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Capa do romance Ao cair da neblina

Ao cair da neblina

Louise Vanolli alcançou o ápice do sucesso rapidamente, mas sua felicidade desmoronou após um crime brutal. Determinada a encontrar o culpado pelo assassinato de seu marido, ela mergulha em uma investigação perigosa. No entanto, a busca por justiça revela segredos sombrios que a colocam em um caminho sem volta. Agora, enquanto desvenda verdades ocultas, Louise percebe que sua própria vida está sob constante ameaça nesse mistério envolvente.
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Capítulo 3

O hotel cheirava a mofo. Tinha a louça dos banheiros colorida e o assoalho fazia o maior barulho quando eu caminhava. Era velho. Muita gente gostava dele porque parecia clássico. Eu não. Depois de dormir umas três noites ali, eu começava a acreditar em todas as histórias de assombração que rodeavam o local. Até a noiva do lago. Se eu estava pirada, então, podia até falar com as lendas.

Eu estava reclamando só de noia. Na verdade, o local era bom demais para mim. Devia ser o melhor lugar que eu havia dormido em anos. Era limpo e seguro. Ah, não tinha como eu me enganar... Já havia dormido em locais bem piores quando andava com os caras. Estava ali em uma missão que eu mesma tinha inventado porque fiquei grilada.

Precisei assaltar uma velhinha para pagar pelas diárias, sobrou dinheiro até para comer bem. Eu ainda me impressionava em como as velhinhas eram inocentes. Esse papo de que elas eram muito parecidas com a minha falecida mãe colou em várias. Esta eu segui desde a porta do banco. Estava bem arrumadinha, deveria receber uma boa aposentadoria. É incrível como elas têm a mania de não deixar dinheiro no banco, não sabem que não é seguro? Segui a mulher até o supermercado e, depois, me ofereci para ajudar a carregar as sacolas. Quando a coloquei no táxi, tive que insistir que não queria uma gorjeta e sair quase correndo, pois se ela colocasse a mão na bolsa teria certeza de que a carteira não estava mais lá. Aí tava feita a treta. Pelo menos, desta vez, não foi preciso violência.

Na jogada, levei a melhor, peguei até o celular, que eu deixei em uma boca de fumo lá em Canoas, havia rendido bastante, não estavam valendo tanto ultimamente, devia ser um celular bom. Um carinha me disse que eu não devia mais voltar pra Porto, que eu tinha feito um estrago grande lá e estava sendo caçada por um traficante que não aceita dívidas. Falou que eles mataram o chincheiro. Coitado, ele me vendeu só a metade, o resto roubei enquanto ele dormia. Será que ele nunca deu furo? Ele era desarvorado.

O cara de Canoas me avisou que eu ia pagar com a vida, que não tinha como fugir. Eu não acreditava. Porto Alegre é grande, de que jeito iam me encontrar? Eu iria a outros lugares, iria me disfarçar. Eu cortaria o cabelo, mas já não tinha o bastante para ficar diferente, só se encontrasse uma peruca.

Bem, então dar um tempo na Serra poderia ser bom. Eu tinha bastante, ia durar. Dava pra ficar na minha um bom tempo. A larica não me pegava por dias. Estava curtindo o hotel. Saí para caminhar todos os dias na beira do lago, mas até então eu tinha juntado coragem para fazer o que eu vim fazer aqui.

Encontrar o cara não foi difícil, foi só ver no jornal e perguntar para um morador local; todo mundo conhecia. Era um dos ricaços que moravam ao redor do lago. Ele tava casado. Desgraçado. Eu sabia que todo aquele amor não era verdadeiro. Garanto que curtiu bem e aproveitou a primeira oportunidade. Nem sofreu.

Todos eles me excomungaram. Agora eu era uma pessoa que vivia observando as frentes das casas alheias sem nunca ter coragem de chegar. Eu me sentia morta. Tinha medo de revirar o passado. Tinha certeza de que não iria ser aceita. Observei os meus pais por dias a fio, eles pareciam bem, na verdade do mesmo jeito de sempre. Pensei em pedir que me internassem, eu não queria mais aquela vida para mim, eu queria ficar gelada. Francamente, eu não tinha vida alguma. Eu acho que eles já tinham tentado me curar, mas eu não me lembro bem, tem coisas que eu me esqueço. Por fim, desisti.

Agora vim atrás dele. Percebi que ele estava bem mais rico. Será que ainda tinha algum resquício do nosso passado naquela casa? Os quadros, quem sabe. E o menino, como será que ele se virou sozinho? Ele era meu sangue, meu maior ressentimento, meu maior arrependimento e meu maior pesadelo. Eu nunca devia ter deixado o garoto da maneira que deixei. Por minha culpa, ele não sabe o que é ter mãe.

Eu imaginei por dias se ele me reconheceria. Eu estava um caco. Não deveria ter mais do que 40 kg. Os cabelos saíam em poucos tufos desconexos da minha cabeça. Estava muito enrugada. Tinha perdido alguns dentes. Mancava de uma perna e tinha um problema na coluna que não me permitia ficar muito ereta, devido a uma surra forte que tomei. Alguns dos meus dedos das mãos já não tinham unhas. Eu não tinha uma roupa que prestasse. Tive de dar o dinheiro adiantado para a moça da recepção do hotel, já que ela não queria fazer o meu check-in. Eu entendo. Nem sempre fui assim, mas eles não entendem o que é viver ouriçada. Na realidade, em todos estes anos, eu só pensei em parar recentemente, quando percebi que perdi tudo e que não passava de um fantasma.

Eu me lembrei da minha infância. Droga. Eu era feliz, todos nós éramos. Eu nunca fui sozinha. Eu me lembro do pé de goiabeira, da sombra na grama e da Manuela brincando de casinha comigo. Como nós éramos lindas. Eu tenho uma foto antiga, não sei se para me lembrar ou para me torturar. Eu me lembro de ter crescido bem, me lembro dos meus pais felizes, até eu começar a namorar o Carlos. Aquele metaleiro filho de uma puta não podia ter entrado na minha vida. Ele era da política, eu era um pitéu. Nunca mais parei. Nem ele. Morreu de overdose há mais de 15 anos.

Andando na beira do lago eu vi que tinha luz na casa. Parei e fiquei um tempo na neblina, olhando. Queria ficar de boa, mas estava muito frio e eu estava congelando. Tinha um furo no meu tênis do pé esquerdo que não deixava eu me esquentar. Vi um carrão de rico entrar na casa, mas na neblina e com aquele vidro escuro não pude ver se era ele ou não.

Hesitei. O que eu diria para ele se eu fosse até lá? O que eu queria lá, na verdade? Não poderia pedir dinheiro de vez. Ele me botaria pra correr. Mas eu tinha algo a meu favor. Ainda tinha os mesmos olhos, os olhos que ele amava. Se eu fosse até lá e deixasse que ele olhasse no fundo dos meus olhos, talvez teria um vislumbre de tudo o que eu já fui. E eu traria lembranças. Poderia ser que, depois de tanto tempo, ele me perdoasse e depois me ajudasse. Contei até três. Dei um passo decidida.

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