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Capa do romance Ao Amanhecer - Livro 1 - Trilogia Durante os Dias

Ao Amanhecer - Livro 1 - Trilogia Durante os Dias

Após perder os pais e herdar dívidas, Chloe luta para sobreviver com o pouco que lhe resta. Sua trajetória cruza com a de Christopher Hutton, um empresário de sucesso preso a um casamento infeliz e marcado pelo luto de sua falecida esposa e filha. Em meio ao caos e à dor, uma intervenção inesperada une esses dois caminhos distintos. Este romance intenso explora se duas almas quebradas podem encontrar cura quando tudo parece destinado ao fracasso.
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Capítulo 3

Gosto de chuva, mas hoje não é um dia bom para ter chuva, preciso ir até a delegacia falar com o delegado e entrar em contato com aquele homem sobre sua filha, mas com esse tempo não vou conseguir nem chegar no carro. Dei banho em Julia e o pequeno corpo dela me deixou atordoada, há várias marcas em suas costas e braços, seus pés estão machucados e cheios de calos, mas ela só tem três anos e meio.

Como alguém pode fazer mau a uma criança? Praticamente um bebê. Olho sob a bancada os vidros de geleia agora frios, os pego colocando na caixa que levarei para a cidade amanhã. Julia está brincando com seus brinquedos na sala, praticamente cai um dilúvio ao lado de fora, meu coração está apertado por imaginar quanta dor essa criança passou até agora.

–Tia, posso te ajudar? -escuto a voz baixa e doce de Julia perto de mim, olho para ela despertando dos meus pensamentos tristonhos e sorrio.

–Oh, claro. Venha. -coloco ela sentada sob o balcão. –Pegue um pote por vez e passe pra mim, irei coloca-lo aqui.

Explico com calma para que ela não se machuque ou acabe se assustando, ela é linda, o seu jeitinho tímido, seus olhos curiosos, os cabelos loiros, para uma menina de três anos é bem grandinha, talvez tenha crescido assim por conta do balé. Vejo ela me estender um dos potes e sorrio por ela ter entendido facilmente, ainda por cima é uma menina inteligente. Quem será que fez isso com essa criança?

–Muito bem. -passo a mão em seus cabelos e ela sorri, um sorriso largo e bonito. –Como sabemos que a chuva não irá parar hoje, assim que terminar aqui iremos para o quarto, tenho várias histórias lá, irei ler uma pra você.

Ela sorri contente e sorrio de volta, com a ajuda dela fui preenchendo a caixa de madeira que uso para levar os doces até a cidade. Depois de meia hora colocamos todos em duas caixas, desci ela da bancada e subimos as escadas para o quarto. Deixei que ela escolhesse o livro, mas ao invés de escolher um dos livros infantis e que daria para ler rápido acabou que pegou um maio, Alice no país das maravilhas. Era meu livro favorito quando pequena, é pouco mais de três da tarde, quando começamos a lê-lo, ficou acordada até quase cinco horas mas então dormiu.

Observo por um momento seu rosto sereno, ela dorme agarrada ao ursinho de pelúcia exatamente como estava quando a encontrei na estrada. Cubro suas pernas e braços saindo do quarto deixando o abajur ligado e a porta aberta para caso acorde e fique com medo. Assim que sai do quarto o telefone da sala tocou, estranho, quase ninguém liga aqui porque sabe que meus pais morreram. Desço as escadas rapidamente indo até a sala, pego o telefone que fica na divisa da sala e cozinha atendendo.

–Alô. -digo ao atender mas por alguns segundos não há resposta.

–Não ouse aparecer com essa menina ou sofrerá as consequências. -escuto a voz grossa, parece modificada por algo.

–Quem é? -pergunto com um pouco de receio e medo.

–Isso é apenas um aviso, fique com a menina, mande para um orfanato, ou seja lá o que queira fazer mas não apareça com ela. -a voz parece mais feminina do que antes nesse final, antes de escutar um toque de fim da ligação escutei uma outra voz ao fundo, olho o telefone, agora apenas o som de tuuuuuuuuuu se faz presente.

Eles me ameaçaram, Deus, quem são essas pessoas? Porque não querem que eu apareça com a menina? O que esta acontecendo? Respiro com dificuldade até escutar um grito fino vindo do quarto, corro escada acima temendo pelo que pode estar acontecendo. Ao abrir a porta do quarto encontro Julia sozinha se debatendo na cama, ela parece sentir dor, seus olhos estão abertos mas não parecem me ver, há medo, agonia e desespero em seu rosto.

–Eu... não vou volta. -diz em meio aos gritos. -Por favor... não.

–Ei, não vai acontecer nada. Acorde é um pesadelo... -ou uma lembrança.

–Julia, eles não estão aqui. Escute minha voz, feche os olhos. -ela os fecha com força, me escuta mas não me vê.

–Respira fundo e abra. Vê? -digo e a mesma faz devagar, seu corpo treme e então ela vira a cabeça e me vê ao lado da cama segurando em seus braços e então sou surpreendida quando ela pula sobre mim chorando, seu choro é de partir o coração, um choro agoniante de dor e desespero.

–Shhh, vai ficar tudo bem. Você está aqui comigo agora. -digo abraçando ela forte enquanto a embalo, assim como minha mãe fazia comigo quando eu era pequena. O que fizeram com você bebê? Será que se lembra de cada detalhe? Cada pessoa? Cada lugar? Será que nunca foi feliz?

–Se você me ouvir...

Na escuridão...

Sei que vai ficar...

Mais forte então...

Quando você se for...

mais velho estará...

Só não escolha...

por se afastar...

As coisas vão mudar...

são fáceis pra pensar...

Então basta á você...

pra sempre acreditar...

em mim...

Se você não mentir...

calma ficará...

Você nunca fará...

um barulho pra acalmar...

pra acalmar...

Todas as luzes irão...

guiar o seu coração...

Se me ouvir agora...

Todos os medos irão...

Desaparecer...

Desaparecer...

Cantei a cantiga que minha mãe sempre cantava pra me acalmar quando tinha um pesadelo. Aos poucos durante a música ela se acalmou e só ficou abraçada à mim enquanto fungava e segurava minha blusa, acho que ela só precisa de um pouco de carinho e atenção para lhe fazer melhorar.

–Se sente melhor agora? -ainda abraçada à mim confirmou de leve, coloquei ela de volta na cama deitando ao seu lado e acariciando seus cabelos de leve.

–Tia, não me deixa eles me pegarem. A mulher mau e o homem mau, eles gostam de me trancar no porão. -diz baixinho e meu coração se aperta e a raiva me consome, essas pessoas deviam queimar até a morte. O medo dela é ate palpável.

–Shhh, nada vai te acontecer. Irei te proteger. -digo e volto a cantar baixinho. Meus pensamentos voam com todas as questões que não tinham repostas. Mas a que mas me deixava afoita e em tremenda duvida era em como ela tinha ido parar naquela estrada? Aos poucos senti que ela relaxou, senti sua respiração voltando ao normal, então vejo que adormeceu abraçada em mim, fecho meus olhos cansada depois de uma noite e um dia acordada, mesmo que não consiga resolver isso agora espero que amanhã eu consiga respostas.

•°•• ♤ ••°•

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