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Capa do romance Apaixonada pelo melhor amigo do meu pai - Parte 2 - Final

Apaixonada pelo melhor amigo do meu pai - Parte 2 - Final

Sete anos após fugir da culpa e do julgamento alheio, Mally O'Brien retorna para honrar seu pai e encarar Haniel Galleghan. Ele, o melhor amigo de seu progenitor e seu amor secreto de juventude, vive sob a sombra de uma promessa antiga. O reencontro explosivo reacende um desejo proibido, forçando-os a escolher entre o dever e a paixão. Enquanto ela busca perdão, ele tenta recuperar o tempo perdido, enfrentando um sentimento que nem o tempo ou a distância puderam apagar.
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Capítulo 3

"Para nós dois, 'casa' não é um lugar. É uma pessoa." - Stephanie Perkins.

Entro devagar, como se estivesse pisando em solo sagrado depois de anos de exílio. O cansaço me pesa nos ombros como chumbo derretido, cada músculo do meu corpo protestando contra as longas horas de estrada. Não tenho energia nem para procurar o interruptor da luz - na verdade, nem sei se quero iluminar completamente este primeiro reencontro com meu passado. Prefiro deixar que a escuridão me proteja por mais alguns minutos da realidade total do que deixei para trás.

Retiro meus sapatos, os deixando no pequeno armário da entrada, caminho pelo corredor no escuro, meus pés descalços encontrando o caminho por pura memória muscular, como se meu corpo lembrasse de cada tábua do assoalho, cada desnível do chão de madeira envelhecida. É impressionante como nossos músculos guardam memórias que nossa mente às vezes prefere esquecer. Sete anos longe, mas meus pés ainda conhecem exatamente onde pisar para evitar a tábua que range perto da escada, onde o tapete persa está levemente dobrado na beirada.

Na sala de estar, a luz prateada da lua se infiltra pelos vitrais coloridos que mamãe escolheu com tanto cuidado, pintando os móveis familiares com tons etéreos de prata, azul e dourado. Pequenos arco-íris de luz dançam nas paredes quando as nuvens se movem no céu, criando um caleidoscópio silencioso de memórias. Está tudo exatamente como vi antes de partir, como se o tempo tivesse se recusado a passar dentro destas paredes. Os porta-retratos de prata polida sobre a lareira ainda exibem sorrisos congelados no tempo, as almofadas de veludo do sofá ainda estão arrumadas com o mesmo cuidado obsessivo que mamãe sempre teve, até mesmo a pilha desarrumada de revistas de automóveis que papai deixava estrategicamente na mesa lateral - como se fosse voltar a qualquer momento para folheá-las mais uma vez.

A visão me aperta a garganta. É reconfortante e devastador ao mesmo tempo, essa sensação de que nada mudou quando na verdade tudo mudou irremediavelmente. Papai nunca mais vai se sentar naquela poltrona de couro gasto para ler suas revistas. Nunca mais vai deixar a xícara de café pela metade na mesinha de centro porque se distraiu com algum artigo sobre flores raras.

Subo as escadas com passos pesados que ecoam no silêncio absoluto da casa, cada degrau rangendo familiarmente sob meu peso. Minha mão desliza pelo corrimão de carvalho polido, sentindo cada entalhe, cada marca que o tempo deixou na madeira. Lembro de todas as vezes que subi e desci correndo por estas escadas - criança atrasada para a escola, adolescente fugindo de broncas, jovem adulta saindo para "encontros" que papai fingia não saber que eram encontros e eu mentia dizendo serem, somente para que eu conseguisse esquecer o amor que parecia querer fazer o meu coração parar.

Minha antiga plaquinha ainda está pendurada na porta do quarto, as letras de madeira entalhada já desbotadas pelo tempo e pelos anos de sol que entra pela janela do corredor: "Mally O'Brien". Passo os dedos trêmulos pelas letras familiares e um sorriso melancólico escapa sem eu perceber, involuntário como uma lágrima. Papai fez essa plaquinha quando eu tinha apenas cinco anos, depois que reclamei durante semanas que não tinha um "quarto de verdade" como as outras crianças da escola, que tinham placas com seus nomes na porta. Isso logo após eu ir brincar na casa de uma criança da escolinha e olhar a plaquinha com seu nome, comida e fosse a coisa mais linda do mundo. 

Ele passou três tardes inteiras na oficina, trabalhando com aquelas mãos enormes para entalhar cada letra com perfeição, lixando até que ficasse lisa como seda. Quando terminou, disse que agora eu tinha não só um quarto de verdade, mas o quarto mais bonito da casa inteira. E eu acreditei nele, como sempre acreditava em tudo que papai dizia.

Empurro a porta e entro no meu antigo refúgio, no santuário da menina que um dia fui. Os móveis cobertos por lençóis brancos impecáveis parecem fantasmas benevolentes de uma infância que às vezes sinto que pertenceu a outra pessoa, em outra vida. A cama de ferro forjado onde dormi por dezoito anos. A escrivaninha onde fiz milhares de deveres de casa e escrevi cartas de amor para alguém que nunca as recebeu, pois todas foram queimadas ou jogadas no mar. A estante repleta de livros que li e reli até decorar páginas inteiras. 

Tudo coberto, protegido, preservado como um museu de memórias.

As paredes de vidro ainda oferecem a mesma vista panorâmica que me hipnotizava quando criança e que ainda tem o poder de roubar minha respiração. O mar infinito e escuro se estende à esquerda até o horizonte, onde se mistura com o céu estrelado, suas ondas batendo num ritmo eterno contra as rochas lá embaixo. À direita, as luzes espalhadas da cidade piscam como estrelas caídas, cada pontinho de luz representando uma vida, uma família, uma história acontecendo simultaneamente à minha. Mais adiante, o terreno da casa dele, que faz o meu coração disparar. 

Caminho até a cama, tiro o lençol que a cobre e me jogo nela, sem tirar a colcha de linho que ainda cheira a lavanda - o perfume que mamãe sempre usava para perfumar as roupas de cama. Tia Rouse havia mencionado durante uma das suas conversas telefônicas demoradas que papai deixou instruções detalhadas para os funcionários cuidarem da casa, mantivessem tudo exatamente como era, cada objeto no seu lugar designado.

"Para que eu pudesse matar a saudade e as lembranças não se percam", foram as palavras dele, segundo ela me contou com a voz embargada. 

Mesmo sabendo que talvez eu nunca voltasse, ele quis preservar cada detalhe, cada memória, como se a casa fosse um templo dedicado aos bons momentos que vivemos aqui como família.

Olho para o teto onde ainda brilham, fracas mas persistentes, as estrelas fosforescentes que colamos numa noite de inverno quando eu tinha oito anos e estava com receio de dormir no escuro. Papai subiu na escada comigo, cada um colando uma de cada vez, enquanto mamãe reclamava lá de baixo que íamos quebrar o pescoço naquela aventura perigosa. Mas ele só ria e dizia que algumas magias valem qualquer risco.

As estrelas ainda brilham fracamente na escuridão, pequenos guardiões celestiais velando meu sono como fizeram por tantos anos. Algumas já desbotaram quase completamente, outras ainda emanam aquela luz verde pálida que costumava me acalmar nas noites de tempestade. São como pequenas âncoras me ligando à criança que fui, lembretes silenciosos de uma época em que acreditava em magia e finais felizes.

Meus olhos se fecham sem minha permissão, o cansaço vencendo finalmente a ansiedade que me manteve alerta durante toda a viagem.

❤️🌻❤️

Um barulho metálico e persistente me desperta de supetão, arrancando-me brutalmente de um sonho que já não consigo lembrar. Minha cabeça gira violentamente quando me levanto rápido demais, o mundo oscila por alguns segundos antes de se estabilizar. O som continua vindo de algum lugar dentro da casa - algo metálico batendo ritmicamente, como se alguém estivesse mexendo em ferramentas ou manipulando equipamentos pesados.

Tateio desesperadamente pela bolsa no escuro, meu coração já começando a acelerar com a adrenalina do medo. Procuro o celular entre as coisas espalhadas, derrubando batom, chaves, carteira no chão. A tela acende e mostra um mísero um por cento de bateria, a luz fraca mal conseguindo iluminar meus dedos trêmulos.

- Mas que merda... - resmungo entre dentes, estalando a língua em irritação. - Por que não carreguei essa porcaria logo que cheguei?

O barulho metálico ecoa novamente, mais próximo agora, vindo definitivamente do andar de baixo. Meu estômago se contrai numa bola gelada de pânico. Alguém está dentro da minha casa, mexendo em coisas que não deveria mexer, invadindo o santuário que papai tanto se esforçou para preservar.

Ligo a lanterna fraca do celular e saio do quarto em passos cautelosos, cada movimento calculado para fazer o mínimo de barulho possível. Os passos no corredor soam amplificados no silêncio absoluto da casa, cada tábua do assoalho antigo rangendo sob meus pés descalços como gritos de advertência. Desço as escadas devagar, uma de cada vez, colando o corpo na parede e seguindo o barulho que agora identifico como vindo definitivamente do porão.

Na mesa do corredor, pego um vaso pesado de cerâmica azul que mamãe trouxe de uma viagem a Portugal - se tem alguém invadindo minha casa, pelo menos vou fazer um estrago considerável na cabeça do desgraçado antes que ele me machuque.

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