
Apagada Por Suas Mentiras e Seu Amor
Capítulo 3
Ponto de Vista de Ariela Ferraz:
"Isso vai precisar de pontos", disse o médico no pronto-socorro, sua voz gentil. "É um corte profundo. Quase certamente deixará uma cicatriz."
Uma cicatriz. Mais uma para adicionar à coleção que Davi me deixou, embora as outras não fossem visíveis na minha pele.
Lembrei-me de uma vez, anos atrás, quando me cortei com papel enquanto o ajudava a organizar suas anotações de pesquisa. Era uma coisinha de nada, mal um arranhão, mas ele agiu como se eu tivesse sido mortalmente ferida. Ele limpou com um lenço antisséptico, aplicou cuidadosamente um curativo e beijou meu dedo, seus olhos cheios de uma ternura que fez meu coração doer de amor.
Aquele homem se foi. Ou talvez nunca tenha existido. Tinha acabado. Isso, finalmente, estava irrevogavelmente claro.
Meu celular vibrou com uma mensagem dele.
Davi: Fiquei sabendo que você sofreu um acidente. Sua mão está bem? Pedi para minha secretária cuidar das despesas médicas. Avise-a se precisar de algo.
Ele estava terceirizando sua preocupação. Ele não conseguia mais nem se dar ao trabalho de fingir.
Eu: Estou bem. Não preciso da sua ajuda.
Paguei a conta eu mesma com o que restava das minhas economias e peguei um táxi de volta para casa. O silêncio lá dentro era uma presença física, pressionando-me de todos os lados. Engoli dois analgésicos e caí em um sono agitado e sem sonhos no sofá.
Fui acordada horas depois. A porta da frente estava se abrindo. Davi estava em casa. Eram quase 3 da manhã. Ele se moveu pela sala escura, sua silhueta recortada pela luz da lua que entrava pelas janelas do chão ao teto. Ele cheirava levemente a perfume caro — o perfume de Aurora — e a uísque.
Ele me viu no sofá e seus movimentos pararam. Ele se aproximou e ajoelhou-se ao meu lado, sua mão estendendo-se para acariciar meu cabelo. "Ariela", ele murmurou, sua voz grossa de sono e álcool. Ele se inclinou, seus lábios encontrando os meus.
Eu me afastei, uma dor aguda e lancinante subindo pelo meu braço a partir da minha mão suturada. "Não", sussurrei, a palavra mal audível.
Ele recuou, a testa franzida em confusão. Na penumbra, pude ver um lampejo de surpresa em seus olhos, como se não pudesse compreender minha rejeição. Eu nunca o havia rejeitado antes.
"Desculpe", disse ele, sua voz clareando um pouco. Ele suspirou, passando a mão por seu cabelo perfeitamente penteado. "Foi uma noite infernal. Sinto muito pelo que aconteceu no hotel. Foi... complicado."
Ele olhou para mim então, seu olhar suavizando para a sinceridade ensaiada que eu conhecia tão bem. "Você sabe que é a única para mim, certo? Você sempre será a Sra. Moura. Minha única esposa."
Minha única esposa. O título parecia uma piada. Uma piada cruel e patética. Eu era a esposa que ele mantinha escondida no sótão, aquela que ele estava pagando para desaparecer.
Ele pareceu tomar meu silêncio como aquiescência. Ele se levantou, espreguiçando-se. "Vou dormir no escritório hoje à noite. Não quero te acordar."
Ele desapareceu pelo corredor, deixando-me sozinha com a dor latejante na minha mão e o vazio no meu peito.
Mais tarde, a dor na minha palma me acordou novamente. Fui na ponta dos pés até a cozinha para pegar mais analgésicos. Ao passar pelo escritório, ouvi o murmúrio baixo de sua voz. Ele estava ao telefone. Pressionei meu ouvido contra a porta, meu coração uma pedra fria e pesada no peito.
"Sim, os papéis estão assinados", ele dizia, sua voz nítida e profissional agora, todos os vestígios de sono e álcool desaparecidos. "O Arruda tem o original. Podemos anunciar oficialmente meu estado civil como 'divorciado' para o conselho amanhã de manhã."
Houve uma pausa. Eu podia imaginar a pessoa do outro lado, provavelmente Aurora, fazendo uma pergunta.
"Eu sei, também fiquei surpreso que ela concordou tão facilmente", continuou Davi, uma nota de satisfação presunçosa em seu tom. "Ela sempre foi... emotiva. Mas acho que ela finalmente entendeu que isso era para o melhor. Ela é mais sensata do que eu imaginava."
Sensata. Ele achava que eu estava sendo sensata. Ele não tinha ideia de que eu simplesmente havia desistido.
"Não se preocupe, querida", disse ele, sua voz baixando para aquele tom íntimo e acariciante que ele costumava usar apenas comigo. "Tudo está nos trilhos. O IPO é em um mês. Naquele dia, na frente do mundo inteiro, eu vou me ajoelhar e te pedir em casamento."
Ele estava dando a ela a minha proposta. A que ele havia me prometido.
"Eu sei, eu sei. Eu também te amo." Outra pausa. Suas próximas palavras foram mais frias, mais afiadas, carregadas de um veneno que fez meu sangue gelar.
"Ela? Não, não teremos mais problemas. Honestamente, Aurora, você tem que entender... os anos que passei com ela, lutando para sair da pobreza... aquilo não era vida. Era um pesadelo. Um capítulo vergonhoso que mal posso esperar para encerrar de vez."
Meu corpo começou a tremer incontrolavelmente. Um som baixo e gutural escapou da minha garganta, algo entre um soluço e um grito. Tapei a boca com a mão boa, mordendo os nós dos dedos para abafar o barulho.
Um pesadelo.
Meu sacrifício, meu amor, toda a minha juventude... tudo era apenas um pesadelo vergonhoso do qual ele mal podia esperar para acordar.
Lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e silenciosas. A dor na minha mão não era nada. Uma dor surda e distante. A ferida real estava na minha alma, um vasto buraco negro onde meu coração costumava estar.
Tropecei para longe da porta, minha visão embaçada. Uma risada, alta e histérica, arranhou minha garganta.
Ele estava certo. Era um pesadelo. E eu finalmente, finalmente tinha acordado.
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