
Ana: Renascida das Cinzas do Amor
Capítulo 3
Segurei Sofia junto ao peito, sentindo cada batida fraca, mas constante, do seu coração. Era real. O calor do seu corpo minúsculo contra o meu era real. O cheiro suave de bebê era real. Eu não estava morta, nem em algum tipo de purgatório. Eu estava de volta, no dia exato que marcou o início do fim.
A porta do quarto se abriu devagar e a figura de Dona Lúcia apareceu, com um sorriso no rosto que, na minha vida passada, eu interpretava como afeto. Hoje, eu via apenas a máscara fina que cobria a crueldade.
"Bom dia, dorminhoca. Deixei você descansar um pouco mais", disse ela, a voz falsamente doce. "A nossa pequena Sofia deu um pouco de trabalho de madrugada, não foi?"
Ela se aproximou do berço, mas eu me movi instintivamente, colocando meu corpo entre ela e minha filha. Dona Lúcia parou, a expressão mudando por uma fração de segundo. Um brilho de irritação que logo foi substituído por uma preocupação fingida.
"O que foi, Ana? Parece que viu um fantasma."
"Eu só... tive um pesadelo", respondi, a voz firme, sem o tremor que eu esperava.
A memória do metal se contorcendo, dos gritos, da escuridão, era vívida. Mas a visão de Sofia, viva e respirando em meus braços, era mais forte. Era meu combustível.
"Ah, pesadelos... Bobagem. Venha, tome seu café. Eu fiz um bolo de fubá que você adora", disse ela, tentando me guiar para fora do quarto. "Deixa a Sofia aqui no berço, ela acabou de dormir de novo."
Ela estendeu as mãos para pegar minha filha. Na minha vida anterior, eu a teria entregado sem pensar duas vezes, agradecida pela "ajuda". Hoje, eu recuei um passo.
"Não. Ela fica comigo."
O sorriso de Dona Lúcia vacilou de vez.
"Ana, não seja boba. Como você vai tomar café com a menina no colo? Ela está bem aí. Eu fico de olho."
"Eu disse que ela fica comigo", repeti, o tom de voz mais baixo, mais perigoso. "Eu tomo café depois."
A tensão no quarto era palpável. Dona Lúcia me encarou, os olhos pequenos se estreitando. Ela não estava acostumada com essa resistência. A Ana que ela conhecia era dócil, fácil de manipular. Aquela Ana não existia mais.
Ela deu de ombros, forçando um sorriso.
"Como quiser. Mas o café vai esfriar. E eu já preparei o chazinho da Sofia, pra acalmar a barriguinha dela."
Meu sangue gelou. O chazinho. O mesmo chazinho de "ervas medicinais" que quase a matou. Aquele foi o primeiro grande alerta que eu ignorei, convencida por Pedro de que era um "exagero" meu.
"Que chá?", perguntei, mantendo a voz controlada.
"Ah, umas ervas do meu quintal. Coisa boa, natural. Muito melhor que esses remédios cheios de química que você dá pra ela."
Ela se virou e saiu do quarto. Eu a segui, com Sofia segura em meus braços. Na cozinha, sobre a mesa, estava uma xícara fumegante. O cheiro era adocicado e estranho. Ao lado, a mamadeira de Sofia. Dona Lúcia pegou a xícara, pronta para despejar o conteúdo na mamadeira.
Num movimento rápido, que surpreendeu a mim mesma, eu avancei e arranquei a xícara da mão dela. O líquido quente derramou no chão da cozinha, espalhando o cheiro forte e enjoativo.
"O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO?", gritou Dona Lúcia, chocada.
"Eu é que pergunto!", respondi, a voz subindo, cheia de uma fúria que eu mantive represada por uma vida inteira. "Você ia dar isso para a minha filha?"
"É claro! É um chá calmante! Você está louca, Ana? Jogou tudo fora!"
"Louca? Louca estava eu de confiar em você! Que ervas são essas, Dona Lúcia? Você sabe o nome delas? Sabe os efeitos que elas têm num bebê com a condição da Sofia?"
Ela ficou sem palavras, a boca aberta. Pela primeira vez, eu a via sem a sua máscara de boa samaritana. O que restava era uma mulher ignorante e teimosa.
"É... é erva-cidreira... com... com um pouco de boldo. Sempre funcionou!"
"Sempre funcionou pra quem? Para adultos saudáveis? Sofia não é um adulto saudável! O médico disse, mil vezes, NADA além do leite e dos remédios dela. NADA! Você é surda ou só não se importa?"
Pedro entrou na cozinha, atraído pelos gritos. Ele viu a xícara no chão, a expressão furiosa da mãe e o meu rosto transformado pela raiva. Sua reação foi a mesma da minha vida passada.
"O que está acontecendo aqui? Ana, por que você está gritando com a minha mãe?"
"Pergunte a ela, Pedro! Pergunte o que ela ia dar para a nossa filha!"
Dona Lúcia correu para o filho, o choro já engatilhado.
"Ela me atacou, meu filho! Eu só fiz um chazinho pra ajudar a acalmar a Sofia, e a sua mulher jogou em mim, me acusou... Ela está descontrolada!"
Pedro olhou para mim, a decepção e a irritação estampadas no rosto.
"Ana, de novo essa história? Minha mãe só quer ajudar! É só um chá!"
"Não, Pedro. Não é 'só um chá'. É veneno. Na minha vida... " - eu me calei. Não podia contar a verdade. Eles me internariam. - "Eu pesquisei. As ervas que ela usa são tóxicas para bebês, especialmente para um com o sistema frágil da Sofia. Podem causar parada respiratória."
Inventei na hora, mas a convicção na minha voz era total, alimentada pela verdade que só eu conhecia.
Dona Lúcia bufou.
"Que bobagem! Pesquisou onde? Nessas internets que só falam mentira? Antigamente não tinha nada disso e todo mundo sobrevivia!"
"Mas a Sofia não é de 'antigamente'! Ela é de agora, e ela é frágil! E esta é a minha filha! Na minha filha, ninguém mais toca! Ninguém mais dá 'remedinhos alternativos', 'chazinhos milagrosos' ou qualquer outra porcaria que saia da sua cabeça!"
Eu apontei o dedo para ela, tremendo de raiva. Sofia, assustada com a gritaria, começou a chorar no meu colo. Eu a aninhei, tentando acalmá-la, mas meus olhos não desgrudaram dos da minha sogra.
"A partir de hoje, você não chega mais perto dela. Você não alimenta, não dá banho, não faz nada. Entendeu?"
Pedro deu um passo à frente, incrédulo.
"Ana, você não pode fazer isso! Ela é a avó! Ela mora aqui!"
"Então talvez ela precise encontrar outro lugar para morar", retruquei, a frase saindo antes que eu pudesse contê-la.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Dona Lúcia e Pedro me olhavam como se eu fosse um monstro. Talvez eu fosse. A antiga Ana, a confeiteira doce e paciente, não teria coragem de dizer aquilo. Mas ela estava morta. E eu faria qualquer coisa para que minha filha não tivesse o mesmo destino.
Dona Lúcia, recuperando-se do choque, usou sua arma mais poderosa: a chantagem emocional.
"É isso, então? Depois de tudo que eu fiz por esta família... Criei meu filho com tanto sacrifício, abri as portas da minha casa pra você... e é assim que você me agradece? Me expulsando? Só porque eu tentei cuidar da minha própria neta?"
Ela olhou para Pedro, os olhos cheios de lágrimas.
"Você vai deixar ela fazer isso comigo, meu filho? Vai jogar sua mãe na rua?"
Pedro, como sempre, caiu na armadilha. Ele olhou para mim, o rosto uma mistura de fúria e súplica.
"Viu o que você fez, Ana? Você está destruindo esta família! Peça desculpas para a minha mãe. Agora."
Eu olhei para o rosto suplicante do meu marido, para a expressão vitoriosa disfarçada de mágoa da minha sogra. Na vida passada, eu teria cedido. Teria pedido desculpas, engolido o veneno e permitido que a tragédia seguisse seu curso.
Mas não hoje.
Eu balancei a cabeça lentamente.
"Não. Eu não vou pedir desculpas por proteger a minha filha."
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