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Capa do romance Apaixonada por um coreano

Apaixonada por um coreano

Julia mergulha em uma busca intensa por sua identidade após enfrentar perdas terríveis. Em meio ao fortalecimento de seus vínculos familiares, ela cruza o caminho do misterioso cantor Young-Chul. O romance entre eles transborda sensualidade, mas exige superar complexas barreiras culturais. Entre segredos e descobertas, o casal precisa provar se o amor é resiliente o suficiente para vencer as provações. Uma trama envolvente de paixão e mistério sobre o autodescobrimento.
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Capítulo 3

— Sem problema, senhorita Kang. A que horas podemos tomar o desjejum e onde?

— Nesse mesmo restaurante que o senhor mencionou. Às oito da manhã, pode ser, ou se quiser mais cedo, sem problema, estou acostumada a acordar cedo, vida de médico é assim.

— Estarei aguardando, senhora. Às oito. Tenha uma ótima noite de sono e descanse.

Fiz a reverência e me despedi. No balcão, peguei minha bolsa e vi quando o cavalheiro saiu com o celular no ouvido.

— O que aconteceu, senhor José? Está chorando?

— Lembrei do seu pai quando vi vocês fazendo a reverência. Achava lindo quando ele vinha buscar o jornal pela manhã e me dava o bom dia daquela maneira. Sinto muita falta dele. Foi um homem tão bom, de coração brando, alegre, sempre cordial. Faz muita, mas muita falta.

— Eu também. Há anos que não a usava, tive medo de errar. Papai, em casa, me dava bom dia assim, antes de me beijar a bochecha e me fazer cócegas, é claro. Isso não podia faltar, jamais.

— Já te disse, menina Júlia, você é a mais brasileira das coreanas e a mais coreana das brasileiras.

— Como? Se nem ao menos conheço o país de meu pai? Só herdei os olhinhos puxadinhos — respondi sorrindo. — Só sei de onde ele veio, mas a história por trás da vinda dele ao Brasil, nada. Quer dizer, ele veio atrás da bela morena.

— Descobriu quem é o senhor de terno preto e o que quer da senhorita?

— Ainda não. Marquei um café da manhã no restaurante ao lado. Assim estarei perto de casa e do senhor. Será a minha proteção.

— Pode contar comigo sempre. Qualquer coisa, chamo a polícia na hora.

— Acho que não será preciso. Boa noite, a noite será curta para o sono que estou.

— Durma bem, menina, boa noite.

*****

Enquanto jantava uma gororoba qualquer que sobrara na geladeira de outro dia, frango desfiado requentado com arroz, pensei na fisionomia do senhor de terno. Parecia-se com papai. Olhei a foto dele sorrindo, colocada no aparador da sala, mas era loucura minha, aquele homem era muito alto e papai baixinho, além de outras diferenças. O cansaço do trabalho me deixava lesada. Naquele instante, um clique mental ecoou em minha mente quando me ocorreu que ele também havia se apresentado com o mesmo sobrenome que eu carregava. Um tremor de surpresa percorreu meu corpo enquanto eu processava essa descoberta. Balancei levemente a cabeça, numa tentativa de afastar aquela torrente de pensamentos frenéticos que ameaçava tomar conta de mim. Sentindo a necessidade de um breve intervalo, decidi me dirigir ao banheiro para um banho, buscando um momento de tranquilidade.

Depois do banho reparador, fui direto para o quarto. Apesar de estar apreensiva, adormeci de imediato, já que o cansaço do corpo era descomunal.

*****

Pela manhã, logo cedo, despertei ansiosa. Sentia-me estranha, insegura, pelo encontro que teria com o senhor de terno. Não queria ser a primeira a chegar, então arrumei algumas coisas em casa. Tomei um banho demorado, lavei o cabelo longo, até dar a hora. Passei na portaria e após dar um bom dia sorridente a José, sinalizei que já estava indo ao restaurante. 

Entrei no estabelecimento, vazio nesse horário. Todos já tinham tomado seu café e partido para o trabalho. O senhor Kang, Ye-Jun, já me aguardava, sentado na mesa de canto. Trajava de novo um terno preto e adotava uma formalidade extrema, deixando-me ainda mais apreensiva. Estava muito quente, pois estávamos nos primeiros dias do verão, o que não ajudava a melhorar o clima do ambiente.

— Bom dia, senhor. Não está sentindo calor? Estamos em pleno verão carioca. E aqui, nessa cidade, o normal nessa época do ano é fazer quarenta graus. Com esse terno, vai sofrer.

Ele se levantou e me cumprimentou formalmente.

— Apesar do calor, estou a trabalho. Não posso, ainda, me dar ao luxo de vestir uma bermuda e camisa. Se não se importar, já pedi o desjejum completo.

— Prefiro meu pão com manteiga e café com leite, mas hoje o acompanharei — respondi sorrindo.

— A senhorita trabalha hoje? Talvez a conversa seja um pouco demorada.

— Seria meu dia de folga, mas já avisaram de uma cirurgia, que será inevitável. Avisei no hospital que irei só na parte da tarde. Não se preocupe. Só não posso faltar à tarde, pois além desse procedimento cirúrgico, também tenho alguns pacientes das cirurgias de ontem que preciso ver.

O arroz, a sopa de ovo e o Kim chi foram servidos. O homem de preto, como um bom coreano cavalheiro, me serviu primeiro. Esse gesto e até mesmo a maneira de pegar na colher, lembraram-me mais uma vez de papai, e a saudade apertou. Tentei disfarçar uma lágrima, e o senhor cordial, sem nada dizer, apenas me estendeu um guardanapo.

Logo que acabamos de comer, ele tirou uns documentos de uma pasta e colocou sobre a mesa.

— Vou tentar falar seu nome brasileiro, senhorita. Desculpe-me se sair errado. “Xúlia”, não é?

Eu sorri.

— Mais ou menos. A pronúncia será difícil para o senhor. Tenho um nome coreano, papai fez questão de me dar, Min-Ji.

— Bonita escolha, típica de Kang, Don-Yun. Ao menos o que me lembro.

— Você conheceu meu pai? Ele veio para o Brasil com dezoito anos e nunca mais voltou ao país de origem. O senhor parece bem mais novo do que ele, apesar de ter se apresentado ontem com o mesmo sobrenome.

Pela respiração forte, como um suspiro saudoso, vi que teria uma revelação importante por trás daquela conversa.

— Min-ji, sou irmão de seu pai, Don-Yun. Estou falando sem o sobrenome, o qual é o correto, mas somos da mesma família, a Kang. Durante toda a sua vida, nosso pai o procurou por esse mundo todo. Ele colocou detetives particulares por toda parte, todavia jamais conseguiu achá-lo. Depois de muito tempo, descobrimos que ele mudou o nome para um brasileiro. Só agora soubemos do acidente que o matou, junto com sua mãe. Vim em nome do patriarca da família, seu avô. Ele quer conhecer a única neta e passar a herança do primeiro filho para você. Além…

— Espera, do que estamos conversando mesmo? É alguma brincadeira? Conversou com as minhas duas amigas loucas, que adoram contos de fadas, histórias da carochinha, etc.? Pode falar! É uma pegadinha por eu não ter saído ontem com elas, né? — Comecei a rir, sem parar.

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