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Capa do romance Amores Perdidos: O Mar Chora

Amores Perdidos: O Mar Chora

Pedro viu seu filho João ser morto pelos capangas do magnata Ricardo Mendes após testemunhar um crime. Traído pela polícia e pressionado pela família a aceitar suborno, o pescador perdeu seu barco e a honra do filho, difamado como usuário de drogas. Movido por uma dor gélida e pela lenda do Anzol de Prata, Pedro abandona sua humildade. Ele desperta um poder antigo para caçar os culpados, provando que o mar cobrará cada gota dessa dívida de sangue.
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Capítulo 3

O corpo de João foi levado pela polícia local, a mesma polícia que recebia seu salário extra de Ricardo Mendes. Quando tentei ir junto, eles me empurraram, me trataram como um criminoso. Um deles, o sargento BASTOS, me disse que eu estava detido para interrogatório. A acusação? Agressão contra os homens de Ricardo. Era um pesadelo dentro de outro.

Depois de horas em uma sala mofada, me liberaram no meio da noite com um aviso para "ficar na minha". Consumido pela dor e por uma raiva impotente, fiz a única coisa que minha mente quebrada conseguiu pensar. Fui até a mansão de Ricardo Mendes.

A casa dele era um insulto à nossa vila, uma fortaleza de muros altos e vidro escuro que se erguia sobre nossas casas simples. O portão de ferro forjado parecia a entrada de um castelo. Toquei o interfone, minhas mãos tremendo.

"Quem é?", a voz metálica de um segurança soou.

"É o Pedro. O pai do João. Eu preciso falar com o senhor Ricardo."

Houve um longo silêncio. Eu podia imaginar as câmeras me observando, um pescador sujo de sangue e lágrimas na entrada de um palácio. Finalmente, a voz de Ricardo respondeu, fria e distante.

"O que você quer, Pedro?"

"Meu filho... eles mataram meu filho", minha voz falhou. "Seus homens... eles mataram João. Eu só quero justiça. Por favor, senhor Ricardo, o senhor é um homem poderoso, me ajude a descobrir quem fez isso."

Eu estava me humilhando, pedindo ajuda ao assassino do meu filho. Mas o desespero me deixou cego. Talvez, em alguma parte doente da minha mente, eu esperasse que ele tivesse um pingo de decência, que dissesse que foi um erro, um acidente.

"Eu não sei do que você está falando", ele respondeu, com o tom de quem espanta uma mosca. "Meus homens são pessoas de bem. Seu filho devia andar com gente errada. Agora, se me der licença..."

Antes que ele pudesse desligar, uma voz feminina soou ao fundo, abafada. "Ricardo, querido, quem é a essa hora? Deixe isso para lá e venha para a cama."

"Já vou, meu bem", Ricardo respondeu, e o interfone ficou mudo.

Fiquei parado, olhando para o portão fechado, a rejeição ecoando em meus ouvidos. O mundo girou. Meu celular tocou. Era um número desconhecido. Atendi.

"Alô? Pedro Henrique da Silva?", a voz era burocrática.

"Sim..."

"Aqui é do departamento de fiscalização da marinha mercante. Estamos ligando para informar que, devido a uma denúncia anônima de pesca ilegal e uso de redes predatórias, sua licença de pesca está suspensa e seu barco, o 'Estrela do Mar', está apreendido até segunda ordem."

O telefone escorregou da minha mão e caiu no chão. O barco. O barco que meu pai me deixou. O barco com o qual eu criei João. Meu único bem, meu sustento, minha vida. Eles não tinham apenas tirado meu filho. Eles estavam tirando tudo.

Minhas pernas fraquejaram e eu caí de joelhos no asfalto frio. A dor no peito era física, uma pressão esmagadora que me impedia de respirar. Eu gritei. Um grito animalesco, sem palavras, que vinha do fundo da minha alma rasgada. Gritei até meus pulmões arderem, até minha garganta ficar em carne viva.

No dia seguinte, no pequeno e improvisado necrotério da cidade, eu vi meu filho pela última vez. A funerária barata, a única que eu podia pagar, mal tinha conseguido disfarçar os ferimentos. Havia um hematoma escuro em sua testa. Seus olhos, que a morte não conseguiu fechar completamente, pareciam encarar o teto com uma pergunta silenciosa. Era o olhar da injustiça, de uma vida interrompida, de um futuro roubado. Ele não parecia em paz. Parecia que sua alma ainda estava ali, presa, esperando por algo que eu não podia lhe dar.

Meu cunhado, irmão da minha falecida esposa, apareceu no velório. Ele nunca gostou de mim, sempre me achou pequeno demais para a irmã dele. Ele se aproximou, não com um abraço, mas com um conselho envenenado.

"Pedro", ele disse, com uma falsa expressão de pesar. "Eu sei que é difícil, mas você precisa ser prático. Ouvi dizer que o Ricardo Mendes está disposto a oferecer uma... compensação. Um dinheiro para ajudar com as despesas, para você não fazer barulho."

Olhei para ele, incrédulo.

"Dinheiro? Você está falando de dinheiro? Eles mataram o meu filho!"

"E nada vai trazer ele de volta", ele retrucou, impaciente. "Você não tem como lutar contra um homem como o Ricardo. Ele é dono da cidade. Aceite o dinheiro, Pedro. Pague suas dívidas, compre outro barco quando a poeira baixar. É o mais inteligente a se fazer."

A frieza dele, a ganância disfarçada de pragmatismo, foi a última gota. O último pilar da minha fé na humanidade desabou. Olhei para o caixão do meu filho, para o rosto pálido e sem vida de João, e depois para o meu cunhado. E então, eu ri.

Não foi um riso de alegria. Foi um riso seco, quebrado, histérico. Um som horrível que saiu do meu peito vazio. Ri da crueldade do mundo, da falha da justiça, da traição daqueles que deveriam me apoiar. Ri porque, naquele momento, eu entendi. Não havia mais nada a perder. Minha esperança, meu amor, meu futuro... tudo estava naquele caixão. E o que sobrou de mim não era mais um pescador humilde. Era algo diferente. Algo mais sombrio, mais duro. A ilusão do amor e da família tinha acabado. Só restava o ódio.

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