
Amor Proibido, Legado de Sangue
Capítulo 3
Minha história familiar é um buraco negro.
Fui abandonada pela minha mãe quando era um bebê, uma sombra sem rosto de quem eu não tenho nenhuma memória.
Meu pai, o chefão do crime, me criou. "Criou" é uma palavra forte, ele me sustentou.
Ele me colocou nesta casa pequena e segura na borda de um mundo que ele controlava, e me deixou lá, como uma planta que se rega de vez em quando para não morrer.
Eu o via talvez uma vez por ano.
Ele chegava em um carro preto, sempre com dois seguranças.
Entrava, olhava ao redor para ver se tudo estava em ordem, me olhava como se eu fosse um item em uma lista de tarefas.
"Você está bem, Sofia?", ele perguntava.
"Sim, pai."
"Precisa de alguma coisa?"
"Não, pai."
Ele então deixava um envelope grosso de dinheiro na mesa e ia embora.
Nenhum abraço, nenhum afeto.
Apenas a transação fria que definia nosso relacionamento.
Ele era um fantasma na minha vida, uma presença distante e poderosa que me mantinha viva, mas solitária.
Eu vivia em uma bolha.
Não tinha amigos, não ia a festas, não me metia em confusão.
Eu passava meus dias lendo, estudando, observando o mundo pela internet.
Era uma vida de clausura voluntária, uma estratégia para evitar o perigo que eu sabia que me cercava, mesmo sem vê-lo.
Meu pai era o dono das sombras, e eu era seu segredo mais bem guardado.
A tranquilidade acabou em uma terça-feira chuvosa.
O som da chuva na telha era a única coisa que quebrava o silêncio da casa.
Eu estava na cozinha, preparando um café, quando ouvi o barulho.
Não foi um barulho alto, foi um estalo seco, o som de madeira se partindo.
A porta dos fundos.
Meu corpo congelou por um instante.
Eu nunca recebia visitas. Ninguém sabia que eu morava ali, além do meu pai e de seus homens de confiança.
Lentamente, sem fazer barulho, eu me movi para a sala, pegando a faca mais pesada da gaveta de talheres no caminho.
Meu coração batia forte, mas minha mente estava clara.
Pela fresta da porta da sala, eu vi duas silhuetas masculinas se movendo no corredor.
Eles usavam máscaras e roupas escuras.
Eles não estavam ali para roubar.
Eles se moviam com um propósito, um objetivo.
E esse objetivo era eu.
O pânico tentou me dominar, mas eu o sufoquei.
Anos de solidão e observação me treinaram para isso.
Eu corri para o meu quarto, tranquei a porta e empurrei a cômoda pesada contra ela.
Era uma solução temporária, eu sabia.
Ouvi os passos deles se aproximando, as vozes abafadas.
"Ela está aqui. Verifiquem o quarto."
Eu não tinha para onde correr. A janela do meu quarto tinha grades, uma das muitas medidas de "segurança" do meu pai.
A maçaneta da porta girou, seguida por um baque surdo quando o corpo bateu contra a madeira.
Eles iam arrombar.
Olhei ao redor do quarto, desesperada.
Meu olhar caiu sobre o pequeno alçapão no teto, que levava ao sótão.
Era minha única chance.
Eu subi na cama, usei toda a minha força para empurrar a tampa do alçapão.
Poeira e teias de aranha caíram no meu rosto.
Com um esforço enorme, eu me ergui, passando pelo buraco estreito.
No momento em que meus pés deixaram o chão do quarto, a porta se abriu com um estrondo.
Eu me arrastei para o fundo do sótão escuro e poeirento, prendendo a respiração, tentando fazer meu coração parar de martelar no meu peito.
Eles entraram no quarto.
"Ela não está aqui! Onde ela foi?"
"A janela tem grades. Procurem de novo!"
Eu fiquei imóvel, encolhida atrás de caixas velhas, a faca ainda na minha mão.
A luz da lanterna de um deles varreu o sótão através da abertura, passando a centímetros de onde eu estava escondida.
Foi o minuto mais longo da minha vida.
"Ela sumiu. Vamos embora, antes que alguém apareça."
Ouvi eles saindo do quarto.
O som da porta da frente batendo me fez soltar o ar que eu nem sabia que estava prendendo.
Eu fiquei ali, no escuro, por horas.
Tremendo, não de medo, mas de uma raiva fria que começava a nascer dentro de mim.
Alguém quebrou as regras.
Alguém invadiu meu santuário.
Alguém tentou me matar.
E no mundo do meu pai, só havia uma razão para isso: uma ordem vinda de dentro.
Quando finalmente a noite caiu, eu desci do sótão.
A casa estava revirada.
Eu não podia ficar ali.
Peguei o envelope de dinheiro que meu pai tinha deixado, uma muda de roupa e a faca.
Eu saí pela porta dos fundos quebrada e andei pela noite chuvosa, sem rumo.
Eu não podia ligar para o Sílvio, não podia confiar em ninguém.
Caminhei por horas, até que meus pés doíam e minhas roupas estavam encharcadas.
Eu acabei em frente a um bar de luxo, um lugar que eu só tinha visto em filmes.
Na porta, um segurança enorme me olhou de cima a baixo.
Eu estava um lixo.
Mas antes que ele pudesse me expulsar, um homem saiu do bar.
Ele era mais velho, vestia um terno caro e tinha um ar de autoridade.
Ele me olhou, e algo em seu rosto mudou. Uma mistura de surpresa e curiosidade.
"Você está bem, moça?", ele perguntou.
Eu não respondi. Apenas o encarei, exausta e desconfiada.
Ele tirou o casaco e colocou sobre os meus ombros.
"Venha. Você não pode ficar na chuva."
Eu não sabia quem ele era, mas naquele momento, eu não tinha outra opção.
Eu o segui para dentro, para um mundo de luz e calor.
Um mundo que eu logo descobriria ser tão ou mais perigoso que a escuridão de onde eu vim.
Aquele homem, sem saber, tinha acabado de me dar refúgio.
Ele era Marco, o Chefe, o homem mais poderoso da cidade.
O rival do meu pai.
E eu tinha acabado de cair no centro do seu império.
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