
Amor Traído: A Ascensão de uma Herdeira Secreta
Capítulo 3
Ponto de Vista de Elisa Salles:
Na manhã seguinte, agi com um senso de propósito que não sentia há anos. Arrumei uma única mala com meus itens essenciais, deixando para trás tudo que Caio já me deu. Então, dirigi até nosso escritório compartilhado e entrei diretamente na sala do meu sócio. Ele também era o chefe de Caio.
"Estou me demitindo", eu disse, colocando a carta em sua mesa.
Marcos me encarou, boquiaberto. "Elisa, o que é isso? Acabamos de fechar a conta da Prentiss. O conceito do seu restaurante foi o que fechou o negócio." Ele empurrou a carta de volta para mim. "Tire férias. Um mês. O que você precisar. Mas você não pode sair."
Nesse momento, a porta se abriu e Caio entrou, parecendo amassado e cansado. Ele usava as mesmas roupas de ontem. Um cheiro fraco e enjoativo do perfume floral de Kátia pairava sobre ele. Meus olhos imediatamente se prenderam a uma leve marca vermelha logo abaixo de sua mandíbula, parcialmente escondida pelo colarinho. Uma mancha de batom.
Uma memória surgiu, nítida e dolorosa. Alguns anos atrás, depois de uma noite particularmente apaixonada, ele notou uma marca de batom em seu pescoço e ficou furioso. "Elisa, eu tenho uma reunião com um cliente", ele esbravejou. "Isso não é profissional. Você tem que ser mais cuidadosa."
Eu tinha sido tão cuidadosa desde então, sempre atenta à sua imagem impecável, sua reputação profissional. Eu me contive, contive minha paixão, tudo por ele.
Agora, olhando para aquela mancha descuidada de batom rosa, percebi que nunca foi sobre profissionalismo. Foi sobre mim.
Marcos, alheio, levantou as mãos em exasperação. "Caio, fale com sua namorada. Ela está tentando pedir demissão logo depois de fecharmos o maior negócio de nossas carreiras."
Os olhos de Caio se arregalaram, primeiro em confusão, depois em irritação ao olhar para mim. Ele deu um passo à frente, automaticamente tentando me alcançar.
"O que é isso?", ele perguntou, sua voz baixa. "Você ainda está chateada com ontem à noite?" Marcos saiu, fechando a porta atrás de si para nos dar privacidade.
Caio me encurralou contra a mesa. "Olha, eu já pedi desculpas. A Kátia estava numa enrascada. Você sabe o quanto esse projeto da orla significa para ela." Ele tentou enquadrar meu rosto com as mãos, mas eu me virei.
Ele suspirou, um som de quem sofre há muito tempo. "Não seja assim, Elisa. É só um pedaço de papel. Assinaremos na semana que vem. É mesquinho jogar sua carreira fora por causa de uma reunião remarcada."
Minha voz estava quieta, desprovida da emoção que ele esperava. "Eu só estou cansada, Caio. Preciso de uma pausa."
Sua mandíbula se contraiu. "Uma pausa? Você pode tirar férias. Você não pode se demitir. O que as pessoas vão dizer? Vai fazer parecer que a Kátia te expulsou. A reputação dela não pode sofrer um golpe desses agora."
A ironia era tão espessa que eu poderia ter engasgado. Meus dias de férias? Eu os usei todos meses atrás, cobrindo-o em viagens de negócios que ele cancelou para ajudar Kátia com suas "emergências".
E lá estava de novo. Sua primeira preocupação não era comigo, ou com nossa empresa, ou com nosso futuro. Era com ela. Como isso iria parecer.
Eu não disse nada, meu olhar fixo naquela mancha em seu pescoço.
Ele seguiu meus olhos, e um lampejo de pânico cruzou seu rosto. Ele rapidamente ajeitou o colarinho. "É uma irritação", disse ele, a mentira desajeitada e óbvia. "O colarinho da minha camisa estava me arranhando."
A mentira nem doeu mais. Era apenas... patética.
Eu assenti lentamente, como se aceitasse sua explicação ridícula. "Ok."
O alívio que tomou conta de seu rosto foi nojento. Ele achou que tinha se safado. Ele achou que eu ainda era a mesma mulher ingênua que acreditava em todas as suas desculpas.
Ele se inclinou, sua voz suavizando em um murmúrio persuasivo. "Escuta. Eu vou consertar isso. Vou te levar naquele restaurante francês novo hoje à noite, aquele que você queria experimentar. Vamos comemorar direito. Só nós dois."
Eu permaneci em silêncio.
Ele tomou meu silêncio como consentimento, um sorrisinho presunçoso brincando em seus lábios. Ele achou que me tinha. Ele achou que um jantar chique poderia remendar a ferida aberta em nosso relacionamento.
Eu tinha planejado dizer a ele que estava voltando para Bento Gonçalves. Eu tinha planejado contar a ele a verdade sobre minha família.
Mas olhando para ele agora, para seu engano casual e seu egocentrismo monumental, percebi que ele não merecia a verdade. Ele não merecia mais nenhuma das minhas palavras, minhas explicações, minha energia.
Ele não merecia saber para onde eu estava indo.
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