
Amor Traído, Guerra Declarada
Capítulo 3
O ar na cabine pressurizada parecia rarefeito. Meu coração ainda martelava contra as costelas, um eco do terror que senti no asfalto. Olhei para minhas mãos. Elas tremiam. Respirei fundo, forçando o ar a entrar nos meus pulmões.
Calma, Duda. Calma.
Aquilo não foi um sonho. Foi real demais, detalhado demais. A camisa de time do Marcelo, o choro falso da Carolina, o olhar vazio do Pedro. Tudo gravado a fogo na minha mente.
Eu tinha uma segunda chance. Uma chance de não ser a vítima.
A primeira coisa que fiz foi pegar meu celular. Desliguei o modo avião e o sinal entrou imediatamente. Ignorei as mensagens de boas-vindas da operadora. Fui direto para o WhatsApp.
A foto de perfil do Pedro. Nós dois, sorrindo, em uma praia em Lisboa. A foto que eu amava.
Abri a conversa. A última mensagem dele, de ontem à noite: "Mal posso esperar pra te ver, meu amor. Contando os segundos."
Um alívio imenso, mas frágil, me inundou. Ele ainda era meu. Por enquanto.
Abri o Instagram. Rolei o feed. Fotos nossas, declarações de amor, contagem regressiva para a minha volta. Tudo normal. Tudo como deveria ser.
Fui ao perfil da Carolina. A última postagem era uma foto dela, com a legenda: "Ansiosa para a minha melhor amiga voltar! O trio vai estar completo de novo!". Nos comentários, Pedro havia respondido com um emoji de coração.
Tudo parecia perfeito. Uma fachada perfeita para o inferno que me esperava.
Eles ainda não tinham agido. Ou o plano deles começava exatamente hoje, no momento da minha chegada.
Eu precisava de provas. Provas da nossa realidade, antes que eles a apagassem.
Comecei a tirar prints. Da minha conversa com Pedro. Do perfil dele. Das nossas fotos juntos. Das declarações públicas. Tirei print de tudo, de cada comentário, cada curtida.
Depois, fui para a galeria de fotos. Comecei a salvar tudo na nuvem, em três serviços diferentes. Criei pastas com senhas fortes. Cada foto, cada vídeo nosso, cada momento feliz que eles tentaram apagar na minha "outra vida". Eu os estava blindando.
Enquanto o avião descia, minha mente trabalhava freneticamente. O que eles queriam? Por que destruir minha vida de forma tão elaborada? O tal Marcelo era a peça-chave. E a tecnologia. Eles usaram tecnologia para alterar minhas memórias digitais.
Aquele Marcelo... na minha visão, ele era noivo da Carolina na "realidade original"? Não, a visão não me mostrou isso. Ele era apenas o "sapo". Um elemento grotesco inserido na minha vida. O que ligava ele a Pedro e Carolina? Inveja da Carolina, eu entendia. Ela sempre teve um brilho competitivo no olhar quando se tratava de mim. Mas o Pedro? O meu Pedro?
A ganância. O Dossiê mencionava ganância. Um segredo de família. Herança. E... eu falando dormindo.
Uma lembrança me atingiu. Uma conversa boba com Pedro, anos atrás.
"Você fala enquanto dorme, sabia?", ele disse, rindo.
"Falo? O que eu digo?", perguntei, curiosa.
"Coisas sem sentido. Mas às vezes... você fala sobre seu trabalho, suas pesquisas. É fofo."
Na época, pareceu inofensivo. Agora, soava sinistro. Minha pesquisa em Portugal era sobre segurança de dados e criptografia quântica. Informações valiosas. E a herança? Minha avó tinha deixado um terreno valioso, mas com uma pendência jurídica complicada que só seria resolvida em alguns anos. Eu era a principal herdeira.
O que eu falava durante o sono? Pedro deve ter gravado. Eles estavam esperando eu voltar para ativar o plano, talvez porque precisavam de mim fisicamente para alguma coisa. Acessar uma conta? Assinar um documento?
"Senhoras e senhores, bem-vindos a São Paulo."
A voz do piloto me tirou dos meus pensamentos. O avião tocou o solo. O renascimento havia terminado. O jogo havia começado.
Enquanto o avião taxiava para o portão, enviei uma mensagem para Pedro.
"Amor, acabei de pousar! Ansiosa pra te ver!"
A resposta veio quase instantaneamente.
"Vida! Estou aqui te esperando com seus pais e a Carol. Estamos perto daquele café que você gosta."
Igual. Exatamente como na visão. O roteiro estava se repetindo.
Respirei fundo mais uma vez. O medo ainda estava lá, um nó gelado no estômago. Mas agora, ele estava misturado com outra coisa. Uma raiva fria e calculista.
Eles me transformaram em uma louca. Me humilharam. Me agrediram.
Desta vez, a louca ia mostrar do que era capaz.
Peguei minha bagagem de mão, ajeitei a roupa e caminhei para a porta do avião. Um sorriso confiante no rosto, escondendo a tempestade que se formava dentro de mim.
Eu estava voltando para casa. E o inferno viria comigo.
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