
Amor Roubado, Coração Quebrado
Capítulo 2
Hoje é nosso décimo terceiro aniversário de casamento.
Olhei para a mesa cheia de pratos que preparei com tanto esmero, uma sensação estranha de expectativa e nervosismo se misturando em meu peito. Treze anos. Um terço da minha vida, entregue a um homem chamado Pedro.
Ele me disse que faria uma surpresa, que voltaria cedo para casa. Mas o relógio na parede já passava das nove da noite, e a comida na mesa estava esfriando. A casa estava mergulhada em um silêncio que parecia gritar.
Meu coração afundou um pouco a cada tique-taque do relógio. Peguei o celular, pronta para ligar, quando uma notificação de uma rede social apareceu na tela. Era de Bruna, a "irmã" de coração de Pedro, a mulher que ele sempre defendia e protegia mais do que a mim.
A foto era dela, em um quarto de hotel de luxo, com o rosto pálido e lágrimas nos olhos. A legenda dizia: "Me sinto tão mal, preciso de alguém para me salvar."
Uma raiva fria começou a subir pela minha espinha. Era sempre assim. Sempre que tínhamos um plano, um momento importante, Bruna aparecia com uma crise.
Respirei fundo e liguei para Pedro. A chamada foi atendida no segundo toque.
"Sofia, o que foi?" A voz dele soava apressada e ansiosa.
"Pedro, onde você está? A comida vai esfriar."
"Ah... Sofia, desculpe. Bruna não está se sentindo bem. Estou com ela no hospital. Acho que ela teve uma intoxicação alimentar."
Hospital. A mesma desculpa de sempre.
"Em qual hospital vocês estão?" perguntei, minha voz soando mais calma do que eu me sentia.
Ele hesitou por um segundo. "No Hospital Central. Mas não precisa vir, está tudo sob controle. Eu volto logo."
Desliguei o telefone. Meu corpo tremia. Eu sabia que ele estava mentindo. O Hospital Central ficava do outro lado da cidade, mas eu conhecia o hotel da foto de Bruna, era o Grand Hyatt, a apenas dez minutos de nossa casa.
Sem pensar duas vezes, peguei as chaves do carro e saí.
O corredor do hotel era luxuoso e silencioso. Encontrei o número do quarto que vi discretamente na chave que Bruna deixou cair na foto. Meu coração batia tão forte que parecia que ia sair pela boca.
A porta estava entreaberta.
Empurrei-a devagar.
A cena que vi quebrou meu mundo em mil pedaços.
Pedro estava sentado na beira da cama, e Bruna, vestindo apenas uma camisola de seda fina, estava em seus braços, chorando. Não havia nenhum sinal de doença, apenas um drama mal encenado. Ele a abraçava com força, acariciando seus cabelos, o mesmo gesto que ele costumava fazer para me acalmar.
"Pedro, a culpa é minha. Eu não deveria ter te chamado. Agora a Sofia vai ficar com raiva de você." A voz de Bruna era manhosa e cheia de uma falsa fragilidade.
"Não se preocupe com ela. Sua saúde é mais importante."
Fiquei parada na porta, congelada. O som das palavras dele ecoou em minha mente. Naquele momento, os treze anos do nosso casamento se transformaram em uma piada de mau gosto.
"Então é essa a sua 'surpresa' de aniversário, Pedro?" Minha voz saiu rouca, cheia de uma dor que eu não conseguia esconder.
Pedro se virou bruscamente, o pânico estampado em seu rosto. Ele rapidamente soltou Bruna.
"Sofia! O que você está fazendo aqui? Não é o que você está pensando!"
Bruna, ao me ver, começou a chorar ainda mais alto, como se fosse a vítima. "Sofia, me desculpe! Eu só... eu me senti muito sozinha e com dor, e o Pedro é a única família que eu tenho."
Olhei para Pedro, esperando uma explicação, uma negação, qualquer coisa.
"Foi um acidente, Sofia. Ela me ligou dizendo que estava passando mal, eu só vim ver como ela estava." Ele gaguejava, suas desculpas soando patéticas e vazias.
"Um acidente? No nosso aniversário? Em um quarto de hotel? Com ela vestida assim nos seus braços?" Cada palavra era uma facada.
Pedro olhou para Bruna, que agora se encolhia na cama, soluçando dramaticamente. Seu instinto protetor falou mais alto. Ele se virou para mim, a expressão de pânico substituída por uma de irritação.
"Ela está frágil, Sofia. Ela precisa de mim. Eu sou responsável por ela."
Essa frase. "Eu sou responsável por ela."
Ele a repetiu como um mantra por anos. E eu, como uma idiota, acreditei.
Uma risada amarga escapou dos meus lábios. "Responsável por ela? E por mim, Pedro? Quem é responsável por mim? Eu sou sua esposa!"
Minha voz se elevou, cheia de toda a dor e frustração acumuladas. Eu não aguentava mais.
"Vamos nos divorciar, Pedro."
A palavra pairou no ar, pesada e definitiva.
Pedro me olhou, incrédulo. Em vez de responder, ele fez o que sempre fazia quando a conversa se tornava difícil. Ele estendeu a mão e, com um gesto lento e deliberado, retirou o aparelho auditivo do ouvido.
O mundo dele ficou em silêncio. Ele não precisava mais me ouvir. Não precisava mais lidar comigo.
Naquele momento, Bruna soltou um gemido e fingiu desmaiar, caindo dramaticamente para o lado na cama.
Foi o gatilho final para Pedro. Ele nem olhou para trás. Correu para o lado dela, gritando seu nome. "Bruna! Bruna, o que você tem?"
Ele a pegou nos braços, ignorando completamente a minha presença. Ele a segurava com um cuidado e uma urgência que ele nunca demonstrou por mim.
E então ele se levantou, carregando-a, e passou por mim como se eu fosse invisível, correndo para fora do quarto, gritando por ajuda.
Fiquei sozinha no quarto de hotel, o cheiro do perfume caro de Bruna misturado com o cheiro da traição. A mesa de jantar que preparei com tanto carinho, a nossa casa, os nossos treze anos... tudo parecia uma miragem distante.
Eu me senti uma completa idiota.
Não sei quanto tempo fiquei ali, paralisada. Eventualmente, minhas pernas cederam e eu caí no chão, as lágrimas finalmente rolando pelo meu rosto.
Horas depois, Pedro voltou para casa. Eu estava sentada no escuro da sala de estar, o bolo de aniversário intocado na mesa.
Ele acendeu a luz, e o brilho repentino me fez piscar. Ele parecia cansado e irritado.
"Sofia, onde você estava? Fiquei preocupado."
A ironia era tão absurda que eu só conseguia rir. Um riso seco e sem alegria.
"Você estava preocupado? A sério?"
Ele franziu a testa, sem entender minha reação. "Levei a Bruna para o hospital. O médico disse que foi uma crise de pânico grave. E você simplesmente desapareceu."
Ele se aproximou e viu meu rosto inchado de tanto chorar. Mas não havia compaixão em seus olhos. Havia acusação.
"Você não precisava ter feito aquela cena, Sofia. Você a assustou. Você deveria ser mais compreensiva. Você sabe o quanto ela é sensível."
Eu o encarei, incrédula. Ele estava me culpando. Ele me traiu no nosso aniversário, escolheu outra mulher na minha frente, me abandonou, e agora, a culpa era minha por não ser "compreensiva".
A dor no meu peito se transformou em uma raiva gelada. A mulher que eu fui por treze anos, a Sofia compreensiva, a Sofia que se sacrificava, morreu naquela noite, naquele quarto de hotel.
"Fora", eu disse, com a voz baixa e firme. "Saia da minha casa."
Ele me olhou como se eu tivesse enlouquecido. "Nossa casa, Sofia. E eu não vou a lugar nenhum. Nós precisamos conversar sobre isso amanhã, quando você estiver mais calma."
Ele se virou e foi para o quarto, como se a conversa estivesse encerrada. Como se minha dor não significasse nada.
Eu fiquei ali, no escuro, sentindo o peso esmagador de treze anos de mentiras.
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