
Amor Traído: A Queda de Uma Estrela
Capítulo 3
No dia seguinte, Ricardo agia como se nada tivesse acontecido. Ele me trouxe café na cama, sorrindo, e colocou a mão na minha barriga.
"Como estão meus dois amores hoje?"
O toque dele me causou um arrepio de nojo. Eu forcei um sorriso.
"Estamos bem. Só um pouco cansados."
Mais tarde, o Dr. Costa veio para a consulta de rotina em casa. Uma conveniência que Ricardo insistia em proporcionar, para "meu conforto" . Agora eu sabia o porquê. Ele preparou a seringa, o líquido transparente brilhando sob a luz.
"Apenas suas vitaminas, Luana. Para manter você e o bebê fortes."
Ele sempre dizia isso. Por quatro anos, eu recebi injeções. Primeiro, para a dor no joelho. Depois, para "ajudar na recuperação" . Durante a gravidez, eram "vitaminas essenciais" .
Enquanto a agulha perfurava minha pele, ouvi a conversa da noite anterior ecoando na minha cabeça. Ouvi mais do que Ricardo disse. Consegui pescar trechos da resposta de Bruna através do telefone. Ela estava preocupada com a dosagem.
"Você tem certeza que isso não vai afetar o bebê, Ricardo? Eu quero ele perfeito."
"O Dr. Costa sabe o que faz. É só para mantê-la dócil e fraca. Facilita tudo. A recuperação dela nunca foi o objetivo."
A agulha saiu. O Dr. Costa sorriu, um sorriso profissional e vazio.
"Prontinho. Descanse bastante."
Ele era parte do plano. O médico em quem eu confiei era um monstro, cúmplice na destruição da minha vida. A fraqueza que eu sentia não era só da gravidez. Eles estavam me drogando. Me mantendo incapacitada, controlável.
A dor no meu joelho latejou, uma dor crônica que se tornou parte de mim. De repente, a lembrança daquele jogo voltou, mas com uma clareza aterrorizante. O zagueiro que me acertou... ele jogava no time de Felipe. Lembro-me do seu olhar depois da falta. Não era de preocupação. Era de dever cumprido.
Não foi um acidente. Foi uma armadilha.
Felipe, meu namorado na época, armou para que eu me lesionasse. E Ricardo... Ricardo provavelmente assistiu a tudo da arquibancada, já planejando seu próximo movimento, como um abutre esperando a carcaça. Minha tragédia foi a oportunidade dele.
A onda de compreensão foi tão avassaladora quanto a dor da lesão original. Cada gesto de "bondade" de Ricardo nos últimos quatro anos se revelou em minha mente, agora tingido com a cor da manipulação.
O apoio financeiro. O casamento apressado. A insistência para que eu ficasse em casa, para que "não me esforçasse". Não era cuidado. Era controle. Ele estava construindo minha jaula, peça por peça, e eu a chamei de lar.
Uma fúria impotente me consumiu. Tentei me levantar da cama rápido demais e meu joelho falhou. Caí de volta nos travesseiros, ofegante. Meu corpo era uma prisão. Grávida, com a mobilidade reduzida, dopada. Como eu poderia lutar? Como eu poderia salvar meu filho?
A porta do quarto se abriu. Ricardo entrou, trazendo uma bandeja com o almoço.
"Vi que você mal tocou no café da manhã. Você precisa se alimentar, Luana. Pelo nosso bebê."
Ele se sentou na beira da cama, pegou o garfo e tentou me dar comida na boca, como se eu fosse uma criança. Seu rosto era a imagem da preocupação. A máscara de marido perfeito era impecável.
O cheiro da comida revirou meu estômago. O homem que orquestrou minha ruína agora queria me alimentar. A ironia era doentia.
Eu virei o rosto.
"Não estou com fome."
Sua expressão mudou por uma fração de segundo. Um lampejo de impaciência, de irritação. Mas logo o sorriso preocupado voltou.
"Você precisa, querida. Só um pouco."
Ele insistiu, e para não levantar suspeitas, eu comi. Cada garfada era um veneno, um lembrete da minha condição.
Naquela noite, o Dr. Costa voltou.
"Ricardo me disse que você não está se sentindo bem. Vou te dar algo para ajudar a relaxar e dormir."
Outra injeção. Eu não protestei. Fechei os olhos, sentindo o líquido frio se espalhar pela minha veia. Mas desta vez, não era só fraqueza que eu sentia.
Enquanto a droga fazia efeito, a última chama de qualquer sentimento que eu pudesse ter por Ricardo se apagou. Não havia mais dor, não havia mais mágoa. O espaço que antes era preenchido por um amor fabricado agora estava vazio, frio e duro como aço.
O amor havia morrido. E em seu lugar, algo muito mais perigoso começava a crescer.
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