
Apagado Nunca Mais: Minha Sinfonia
Capítulo 3
Desvencilhei-me gentilmente do abraço de Dona Helena, meus olhos fixos em Cris. O roupão de seda, o *meu* roupão, balançava com os movimentos dela. Senti uma raiva fria crescendo dentro de mim, mas a forcei para baixo. Eu estava aqui por Dona Helena, não para um barraco com a Cris. Ainda não.
— Estou aqui para ajudar a Dona Helena com a consulta médica — declarei, minha voz calma, inexpressiva. — Jonas e eu vamos levá-la.
Dona Helena agarrou minha mão.
— Sim, querida. Essa garota... ela diz que mora aqui agora. Ela fica tentando me dizer o que fazer. Diz que eu não deveria usar minhas próprias roupas. — Ela gesticulou vagamente em direção a Cris, a testa franzida em confusão. — Ela não é da família, é?
Meu coração doeu por ela. Essa mulher doce, que sempre me acolheu, me tratou com afeto genuíno. Lembrei dela agitada na cozinha, me ensinando suas receitas, especialmente sua famosa canja de galinha. Era o gosto de casa, de conforto.
E agora, a casa ainda cheirava vagamente àquela canja, um fantasma de conforto em um lar cheio de traição.
Meu olhar vagou para o canto da sala de estar, onde uma capa de contrabaixo empoerada estava encostada na parede. Não o meu Fender, mas um velho contrabaixo acústico, uma relíquia dos meus dias de faculdade. Lembrei da emoção do palco, a pulsação da música fluindo através de mim, meus dedos voando pelas cordas.
Jonas era meu maior fã naquela época. Ele ia a todos os shows, gritava meu nome, os olhos cheios de admiração.
— Você vai ser famosa, Camila — ele me dizia, com o braço em volta da minha cintura, me puxando para perto depois de um set particularmente selvagem. — Uma estrela do rock. E eu estarei bem aqui, te aplaudindo.
As palavras dele, antes uma promessa, agora pareciam uma piada de mau gosto.
Então meu pai adoeceu. O brilhante Chefe de Cirurgia, derrubado por uma doença súbita e agressiva. No leito de morte, ele segurou a mão de Jonas, a voz fraca.
— Cuide da minha menina, Jonas. Ela é boa demais para este mundo.
Jonas prometeu, os olhos cheios do que eu acreditei ser tristeza e compromisso genuínos.
A carreira dele, alimentada pelas conexões do meu pai e sua própria ambição implacável, disparou depois disso. Ele se tornou o menino de ouro, o cirurgião com o toque de Midas. E eu? Eu desisti do baixo, desisti dos bares esfumaçados e das jams tarde da noite. Tornei-me a esposa perfeita do cirurgião, gerenciando nossa casa enorme, oferecendo jantares elegantes, mantendo a imagem imaculada dele. Troquei meus sonhos pelos dele, acreditando que eram *nossos* sonhos.
Quando meu pai morreu, meu mundo desabou. Jonas, sempre o forte, me segurou.
— Vou cuidar de tudo, Camila. Apenas apoie-se em mim. Para sempre.
Para sempre. Que piada.
Encontrei a filmagem da câmera por acidente. Um alerta no meu celular, uma notificação que eu geralmente ignorava. Mas naquela noite, algo me fez clicar. E lá estava. Não a Gabi lutando com o dever de casa, mas a Cris, jogada no colo do Jonas, os lábios colados. Os gemidos suaves, os sussurros carinhosos. Meu mundo fraturou tudo de novo.
Lembrei da fúria gélida que me consumiu. Invadi o escritório dele, o laptop ainda aberto, a prova condenatória ainda na tela.
— O que é isso, Jonas? — Minha voz foi um som gutural, cru, que mal reconheci.
Ele olhou para cima, a expressão uma mistura de culpa e aborrecimento.
— Camila! O que você está fazendo? Espionando?
— Espionando? — gritei, a fachada de calma se estilhaçando. — Esta é a minha casa! Meu casamento! E isso... isso é uma traição!
Ele se levantou, elevando-se sobre mim. Cris, uma sombra atrás dele, se encolheu.
— Não seja histérica, Camila. Não é o que você está pensando.
— Não é o que eu estou pensando? — Avancei nele, minhas mãos voando, desesperada para apagar a imagem da minha mente. Ele segurou meus pulsos, o aperto como ferro. Então, ele me deu um tapa. Forte. Minha cabeça estalou para trás, a dor aguda um eco chocante da ferida mais profunda.
— Você está me humilhando! — sibilou ele, os olhos queimando com uma fúria fria que eu nunca tinha visto dirigida a mim. Ele me empurrou para longe, em direção à porta. Cris, choramingando, aninhou-se ao lado dele. Ele acariciou o cabelo dela, o olhar ainda fixo em mim, desprovido de calor.
Tropecei para fora, deixando-os no escritório opulento, o segredo deles agora dolorosamente exposto. Os outros funcionários, as empregadas, as cozinheiras, eles deviam saber. Os olhares desviados, os sussurros abafados, de repente faziam sentido. Eu fui a última a saber, a idiota.
Desabei no jardim coberto de neve, o frio cortante um conforto estranho contra a humilhação ardente. As lágrimas congelavam nas minhas bochechas. Meu celular vibrou. Uma mensagem de um número desconhecido.
"Ele nunca te amou, sua vaca frígida. Ele me disse que você era apenas um troféu. Estou dando a ele o que você nunca pôde."
Cris.
Uma nova onda de náusea me atingiu. Eu queria gritar, atacar. Queria expô-los, derrubar a fachada cuidadosamente construída dele. Mas as palavras do meu pai ecoaram na minha mente: "Mantenha sempre sua dignidade, Camila."
Então, eu tentei. Contatei um advogado, reuni as provas que pude. Mas Jonas, com seu poder e suas conexões, estava sempre um passo à frente. Ele ameaçou cortar meu acesso a Dona Helena, lutar pela custódia total da Gabi, me sangrar financeiramente. Ele deixou claro que eu não era nada sem ele.
No meu desespero, considerei ir a público, expor a infidelidade. Mas ele me avisou.
— Você vai arruinar nossas reputações, Camila. Pense na Gabi. Pense na mamãe.
As palavras dele, manipuladoras como eram, funcionaram. Hesitei. Comecei a me perder, a acreditar no *gaslighting* dele. Talvez fosse minha culpa. Talvez eu fosse muito fria, muito insensível. Afundei em uma depressão profunda, me negligenciando, negligenciando tudo. Gabi começou a me evitar, sentindo a tensão, a tristeza que se agarrava a mim como uma mortalha.
Então, numa noite sem dormir, sentada no escuro, olhando para o teto, um pensamento perfurou a névoa do desespero. Lembrei de um velho drive de backup esquecido no escritório de Jonas. Eu o tinha encontrado enquanto procurava os álbuns de fotos antigos da Gabi. Dentro, não fotos, mas uma pasta oculta. Documentos financeiros. E-mails. Um plano detalhado. O plano dele para me deixar sem nada, para garantir que eu permanecesse dependente dele após o divórcio. Um último e cruel giro da faca.
Meu coração ficou dormente. Ele não era apenas infiel; ele era malicioso. Ele não estava apenas entediado; ele estava planejando minha destruição. Naquele momento, vendo a traição fria e calculada exposta em preto e branco, os últimos vestígios do meu amor, da minha esperança, da minha dúvida foram arrancados. Foi um despertar frio e duro.
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