
ANGEL
Capítulo 3
Juliana demorou o máximo que pode, limpando tudo com calma, arrumando as cadeiras e os utensílios, só pra ver se Thiago tinha esquecido. Mas então ela saiu do prédio e lá estava o de cabelos avermelhados fumando um cigarro, encostado em um carro com uma pessoa lá dentro.
- Finalmente!
- Achei que já tinha ido - ela disse com os ombros caídos.
- Você me deve, e eu vim cobrar, vem entra.
- De quem é esse carro?
- Esse é Henrique, diz oi cara. - disse empurrando o ombro do outro garoto dentro do carro. Ele tinha cabelos escuros, um olhar sério, uma jaqueta jeans e nenhum brinco nas orelhas. Esperou Juliana entrar no banco de trás para a ver pelo retrovisor, e mesmo assim pareceu bem tenso.
- Oi, caralho, você por acaso veio da casa da barbie? Puta merda Thi como que ela entra na festa vestida assim? Parece que ta indo pra igreja!
Juliana olhou para as roupas que usava, uma camisa azul clara por baixo de um suéter bege que deixava a gola e as mangas da camisa aparecendo, uma jaqueta branca, calça jeans e sapatos fechados com cadarço. Estava arrumada. Mas com certeza desentoando deles todos.
- Ela é minha amiga e ta comigo, relaxa Ju, eu te protejo, só quero que você se divirta.
Juliana engoliu em seco se arrependendo amargamente de entrar no carro assim que deram a partida. Um hip hop começou a tocar no som e os dois foram trocando os raps enquanto iam para as baixadas de São Paulo.
Ela nunca tinha ido até la. Era zona proibida, ela não pertencia a aquele lugar.
Logo chegaram ate um galpão afastado que ela já ouvia que tocava música, vários carros e motos estacionados, pessoas dançando, indo e vindo de lá pra cá, em rodinhas, fumaça e cheiro de maconha, e bebida, muita bebida.
- Vem - Thiago disse puxando pela jaqueta branca enquanto eles andavam em meio as pessoas que já jogavam olhares curiosos a ela.
- Boa noite irmã - ela escutou com risadinhas.
- Da onde essa saiu? - outro disse.
Juliana se destacava com sua roupa clara e impecável, sem rasgos ou sujeira, no meio de tanta gente cheia de tatuagens, cabelos bagunçados, roupas pretas e rasgadas. eles iam andando em meio as pessoas, tão diferentes dela, tão livres, tão... e então, sentado em uma moto, com algumas pessoas ao seu redor, Juliana o viu.
Como em câmera lenta, a fumaça se esvaindo e seu rosto aparecendo devagar, os cabelos brancos como sua pele, olhos intensos e pretos que pareciam que viam os seus mais secretos segredos, vestia uma jaqueta militar e calças rasgadas nos joelhos, e um coturno para fechar.
As pessoas falavam com ele, mas ele nem parecia dar atenção, acompanhando Juliana com o olhar enquanto el caminhava para o outro lado.
- Ei - ela ouviu Thiago dizer - Não devolve o olhar não.
- O que? - Juliana perguntou, desviando o olhar do estranho e olhando Thiago.
- Aquele lá é o Tony, e você não é pro bico dele, se ficar olhando, ele vai achar que você é presa. Ele é meu amigo, mas não presta, então... só fica longe ok?
Juliana abriu a boca pra falar mas nada saiu, ela virou o olhar disfarçando, procurando Tony na moto, e ele ainda estava lá, olhando em sua direção.
Ela era presa. Se sentia presa.
Mas ao mesmo tempo não sentia medo nenhum.
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