
Amor Perdido, Sonhos Renascidos
Capítulo 3
A noite caiu e Isabella não apareceu. Eu não esperava que ela o fizesse.
A geladeira estava quase vazia, como sempre. Minha mesada, rigidamente controlada por ela, mal cobria o básico. Qualquer gasto acima de 50 reais precisava de um pedido formal, uma justificativa, e quase sempre, uma negativa.
Fui até o quarto e abri a gaveta do meu lado da cama. Lá, em uma caixa de veludo, estava a única coisa de valor que eu ainda possuía: a aliança de casamento. Ouro branco, pesado, um símbolo de promessas que agora soavam como uma piada de mau gosto.
Peguei a caixa e saí de casa. A loja de penhores do bairro ainda estava aberta, sua luz de néon piscando na rua úmida. O homem atrás do balcão, um senhor de óculos grossos, mal olhou para mim.
"O que temos aqui?" , ele perguntou, a voz rouca.
Coloquei a caixa sobre o balcão e a abri. Ele pegou a aliança, examinou-a com uma lupa, pesou-a na mão.
"Posso te dar 800 reais por ela."
Era um valor ridículo, mas eu não estava em posição de negociar.
"Eu aceito."
Ele me entregou as notas amassadas e eu saí da loja sem olhar para trás. O espaço vazio no meu dedo anelar parecia estranhamente leve.
Com o dinheiro no bolso, fui a um supermercado. Enchi o carrinho com coisas que eu não comprava há anos: um bom pedaço de carne, queijos, frutas frescas, até uma garrafa de vinho. Coisas simples, pequenos luxos que me foram negados por tanto tempo.
Enquanto esperava na fila do caixa, meu celular vibrou. Era uma mensagem de Isabella.
"Estou ocupada com o Lucas. Ele não está se sentindo bem. Não me espere."
Eu não respondi.
Na rua, a caminho de casa, vi uma aglomeração de pessoas olhando para o céu. Curioso, parei também.
No céu escuro da cidade, drones se alinhavam, formando letras luminosas. Primeiro um 'L' , depois um 'U' , 'C' , 'A' , 'S' . E então, um coração. E por fim, a frase: "Para sempre meu."
Era para ele. Uma declaração de amor pública e extravagante. Uma demonstração de poder e afeto que eu nunca, nem em meus sonhos mais otimistas, receberia dela.
As pessoas ao meu redor suspiravam, tiravam fotos, comentavam sobre como era romântico.
"Quem será o sortudo?" , uma moça perguntou ao namorado.
Eu sabia quem era. E, pela primeira vez, a resposta não me machucou. Apenas confirmou o que eu já havia entendido.
Naquele relacionamento, eu não era nem o segundo lugar. Eu não estava nem na competição. Eu era o funcionário doméstico, o gerente financeiro de um orçamento miserável, o marido de fachada que servia para manter as aparências.
O amor, a dedicação, os sacrifícios… nada disso importava. Para Isabella, lealdade e valor eram medidos em cifras, e eu, com meus sonhos abandonados e minha mão agora inútil, era um investimento falido.
Cheguei em casa, guardei as compras. Abri a garrafa de vinho, me servi uma taça e fui para a varanda. Os drones ainda brilhavam no céu, um monumento ao amor deles, pago com o dinheiro que poderia ter salvado minha carreira.
Eu levantei minha taça. Não para eles. Para mim. Para a liberdade que estava começando a saborear.
O vinho era bom. Tinha gosto de recomeço.
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