para ela completamente desconcertada, e por um instante esqueci o que ia fazer. Wanda usava as mesmas roupas pretas, a mesma elegância. Uma calça social e um terninho. O cabelo louro estava amarrado e ela usava um óculos de armação preto.

– Então?

– Ah, sim, carregador. Um momento eu vou pegar. Eu já tive um celular desse modelo, então... já vou buscar. Fique à vontade – disse e fui para o meu quarto.

Respirei fundo quando cheguei, só pensava em me acalmar. Afinal, por que tanto nervosismo? Só transei no apartamento dela com alguém que disseram que pertencia a ela. Isso é muito louco. Peguei o carregador no fundo de uma gaveta e saí do quarto. Ela estava de pé apreciando ou depreciando meu apartamento. Afinal, aquilo não tinha nada a ver com o dela.

– Está aqui – entreguei a ela.

– Obrigada. Posso carregá-lo um pouco?

– Sim... claro – não pensei que ela fosse ficar. Ela poderia até ficar com o carregador de presente, eu não precisava mais dele. E ela achou a tomada antes mesmo que eu dissesse o local.

– Odeio quando pegam minhas coisas sem minha permissão. Isso me deixa muito furiosa – disse Wanda, me encarando, seu leve sorriso tinha desaparecido. Foi estranho.

Por um momento não parecia que ela falava do carregador. Desviei o olhar, e disse:

– É, também odeio isso.

Ficou um estranho silêncio no ar, constrangedor, se fôssemos esperar até o celular carregar, era melhor que eu tivesse algum assunto. E então perguntei:

– Está vendendo o apartamento?

– Não, eu nunca o venderia, adoro ele. Vou ficar por alguns meses a trabalho. Então vai me ver com mais frequência, de novo, por aqui – disse Wanda.

– Que bom – disse, mas não fui sincera.

– Podemos conversar mais e até ser boas amigas, deveria ter dado mais atenção a você – disse Wanda. – Gabriele, não é?

– Ah, sim, Wanda – disse, confirmando que também me lembrava do nome dela – Por que dar mais atenção a mim? – perguntei, estranhei o que ela disse.

– É sempre bom conhecer um pouco nossos vizinhos. Nessas horas podemos precisar de... um carregador de celular emprestado ou qualquer outra coisa. Como agora – disse ela com um sorriso.

Verdade – respondi, e sorri meio que sem graça.

E mais um silêncio constrangedor, ela não parecia se incomodar com isso. Ela estava na minha casa como se estivesse na dela, e, eu, como se fosse uma intrusa, desconcertada no meu próprio apartamento.

– Achei que tinha se mudado? – então perguntei

– Nunca me mudei, eu uso o apartamento muito para o trabalho, quando estou na cidade e isso acontece com muita frequência. Estive fora só por alguns meses, mas agora estou bem aqui. Aluguei o apartamento para uma pessoa de confiança. Ele precisava de um espaço, um momento, e eu concordei. Acho que você o conheceu?

– Sim, claro, o vi algumas vezes. Muito discreto – respondi sem encará-la.

– Sim, ele é. Leon é um belo rapaz. O que achou dele? – perguntou e me encarou de forma estranha mais uma vez, como se quisesse chegar a algum lugar.

– Ele... era muito atraente – respondi.

– Sim, ele tem um jeito enigmático de atrair as mulheres. Deve ter percebido isso.

– Não dei muita atenção – menti. – Como eu disse, ele era muito discreto. Se quiser pode levar o carregador, eu não o uso – mudei de assunto, desconversei, era melhor.

– Não será necessário, só precisava de uma carga. Muito obrigado por sua gentileza – disse Wanda tirou o celular do carregador e abriu minha porta.

– Foi um prazer ajudar – disse.

– Eu tenho certeza que foi – respondeu e saiu. Tão elegante quanto entrou.

Fechei a porta assim que ela saiu e fiquei olhando pelo olho mágico. Pegou a chave na bolsa, abriu a porta e entrou. E a única coisa que eu pensava era: se ela sabia sobre mim e Leon? Aquela conversa foi muito estranha. Nunca conversamos, e, de repente, isso. “Empresta o carregador”. Olhei pelo olho mágico novamente e depois mandei uma mensagem para Nancy.

– É o que dá ficar com alguém que já pertence a outra pessoa – disse Nancy.

– Não foi culpa minha.

– Se eu fosse você eu me mudaria. Vai que ela é alguma louca. Uma serial killer. Já até sei como seria nos jornais: “A dama de preto volta a atacar”.

– Credo! Não exagera! – disse, sentindo um ligeiro arrepio.

– É melhor seu estagiário aparecer por aí com mais frequência. Só pra mostrar que você não está sozinha.

Aquilo era uma boa ideia.

Fui até o olho mágico por mais de uma vez. Tranquei bem a porta. Jantei, tomei um banho e relaxei um pouco. Mandei uma mensagem para Renan, perguntei como ele estava depois de hoje no trabalho. Quase que pedi que viesse dormir comigo.

– Está tudo bem? – perguntou ele.

– Sim, claro – não quis entrar em detalhes, não queria ter que explicar e não saberia como chegar a Wanda. Pois para falar nela eu teria que falar sobre Leon e eu não queria falar de ninguém.

A noite chegou e eu adormeci ali no sofá segurando o celular. A TV ligada ouvindo qualquer som que surgia em minha cabeça, como um eco distante. Barulho de carros, buzinas e freadas bruscas. Barulho de chave e de porta abrindo. Minha porta rangia de forma assustadora e um vulto negro surgia por ela. Era alta, muito alta, uma sombra gigantesca crescendo à minha frente. Tão perto e sufocante que me faltou ar. Algo brilhava em sua mão e me arrepiou quando encostou em meu pescoço, era gelada e afiada. Acordei com um grande susto levando a mão ao pescoço, na mesma hora em que o alarme do meu celular tocava, estava suada e resfolegando, era manhã e eu tive um pesadelo horrível com a Wanda.

Dormi no sofá enrolada no meu roupão. Acordei atrasada e fui até o espelho dar uma olhada no meu pescoço. É claro que tinha sido um sonho. Nancy só me assustou. Tomei um banho, me arrumei, e tomei meu café. Antes de sair, dei uma olhada rápida pelo olho mágico, não queria encontrar Wanda pelo caminho. Mas não adiantou nada, enquanto esperava o elevador ouvi chaves e a porta do apartamento 79 se abrindo. Wanda surgiu pela porta, aquilo era mais que uma coincidência, ela estava me rodeando. Ela parou do meu lado com sua mão na cintura, e disse:

– Bom dia.

– Bom dia – respondi, e entramos juntas no elevador.

Ela não disse mais nada e ficou parada na minha frente, como no dia anterior. Depois ela saiu, ela foi para o carro dela e eu para o meu.

Acho que esses encontros vão ser mais frequentes do que eu esperava.

Continua...

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